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Bebês chinesas modificadas geneticamente podem ter tido cérebro aprimorado

Bebês podem nascer com uma inteligência modificada - Getty Images
Bebês podem nascer com uma inteligência modificada Imagem: Getty Images

Felipe Germano

Colaboração para o UOL, em São Paulo

22/02/2019 16h21

Talvez você tenha ouvido falar: em novembro, um pesquisador chinês chamado He Jiankui contou que criou as primeiras crianças geneticamente modificadas do planeta. Na época, ele afirmou ter editado os genes dos embriões de sete casais, e num dos casos, o processo deu certo e nasceram as gêmeas Lulu e Nana.

O cientista, que é alvo de uma investigação policial na China, disse ainda que seu objetivo era única e exclusivamente fazer com que as crianças fossem imunes a infecções por HIV. Parece, no entanto, que não foi exatamente isso que aconteceu. Pesquisadores acreditam que o experimento pode ter aprimorado o intelecto dos bebês.

O gene conhecido como CCR5 é tido como o pedaço do DNA que nos deixa vulneráveis ao vírus responsável pela Aids, pois é por meio dele que o HIV entra no sangue. He afirma que apagou exatamente esse pedaço genético dos embriões.

O que outros cientistas defendem é que a remoção do CCR5 não responde apenas à imunologia do paciente. "Provavelmente isso afetou o cérebro delas", afirmou Alcino J. Silva, neurobiologista da Universidade da Califórnia (UCLA), ao Technology Review, site do MIT (Massachusetts Institute of Technology).

Silva é co-autor de um estudo de 2016 que relaciona a remoção do gene com uma melhora na memória e na criação de novas conexões.

Para a pesquisa, Alcino e seus colegas alteraram os genes de mais de 140 ratos. Os resultados apontaram que o animal sem o gene conseguia memorizar com muito mais facilidade os caminhos do labirinto onde era colocado.

O roedor era mais habilidoso até mesmo em se adaptar. Quando percebia que parte do trajeto era modificado, conseguia, mais rapidamente que seus colegas com o CCR5, encontrar novas maneiras de chegar ao outro lado.

He, que é formado na universidade americana de Stanford, sabia disso. Dois dias após revelar sua experiência, foi entrevistado e questionado sobre a pesquisa de Alcino. "Eu vi a pesquisa, ela precisa de verificações independentes", disse. E ainda complementou :"Sou contra o uso de edição genética para aprimoramentos."

Se em ratos a remoção do gene foi positiva, em humanos a história é completamente diferente. Pesquisadores não têm ideia de como o gene pode afetar o cérebro de uma pessoa.

É exatamente por isso que esse tipo de coisa não deve ser feita

Alcino

Segundo a investigação chinesa, He "produziu falsos documentos de avaliação ética", montou "de forma privada" uma equipe de pesquisa que incluía cientistas estrangeiros e utilizou "tecnologia cuja segurança e eficácia são duvidosas".

No total, havia oito casais voluntários para a experiência, segundo os pesquisadores, e um deles desistiu durante o processo. As gêmeas nasceram, disse He, após ele ter usado a técnica CRISPR/Cas9, que atua como uma tesoura, retirando e substituindo partes indesejáveis do genoma. Os embriões editados foram implantados no útero da mãe por fertilização in vitro.

Esta técnica é extremamente controversa, principalmente porque as modificações poder ser transmitidas às gerações futuras e afetar o conjunto do patrimônio genético.

A condenação da comunidade científica chinesa e do mundo foi generalizada após os anúncios e houve um pedido por um tratado internacional sobre a edição genética.

Os detalhes da experiência nunca foram verificados de forma independente. O governo chinês exigiu a suspensão das atividades científicas do pesquisador dias depois de que o estudo foi anunciado publicamente --deste tipo de edição genética aplicada a humanos é proibido na grande maioria dos países, inclusive na China.

Mas, além do caso das gêmeas, existe um outro feto geneticamente modificado por He Jiankui. A segunda gravidez, que está em andamento, foi confirmada pelas autoridades chinesas.

Macacos geneticamente modificados

Outros cientistas chineses anunciaram ainda que clonaram cinco macacos a partir de um único macaco geneticamente modificado para sofrer distúrbios do sono, o que poderia ajudar na pesquisa de problemas psicológicos humanos.

O anúncio foi feito pelo mesmo instituto de Xangai ocupou as manchetes da imprensa internacional quando clonou em janeiro de 2018 dois macacos com o método semelhante ao usado há 20 anos para criar a famosa ovelha "Dolly".

Uma equipe do Instituto de Neurociências da Academia Chinesa de Ciências em Xangai afirmou que alterou os genes de um macaco para causar distúrbios em seu ritmo circadiano, o "relógio" do corpo. A partir deste animal foram clonados cinco outros macacos, que nasceram seis meses depois, e que mostraram sinais de sofrer de problemas mentais associados a distúrbios do sono, que incluíam depressão, ansiedade ou comportamentos ligados à esquizofrenia.

A pesquisa, publicada pela revista National Science Review, foi considerada como inédita pela imprensa chinesa.

Poo Muming, diretor do instituto de neurociência e coautor do estudo, disse à imprensa estatal que a equipe de pesquisadores poderia clonar mais macacos com diferentes patologias mentais na esperança de que futuros experimentos levem a novos medicamentos ou tratamentos.