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Controle de almoço e xixi na garrafa: entenda briga Amazon x funcionários

Ina Fassbender/AFP
Imagem: Ina Fassbender/AFP

Felipe Oliveira

Colaboração de Tilt

30/03/2021 17h26

A Amazon está enfrentando um levante de seus funcionários nas últimas semanas nos EUA e Reino Unido, iniciado por um processo de uma ex-funcionária por condições precárias de trabalho. Entre as reclamações estão a negativa de pausas para almoço e salários mais baixos. O processo de Lovenia Scott, que trabalhava em um depósito da Amazon na Califórnia (EUA), começou em fevereiro deste ano e motivou outras denúncias contra a gigante das vendas, como por exemplo empregados sendo obrigados a fazer xixi na garrafa.

A ação de Scott foi encaminhada para a esfera federal, e os advogados da autora pedem que o tribunal registre o caso como uma ação coletiva e que o julgamento aconteça por júri.

Em novembro do ano passado, outros funcionários já haviam feito acusações de trabalho precário contra a Amazon. Na época, profissionais de vários países se organizaram e realizaram um protesto chamado de Make Amazon Pay (Faça Amazon pagar, em tradução livre). Os colaboradores também pediam por aumentos salariais.

É possível que disputa entre Amazon e funcionários aumente ainda mais. A empresa pode estar prestes a enfrentar a maior união sindical de sua história, já que milhares de trabalhadores do depósito na cidade de Bessemer (EUA) decidem se vão se sindicalizar ou não. Caso a sindicalização seja acordada, isso pode encorajar outros funcionários a fazerem o mesmo, fortalecendo uma rede para exigir direitos trabalhistas.

Confira a seguir cinco coisas que você precisa saber sobre para ficar por dentro do assunto:

1) Sem tempo para comer

A ex-funcionária da Amazon Lovenia Scott afirma que ela e seus colegas de trabalho não podiam fazer intervalos completos de 30 minutos para refeições. Além disso, alega que vários funcionários saiam para almoçar no mesmo horário, o que provocaria uma imensa fila em frente ao cartão de ponto, consumindo de 10 a 15 minutos desse horário de pausa.

De acordo com o processo aberto por ela, os funcionários também eram obrigados a levar walkie-talkies para os intervalos de almoço para garantir que poderiam ser encontrados e suas tarefas serem gerenciadas. Segundo os advogados de Scott, havia a prática de "disciplinar" a equipe ou pedir rescisão de contrato se eles não voltassem de seus intervalos de refeição na hora certa.

2) Salários mais baixos

As ações da Amazon também resultaram em um salário mais baixo do que o devido para Scott e outros trabalhadores, já que a empresa deduzia os 30 minutos de intervalo mesmo quando não eram cumpridos integralmente.

Ainda segundo o processo de acusação, a companhia tinha um quadro de funcionários menor do que o suficiente para suprir a demanda, o que "tornava improvável" que alguém pudesse fazer os acordados intervalos de descanso de dez minutos.

De acordo com a ação, obrigar os empregados a trabalhar durante os intervalos para refeição e descanso dá a eles o direito a um pagamento adicional de horas extras, bem como uma hora de salário-bônus a cada dia em que não faziam o intervalo para refeição.

3) Xixi na garrafa

Segundo reportagem do site The Verge, o jornalista James Bloodworth se disfarçou de funcionário da Amazon para seu livro "Hired: Six months Undercover in Low-Wage Britain" (Contratado: seis meses disfarçado na Grã-Bretanha com baixos salários, na tradução livre). O repórter afirma que funcionários da Amazon do país são forçados a fazer xixi na garrafa ou renunciar inteiramente às suas idas ao banheiro porque as demandas de atendimento são muito altas.

Bloodworth diz ainda que o banheiro fica longe do local de trabalho e os funcionários "têm medo de serem punidos por ociosidade e, como resultado, perder seus empregos".

As acusações do jornalista estão de acordo com uma pesquisa realizada pelo Organize, plataforma britânica de direitos dos trabalhadores, que relatou que 74% dos trabalhadores evitam usar o banheiro por medo.

Em resposta ao The Verge, a Amazon afirmou que "oferece um local de trabalho seguro e positivo para milhares de pessoas em todo o Reino Unido, com salários e benefícios competitivos desde o primeiro dia. Não recebemos a confirmação de que as pessoas que responderam à pesquisa trabalharam na Amazon e não reconhecemos essas alegações como um retrato preciso das atividades em nossos prédios".

4) Câmeras de segurança

Em entrevista ao jornal The Sun, o jornalista James Bloodworth afirmou também que existem scanners de alta segurança que verificam os trabalhadores em busca de itens escondidos, como óculos escuros, telefones e moletons.

A Amazon teria obrigado ainda os funcionários a aceitarem um novo sistema de monitoramento, que usaria câmeras alimentadas por inteligência artificial para acompanhar o trabalho de motoristas —o que teria sido apontado por alguns como "invasão de privacidade".

5) Treta no Twitter

A repercussão negativa das acusações causou uma discussão entre a Amazon e o deputado Mark Pokan, do estado americano de Wisconsin. O democrata retuitou uma postagem do executivo da Amazon Dave Clark, na qual ele criticava Bernie Sanders, que apoia a reclamação dos funcionários sobre salários baixos na gigante da tecnologia.

"Bem-vindo a Birmingham, Bernie Sanders. Aprecio seu esforço por um local de trabalho progressivo. Costumo dizer que somos os Bernie Sanders dos empregadores, mas não é bem assim, porque na verdade oferecemos um local de trabalho progressivo", afirmou.

O deputado Mark Pokan então respondeu: "pagar aos trabalhadores US$ 15 por hora não faz de você um 'local de trabalho progressivo' quando o sindicato denuncia que os trabalhadores urinam em garrafas de água".

O perfil oficial da Amazon no Twitter prontamente respondeu a acusação. "Você realmente não acredita nessa coisa de fazer xixi em garrafas, não é? Se isso fosse verdade, ninguém trabalharia para nós. A verdade é que temos mais de um milhão de funcionários incríveis em todo o mundo que se orgulham do que fazem e recebem ótimos salários e assistência médica desde o primeiro dia".

A empresa ainda afirmou: "esperamos que você possa aprovar políticas públicas que levem outros empregadores a oferecer o que temos oferecido."

Apesar da negativa, uma reportagem do The Intercept traz documentos que apontam que fazer xixi na garrafa era uma prática tão difundida para que os funcionários não deixassem de cumprir metas "que os gerentes faziam referências frequentes a ela durante reuniões, em documentos formais sobre regras, e em emails" fornecidos à reportagem.

Um documento de janeiro deste ano, obtido pela publicação e marcado como "Confidencial da Amazon", detalha várias infrações cometidas por funcionários da empresa, incluindo "urinar em público" e "defecar em público". A Amazon não respondeu aos contatos do The Intercept até o momento.

Outro lado

Tilt entrou em contato na segunda-feira (29) com a sede da Amazon no Brasil para que a empresa se posicionasse sobre as acusações e o processo que responde nos EUA, mas até o momento não obteve retorno. Assim que a empresa se posicionar, este texto será atualizado.