PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

Rui se apaixonou por feminista mas quis fugir ao saber passado sexual dela

Rui investigou a vida íntima da namorada e não gostou do que descobriu.  - RgStudio/Getty Images/iStockphoto
Rui investigou a vida íntima da namorada e não gostou do que descobriu. Imagem: RgStudio/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

30/01/2021 04h00

Rui, 25 anos, conheceu uma mulher num processo recente de mudança de cidade, que se dizia uma feminista "ferrenha", que não queria "macho nenhum", (palavras dela, segundo ele). Ele confessa que achou divertido o fato de a moça ser livre, leve e solta, afinal de contas era justamente o que ele queria também, sexo sem compromisso. Mas daí, após o 3º encontro, ele foi ficando mais interessado, afinal a relação que se estabeleceu era prazerosa e divertida e ele foi percebendo, que a moça foi "amolecendo" para o lado dele, e ele foi ficando apaixonado "contra a vontade mesmo", conta.

Rui pediu a moça em namoro, depois de 6 encontros e, apesar de ela dizer que não queria, acabou aceitando com um "sorrisão no rosto". Como se não bastasse os sentimentos de alegria e êxtase que estava vivendo, ele resolveu começar a investigar a vida íntima dela e descobriu que ela já "rodou" bastante pela cidade, o que o deixou triste e sem saber o que fazer.

Eu tenho duas leituras para essa atitude de Rui. A terceira ele mesmo já fez, quando me confessou que apesar de saber que ela era livre para fazer o que bem entendesse, antes do relacionamento, seu lado "machista" foi ativado e daí o incômodo. Sobre esse ponto, eu tenho pouco a declarar, além de acolher o reconhecimento do rapaz, o que é muito melhor do que negá-lo e incentivar Rui a sempre pensar pelo avesso: o fato de ele ter sido "rodado" antes do namoro, significa o que?

Que ele gosta de sexo? Que estava aproveitando a sua juventude? Adquirindo experiências? Alimentando o ser transante que habita nele? Até aqui, só vejo coisas positivas.

Ah, mas será que o Rui precisará necessariamente de variação sexual, que ele não se contentará com uma só parceira ao longo da vida? Mesmo que jure de pé junto que não, eu alerto para o fato de que é muito arriscado fazer previsões dessa natureza e que a maioria dos que adoram variação continuam fingindo que não. Nada de garantias no campo do amor. Sou mais da posição que, quanto mais experiência sexual, mais chance de fazermos boas escolhas.

Enfrente Rui que a posição de igualdade é de fato incômoda, mas eu lhe garanto que se estivesse namorando uma mulher abstêmia, só estaria livre do seu passado (e mesmo assim lembramos que sexo não significa penetração), nunca do seu futuro. Seu problema é justamente não aguentar as incertezas da vida - e quem sabe o medo de ser exposto aos comentários dos amigos.

Mas vamos às outras duas considerações: a paixão nos deixa vulnerável e isso nos incomoda muito. Sabemos que a outra pessoa pode partir o nosso coração. Então, muitos de nós ativam as defesas, a fim de garantir não ser pego de surpresa. Quando Rui percebe que ele não é e nunca será uma unanimidade na vida da namorada - nem de ninguém - sente a sua identidade ameaçada - mas desloca o problema para ela: a moça que tem um passado "condenável".

Atribuindo características na parceira que ele moralmente acredita ser nefastas, Rui se afasta da própria sombra. O curioso é que, tentando reforçar a sua própria moralidade, diante das atitudes que julga na namorada, ele também demonstra o quanto subestima a si mesmo, afinal é a fantasia de ser substituído por outros que o atormenta, como se não fosse capaz de encantar e satisfazer essa mulher tão desejante e dona de si.

A segunda questão tem relação com a ideia de merecimento. Rui me diz que nunca fora "tão bem tratado na vida por uma mulher" e que está "muito feliz". Que a namorada, além de gostar de sexo: é 'bonita, gente boa, divertida e de família legal'. O que faz esse rapaz pensar em abrir mão dessa relação, indo na contramão da humanidade?

A ideia da tragédia anunciada, que nos destruirá em segundos após uma intensa alegria, já é nossa velha conhecida. Como nunca nos sentimos seguros ou merecedores o bastante, a alegria pode se transformar no anúncio de um mau presságio. Aprendemos a guardar segredos para combater a inveja e a desconfiar dos outros, esperando que mais dia, menos dia, nos roubarão esse sentimento. Somos estimulados a competir e acabamos criando fantasmas persecutórios.

Enfrente-os Rui, com coragem e com a certeza de que você merece viver a sua história de amor, dure o tempo que for.