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Ficar em casa aumentou uso de fones, e por isso nossos ouvidos vão piorar

Todd Trapani/Pexels
Imagem: Todd Trapani/Pexels

Rosália Vasconcelos

Colaboração para Tilt

26/04/2021 04h00

Sem tempo, irmão

  • OMS estima que 2,5 bilhões de pessoas terão perda auditiva até 2050
  • Aumento do uso na pandemia pode ter impacto devastador no futuro
  • Sinais mostram se já existe uma lesão irreversível na audição
  • É possível sim usar fones de ouvido de maneira saudável e segura

Autoridades médicas têm chamado a atenção sobre as consequências do uso excessivo de fones de ouvido. O manuseio prolongado desse tipo de aparelho durante a pandemia de covid —por causa do home office e do ensino remoto— ampliou a probabilidade de problemas de saúde no futuro.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), uma em cada quatro pessoas viverá com algum grau de perda auditiva até 2050. A estimativa é de que esse risco atinja 50% da população entre 12 e 35 anos de idade, com perda de audição cumulativa provocada pelos novos hábitos.

Segundo Fábio Coelho, médico otorrinolaringologista do HC-UFPE (Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco), isso pode ter um impacto devastador na capacidade das pessoas de se comunicar, estudar e trabalhar. "É possível que tenhamos mais para frente uma geração de surdos", acredita.

Estima-se que usar o equipamento de áudio na potência máxima do volume aumenta os riscos de desenvolver problemas auditivos em 70%. Especialistas afirmam que não existe cura para a perda auditiva.

Crianças e jovens sob risco

Para Coelho, o desenvolvimento de tecnologias que priorizam o entretenimento e o ensino via fones de ouvido cresceu nos últimos anos, fazendo com que muitos deles já prefiram o fone ao som natural.

Isso só piorou com a pandemia. "Os jovens, que usavam quase exclusivamente para ouvir música e jogar videogame, agora chegam a passar oito a 12 horas com os fones no ouvido", completa Andréa Cintra, professora do Departamento de Fonoaudiologia da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo) em Bauru.

Por causa do ensino remoto, crianças muito pequenas têm sido expostas diariamente a sons em alto volume. Segundo ela, até a pandemia o uso dos fones de ouvido não estava associado a esse público. "Temos relatos informais de crianças que ficam de quatro a seis horas em aulas usando fones", conta a professora da USP.

De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Otologia, Edson Ibrahim Mitre, ainda não há dados sobre os efeitos do uso de fones especificamente na pandemia da covid-19, mas já há pesquisas que dão uma ideia sobre as consequências disso.

Citando um estudo feito com crianças holandesas de 9 a 11 anos, ele afirma que 14% tinham perda auditiva mensurável e cerca de 40% relataram usar aparelhos portáteis de música com fones de ouvido. "O que consideramos um número muito elevado", afirma.

Perda irreversível pode ser imediata

A perda auditiva tem impacto na linguagem, na comunicação, no desenvolvimento acadêmico, bem como no trabalho e na manutenção de relacionamentos saudáveis. Também está associada à aceleração da perda cognitiva.

Ao contrário do que muita gente pensa, a lesão irreversível provocada por altos volumes pode ser imediata e não necessariamente depois de muito tempo de exposição.

Há alguns sinais que podem indicar perda auditiva:

  • Dificuldade de compreender palavras, especialmente na presença de ruídos;
  • Sentir frequentemente tontura;
  • Ouvir zumbidos sem razão aparente;
  • Ter dificuldade de concentração.

"A indicação nestes casos é procurar um profissional especializado para fazer o tratamento mais adequado", recomendou Coelho. No caso das crianças, Mitre afirma que podem ser indícios de perda auditiva:

  • Alterações de fala;
  • Trocas de letras na escrita;
  • Percepção de desatenção;
  • Notas baixas;
  • Zumbidos e a assimetria da audição entre os ouvidos

Tem como usar fones de forma segura?

A resposta é sim. O ideal é usar o som no modo ambiente e a um volume que não exceda 80 decibéis. Como ninguém anda por aí com uma maquininha medindo o volume dos sons, você pode usar três regrinhas para controlar o volume do seu fone:

  1. Se a pessoa que está ao seu lado escuta o som do seu fone de ouvido, seu volume está muito alto;
  2. Se alguém te chamar com a voz natural e você não ouvir, o volume também está alto demais.
  3. Se o volume está acima dos 60% do máximo da potência do equipamento, o som está provavelmente muito alto (muitos aparelhos permitem que você ajuste as configurações para que haja um limite no volume máximo).

É importante evitar o uso em ambientes ruidosos, pois a tendência é que se aumente o volume para competir com o barulho externo. "Caso não seja possível, o indicado é usar um fone de ouvido com cancelamento ativo de ruído", recomendou Andréa Cintra, da USP.

Se houver necessidade de uso muito frequente dos fones, a orientação é:

  • Use-os por no máximo quatro horas por dia, fazendo intervalos regulares;
  • A cada hora, faça pelo menos 15 minutos de descanso sem eles;
  • Garanta a ventilação dos canais auditivos, durante esse tempo. Sim, eles também precisam respirar, já que a umidade provocada pelo abafamento pode levar a infecções e otites.

O hábito de usar o aparelho em apenas um ouvido também deve ser evitado, porque, em geral, a pessoa tende a aumentar a intensidade do som para compensar a falta de estímulo do outro lado.

O que é melhor: ear-buds ou headphones?

Os headphones (em formato de concha, que cobre toda a orelha) são mais indicados do que os intra-auriculares (in-ear ou ear-buds), uma vez que o som chega um pouco mais distante da membrana do tímpano.

Além disso, é importante não compartilhar seus fones de ouvido com ninguém, porque eles podem transmitir bactérias. "Se precisar, é necessária uma boa higienização. Os aparelhos intra-aurais devem ter uma higienização ainda mais frequente, mesmo que não sejam compartilhado", disse Cintra, da USP.

Edson Ibrahim Mitre lembra ainda que nosso cérebro precisa de outros estímulos auditivos. "A saúde do cérebro depende também da capacidade de diferenciar os sons úteis dos ruídos ambientais, de distinguir tipos de sons e localizar de onde eles vêm", disse. Por isso é importante limitar o número de horas por dia usando fones de ouvido.

O que dizem os fabricantes

Embora não haja estudos concluídos sobre as consequências do home office e do ensino remoto para a saúde auditiva, especialmente de crianças e adolescentes, sabe-se que houve crescimento no consumo de fones de ouvido.

Segundo a fabricante alemã Sennheiser, no último ano, houve aumento de 70% nas vendas desses acessórios da marca no Brasil. A brasileira Multilaser também registrou um crescimento de mais de 50% na comercialização desse tipo de equipamento.

Segundo o sócio da Sennheiser no Brasil, Daniel Reis, os modelos com cancelamento ativo de ruído e os headphones, que otimizam a convivência com os ruídos externos, estão entre os produtos mais vendidos.

"Eles são excelentes aliados para evitar distrações e manter a concentração ao longo da jornada de trabalho ou estudo, principalmente para quem não tem um ambiente silencioso em casa para cumprir seus compromissos", disse. Reis, entretanto, afirma que cabe ao consumidor usar os fones de forma consciente para evitar a perda auditiva precoce.

Já o diretor de acessórios de informática e áudio da Multilaser, Danilo Angi, diz que apesar de todos os fones da marca serem indicados ao home office e ensino remoto, os modelos gamers podem ser mais adequados para essa finalidade, pois além de mais confortáveis têm uma qualidade de áudio superior, o que permite o uso a um volume mais baixo.