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Clientes iFood relatam preços mais altos para quem tem cupom; empresa nega

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Imagem: iStock

Adriano Ferreira

Colaboração para Tilt, em São Paulo

29/04/2022 14h01

Clientes do iFood estão relatando que a plataforma pode cobrar preços diferentes para pessoas que pedem o mesmo prato, para entrega no mesmo endereço. O que mudaria no "preço dinâmico" seria apenas o usuário: se ele fizer parte do Clube iFood, é cobrado um valor mais alto.

A história viralizou nas redes sociais após uma publicação no Reddit feita pelo programador Felipe, de Goiânia (que pediu para ter seu sobrenome preservado).

Membro do programa de descontos Clube iFood, Felipe contou a Tilt que notou a diferença de preços quando tentou fazer a encomenda em seu celular, um Redmi Note 8, e também no de sua mãe, um iPhone 13.

Ela estava procurando algo para pedir em seu telefone pessoal e o programador sugeriu usar a conta dele, para checar se havia desconto. Foi quando se deu conta da diferença e registrou a foto: no celular dele, a feijoada saía por R$ 74,90. No dela, o mesmo prato custava R$ 66,90.

iFood cobrando valores diferentes pelo mesmo prato; imagem postada no Reddit pelo programador Filipe (sobrenome omitido) - Reprodução/Reddit - Reprodução/Reddit
As feijoadas de Filipe, com preços diferentes para ele e sua mãe
Imagem: Reprodução/Reddit

"Pedi [a comida] pelo meu, mais caro, porque meus cupons estavam prestes a vencer, então precisava gastar logo", lembra.

"Eu peço [pelo iFood] praticamente toda noite. Essa alteração foi de um restaurante que eu nunca tinha pedido. Não sei se eles estão usando isso como uma maneira [de aumentar os valores e compensar o cupom]", acrescenta o programador.

O iFood nega que isso ocorra (vide abaixo).

O professor Diogo Cortiz, de São Paulo, doutor em tecnologias da inteligência e design digital pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), não é membro do Clube iFood, mas também já se deparou com valores diferentes dentro da plataforma.

Segundo Cortiz, ele e sua esposa estavam pesquisando opções cada um no seu celular (modelos da mesma marca e com o mesmo sistema operacional). Foi quando constatou taxas e promoções diferentes para o mesmo local de entrega.

A dona de casa Juliana Osório, de Vitória (ES), também relata a Tilt outra situação similar. Seu marido foi fazer um pedido em um restaurante já conhecido, mas estranhou o valor, mais alto que o habitual. "Fui checar pelo meu aplicativo e era o preço que a gente sempre pagou. No dele, estava diferente", lembra. A discrepância chegou a quase R$ 50.

"Concluí [o pedido] pelo aplicativo do meu celular, com o preço menor. Não sei de quem é a estratégia, mas não acho que seja honesta", afirma.

O que o iFood diz

Procurada por Tilt, o iFood, por meio de sua assessoria de imprensa, afirma que não pratica preços dinâmicos e que eventuais inconsistências no sistema são prontamente corrigidas pelo time de tecnologia. Além disso, sugere que o cliente comunique qualquer ocorrência por meio do suporte no próprio app.

A empresa esclarece ainda que a estratégia de precificação dos cardápios é feita unicamente pelos estabelecimentos parceiros, sem qualquer ingerência da empresa.

Quanto ao Clube iFood, a empresa afirma que o programa permite ao cliente adquirir pacotes de cupons para descontos e que isso não interfere nos preços praticados no cardápio dos estabelecimentos.

Não há legislação sobre a prática

Segundo a advogada Pietra Quinelato, autora do livro "Preços Personalizados à Luz da Lei Geral de Proteção de Dados", existem aplicativos que podem usar algoritmos para elaborar uma precificação específica para cada cliente. Eles avaliam dados de perfil de consumo e comportamento para estimar "quanto o consumidor irá pagar", afirma.

Estes dados podem ser o sistema operacional utilizado, o histórico de compras e de navegação, a localização do perfil, a utilização de ferramentas de comparação de preços e até as rotas de acesso ao site.

No Brasil, não existe uma lei que impeça essa prática. Mas, se uma empresa decidir adotá-la, é preciso cumprir as legislações vigentes. Não apenas as do Direito do Consumidor, mas também a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).

"A empresa deverá ser transparente quanto ao tratamento realizado com os dados pessoais do usuário", ressalta Quinelato, que também é coordenadora da área de direito digital do Mansur Murad Advogados.

Quinelato sugere que, diante de qualquer dúvida, o consumidor deve solicitar esclarecimentos para a empresa. E também podem entrar em contato com órgãos de defesa do consumidor, como o Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumido). Caso se sinta prejudicado de alguma forma, também pode oficializar denúncias no órgão.