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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Triste realidade: maioria dos homens não quer fazer sexo oral nas parceiras

Pesquisa revela que para cada dez homens, só 4 fazem sexo oral nas parceiras. - iStock
Pesquisa revela que para cada dez homens, só 4 fazem sexo oral nas parceiras. Imagem: iStock
Ana Canosa Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Canosa

Colunista de Universa

09/02/2021 04h00

Meu namorado não gosta de fazer sexo oral é eu não sei como falar de uma forma que ele não se ofenda e entenda que eu gosto disso e me faz falta. Você pode me ajudar?

Triste realidade. Uma pesquisa da empresa Sex Wipes com pessoas heterossexuais de 18 a 30 anos chegou à conclusão que para cada 8 mulheres (em 10) que fazem sexo oral nos parceiros, o inverso é desolador: para cada dez homens, só 4 fazem sexo oral nas parceiras.

Vamos partir da premissa que ninguém é obrigado a gostar de sexo oral e que os motivos para o desagrado passam pelo: nojo que advém da ideia de colocar a boca na região genital; repulsa pelo ato quando ele é contra princípios e valores morais; sensação desconfortável no contato por ser a vulva molhada e úmida; receio de contrair uma IST; incômodo com os pelos ou com o odor; falta de curiosidade em explorar sensações e práticas; crença de que só a penetração satisfaz uma mulher; egoísmo e preguiça.

Não sei qual dessas motivações regem a negativa do seu namorado a fazer sexo oral em você, mas vocês precisam ter clareza para mudar a situação. Se é que isso será possível.

Sim, porque a gente consegue resolver fatores como a preguiça, melhorar o egoísmo, esclarecer necessidades e estimular a curiosidade sobre o outro. Mas quando a reação é de nojo, fica tudo mais difícil.

O nojo é uma reação evitativa a situações desagradáveis, portanto uma "defesa do organismo" diante de coisas, objetos, organismos e secreções que sentimos como ameaçadoras a nossa saúde. Sabemos que uma barata peluda e voadora morre com um pisão, mas infelizmente a repulsa faz você subir na cadeira e gritar, mesmo sabendo que é uma situação exagerada e pouco racional. É preciso economizar a vergonha nesses casos, pois em um primeiro momento não como conter.

Se for só um nojinho, diante da ideia do sexo oral, ou uma experiência negativa que seu namorado tenha vivido anteriormente, penso que com disposição e abertura seja possível avançar. Terão que investir na desconstrução sobre vulvas e vaginas, apresentá-la, dizer que ela não morde e que sim, é molhada e tem cheiro.

Quem sabe vocês podem começar no chuveiro, para acalmar o ímpeto dele se as associações estão relacionadas com a sujeira. Sobre a contaminação por ISTs - sim, elas podem acontecem no sexo oral, então sugiro você comprar uma calcinha específica para a prática, fabricada com látex ultra macio e extrafino, ou usar o modelo que tem látex só na parte onde fica a vulva e a abertura vaginal. Bingo, resolvemos nojo e contaminação de um jeito só.

Mas daí tem você, minha cara leitora, que precisará entregar-se totalmente as sensações do sexo oral, sem se preocupar com o que o seu namorado está sentindo ou não. Desde que vocês tenham conversado sobre isso e ele se disponha a romper barreiras e lhe agradar, seja autônoma e evite pensamentos maternais, preocupando-se como ele está se sentindo. Nada de "coitadinho". Ele que lute e você que desfrute. Aconselho inclusive que feche os olhos para se concentrar, pois não há nada mais broxante que visualizar caretas a fazer-lhe sexo oral.

Aliás, é essa preocupação excessiva com o que ele pode sentir e pensar que deve estar lhe prejudicando muito. Veja que, quando você fica preocupada que ele se ofenda se você falar sobre a importância do sexo oral no seu prazer, revela que, ou você o vê de maneira muito imatura e egocêntrica, ou ele se ofende por muito pouco. Talvez as duas coisas.

Precisamos dar conta que nossas parcerias são seres sexuais, com desejos, sensações e emoções especificas, que não nos dizem respeito. Unir duas pessoas para fazer sexo bom, requer agraciar a ambos, compreender preferências, aguçar desejos, negociar práticas sexuais. Embora alguns casais encontrem um encaixe natural que pega fogo e funciona bem, ainda assim haverá momentos que desejos individuais afloram e precisem ser acolhidos, mesmo que nos causem espanto.

Sendo assim, sugiro que investigue por que raios uma simples preferência sexual pode ser encarada como ofensa pessoal. Sim, talvez seu namorado seja do tipo de pessoa que, ao ser contrariado, tenha reações agressivas, acusando você de dizer que ele não sabe transar, que ele não faz nada direito ou pior, dizer que você nunca esteja satisfeita com nada.

Quem sabe ele faz a linha passivo-agressivo, aquele que silencia, ameaça o vínculo de amor se afastando, ou te penaliza em qualquer chance que possa ter. Se for isso, temos um problema maior do que a falta do sexo oral: o aprisionamento em uma relação na qual o seu desejo fica à mercê do humor alheio. Repense.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL