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Ana Canosa

Por que um pênis pequeno incomoda tanto os homens?

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

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Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

10/11/2020 04h00

No meu livro "Sexoterapia: desejos, conflitos, novos caminhos em histórias reais", eu conto um caso que é muito querido na minha memória por ser um dos poucos em que atendi adolescentes. Divido ele aqui com vocês. Por uma série de fatores que envolvem desde grana até conhecimento e coragem de enfrentar o problema, não é tão comum que um adolescente busque um sexólogo logo de cara, mas esse menino era especialmente articulado e bem informado e não hesitou em me procurar com uma demanda que parecia absolutamente concreta: pinto pequeno.

Como pênis pequeno é um dado da realidade — existem no mundo pintos pequenos —, eu comecei partindo do pressuposto de que a impressão dele correspondesse à verdade. Em casos assim, dá para trabalhar posições em que a penetração é mais profunda e compensa o tamanho, dá para falar sobre como usar vibradores, dedos e língua como aliados, como construir uma autoestima e uma masculinidade menos dependentes do tamanho do falo. A questão é que logo ficou claro que ele mesmo não acreditava que o pinto fosse assim tão diminuto.

A partir daí começamos um trabalho investigativo. Ele já tinha visto outros pênis por aí para comparar? Sim, mas nenhum parecia com o seu. Pode me apontar aqui nesse livro com trocentas fotos de membros qual seria parecido?Nenhum.

Era um pinto muito específico, na visão de seu dono. Objetivamente, o tamanho era dentro da normalidade: 14 centímetros em ereção, o que está completamente dentro da média brasileira. Mesmo assim, resolvi encaminhá-lo para um urologista amigo meu que cravou sem hesitar: é um dos pintos mais comuns que já vi na vida.

Nem assim o rapaz sossegou. Agora o problema já não era o tamanho, mas que o membro tinha "cara de pinto de criança". Aos 18 anos, espinhas no rosto e módulo do cursinho debaixo do braço, o que exatamente ele esperava? Um pinto de velho?

Eu me divertia com esse caso porque era bastante esquemático de como a masculinidade opera. O garoto pegava todas as inseguranças dele com essa passagem para a vida adulta, com ainda ter um pouco de cara e de vida de criança e depositava no dito cujo. Assim como não havia nada errado com o pênis, também não havia nada errado com ele. Era super bonitinho, estudioso, queria cursar engenharia numa faculdade difícil de passar. Um pouco inexperiente, não havia tido namoradas, apenas algumas incursões a casas de prostituição e uma paixonite por uma vizinha de quem mal conseguia se aproximar.

Nos meses em que o atendi, criamos uma relação muito legal. Eu na época tinha 30 anos e muito carinho por aquele rapaz que queria ver no pênis uma maturidade que apareceria nele mesmo. Um dia ele chegou no meu consultório de moto debaixo de uma baita chuva. Foi ao banheiro, se secou sem grande sucesso e, quando foi sentar na poltrona da minha sala, perguntou: Ana, posso tirar a calça para não molhar o seu sofá? Minha vontade era de dar risada, mas apenas expliquei que não, claro que não, vai ao banheiro se secar direito, menino. Ele ficou constrangidíssimo, se secou por vários minutos e depois retomamos.

Não acredito que ele tenha se dado conta, no rompante da situação, que estava propondo ficar de cuecas durante 1 hora. Talvez colocasse assim, uma almofada ou duas por cima, mas em algum momento teria noção de realidade. É claro que de algum modo ele queria me mostrar o pinto. Por exibicionismo, projeção, para ter um aval, um carimbo, o A+ da professora. Não levei a mal, ficou como mais um daqueles momentos em que a gente se vê diante de um desejo que nos é direcionado. Mas não seria eu a mulher que lhe diria se o seu membro era concretamente adequado ou não.

De algum modo a psicoterapia o ajudou a ter mais segurança. Acompanhei seu primeiro e importante namoro e nenhuma reclamação dela quanto ao tamanho e a "cara" de seu pênis. Mais outras experiências sexuais vieram e o fantasma diminuiu. Passamos muito mais tempo trabalhando sua autoestima, suas expectativas sobre sexo, afeto e relacionamento, seu ideal masculino, as frustrações da vida.

Quanto ao pinto de criança, ele nunca arredou o pé desse diagnóstico. Procurou se desenvolver como exímio amante, investindo e preocupando-se com o prazer das mulheres com quem se relacionou. Ainda soa um alarme em sua cabeça quando uma mulher quer partir logo para a penetração, limitando suas carícias. Fica tenso, mas "me garanto né Aninha!". Hoje é homem feito, mora sozinho, trabalha e está namorando. É vida que segue.

Quando o vi, recentemente, para ler este texto, veio ao consultório com a namorada, uma moça bonita e simpática a quem convidamos, a pedido dele, para partilhar o conteúdo. Foi a maneira dele de confessar para ela esse seu sentimento de inadequação. Ela riu surpresa: Sério que você acha que tem pinto pequeno?" No que ele respondeu:

- Eu sei que não é... mas é.

Que fique registrado, a pedido dela, que o pênis dele é deliciosamente adequado.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.