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Com reconhecimento facial, app ajuda famílias na busca por desaparecidos

Family Faces, app criado por iniciativa da ONG Mães da Sé - Reprodução
Family Faces, app criado por iniciativa da ONG Mães da Sé Imagem: Reprodução

Sarah Alves

Colaboração para Tilt

20/12/2020 04h00

Era sexta-feira, 15 de junho de 2018, quando a professora Ana Paula Puga, 50, viu o filho pela última vez. Luis Felipe Puga, então com 24 anos, cursava o penúltimo semestre da faculdade de Engenharia Elétrica e tinha sido aprovado em um novo emprego. Naquele dia, pediu o carro da mãe emprestado para assinar o contrato com a empresa e voltaria para casa depois de uma prova na faculdade.

"Nós conversamos normalmente o dia todo. Ele até perguntou se eu queria que ele fosse me buscar na empresa e eu falei que não. A última conversa foi à noite, quando ele estava na faculdade e disse que voltaria para casa, mas nunca voltou", conta.

A ajuda que Ana Paula Puga e outras mães de pessoas desaparecidas procuram pode estar no aplicativo de busca por reconhecimento facial Family Faces, iniciativa da ONG Mães da Sé, entidade que desde 1996 vem ajudando famílias a encontrar parentes desaparecidos.

O app, disponível para Android e iOS, foi desenvolvido pela empresa Mult-Connect com tecnologia em nuvem da Microsoft, dentro de um programa da multinacional de doação de inteligência artificial a iniciativas sociais. Ele usa a base de dados de pessoas desaparecidas da própria ONG.

O caso de Luis Felipe é um entre os 938.146 casos de desaparecimentos registrados no Brasil entre 2007 e 2019, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde que ele desapareceu, a vida de Ana Paula é orientada por um documento em que concentra todos os passos na busca pelo filho. É um "diário de bordo", como ela o chama, com nomes, contatos e lugares onde Luis Felipe esteve.

"Eu cheguei a passar noites na rua procurando por ele. Se me ligavam falando que ele foi visto em algum lugar, eu ia. Todos os dias eu rezo e peço para que Deus coloque alguém no meu caminho para que me ajude", afirma.

O Family Faces é um aplicativo concebido pela Mult-Connect e desenvolvido através de uma iniciativa da Microsoft e em...

Publicado por Mães da Sé em Terça-feira, 27 de outubro de 2020

Como funciona

A proposta do Family Faces é simples: o usuário envia a foto da pessoa, tirada na hora ou da galeria do celular, e em segundos o sistema indica até dez perfis de desaparecidos cadastrados no app. Cada um deles tem informações como nome completo, nomes dos pais, data de nascimento, cor dos olhos e da pele, e se tem alguma cicatriz, tatuagem ou deficiência.

Caso acredite ser uma das pessoas indicadas, o usuário ativa um alerta para o perfil, encaminhado diretamente à Mães da Sé, que apura as informações e informa as autoridades e a família da possível pessoa localizada. Também é possível fazer a busca apenas com base na descrição das características físicas.

"Às vezes você passa por algum lugar e vê um cartaz ou nas redes sociais vê a foto de uma pessoa que está sendo procurada pela família e, aí, na rua pode se deparar com alguém que achou parecido e fotografá-lo", explica a presidente e fundadora da Mães da Sé, Ivanise Esperidião.

"O próprio sistema do app, pelo reconhecimento facial, vai fazer uma varredura de todas as pessoas parecidas com a da foto, inclusive indicando a porcentagem de semelhança", completa.

Há 24 anos à frente da associação, Ivanise entende bem o sentimento de buscar alguém. Ela procura pela filha, Fabiana Esperidião da Silva, desaparecida desde dezembro de 1995.

Era antevéspera de Natal quando a menina, então com 12 anos, saiu de casa para parabenizar uma amiga e desapareceu. Ivanise nunca teve qualquer pista do paradeiro de filha ou do que possa ter acontecido.

"São 25 anos de um silêncio profundo. E eu nunca vou me acostumar com a ideia de nunca mais vê-la. Talvez se eu tivesse enterrado a minha filha, eu teria me acostumado. Quando um filho desaparece, você vive a incerteza de não saber se ele está vivo ou morto, se está comendo, passando frio. A sua vida vira uma interrogação", conta.

Reconhecimento em idades diferentes

O Family Faces começou a ser desenvolvido em maio de 2019 com a preocupação de ser fácil e intuitivo ao usuário, principalmente para os que não têm tanta familiaridade com tecnologia. A expectativa é que a base de dados chegue a 6.000 cadastrados na plataforma.

"Quanto mais pessoas usarem esse aplicativo, maior a chance de localizarmos alguém desaparecido", reforça Ivanise Esperidião.

Uma das principais vantagens do aplicativo é conseguir indicar pessoas semelhantes mesmo com fotos em idades diferentes. Isso porque o reconhecimento facial se baseia em características do rosto que não mudam conforme a passagem do tempo —como a distância entre os olhos, por exemplo.

"A tecnologia vai procurar na face determinados cálculos que transformam isso em indicadores de características daquela pessoa. E vai fazer essa mesma comparação com a foto enviada. Esses indicadores não mudam conforme a pessoa cresce, são características que se mantém mesmo com o envelhecimento", explica o diretor de Políticas Públicas e Filantropia da Microsoft Brasil, Elias Abdala Neto.

Na prática, a busca por desaparecidos sempre foi baseada em reconhecimento facial. Seja em cartazes, publicações nas redes sociais, folhetos ou estampando embalagens, as fotos são o único meio que norteiam a procura.

O aplicativo, porém, permite dinamizar o processo, concentrando milhares de pessoas em uma base de dados rápida e segura. A ideia é que os usuários encaminhem não apenas fotos de quem acreditem já terem visto e que está sendo procurado, mas de qualquer pessoa em situação de vulnerabilidade.

Segundo Abdala Neto, o Family Faces tem potencial no trabalho de policiais e assistentes sociais. "Esses profissionais têm maior contato com pessoas em dificuldade. O uso do app é aberto, mas a gente vê um poder muito grande de ajudar, principalmente, no trabalho de quem está em contato com pessoas em condição de vulnerabilidade", afirma.

Dados para contato e localização ajudam na busca

Após enviar a foto, o usuário recebe imediatamente uma seleção de até dez pessoas mais parecidas. O limite de perfis foi pensado para tornar a busca mais prática e dinâmica ao usuário.

É importante salientar que a tecnologia trabalha com índice de assertividade, por isso, não necessariamente a pessoa com maior porcentagem de semelhança pode ser a certa. "Mesmo que se tenha um alto índice de precisão, o app apresenta outras pessoas. Como a tecnologia trabalha com semelhanças, a preocupação não é acertar na mosca, mas dar opções para o usuário falar qual parece mais", comenta o presidente da Mult-Connect, Luiz Vianna.

É aí que entra a iniciativa do usuário em checar as informações cadastradas, perguntando, por exemplo, o nome completo da pessoa, nome dos pais e data de nascimento.

"Por ser um tema sensível, as famílias só são avisadas caso a Mães da Sé apure que a denúncia é consistente. Não mandamos email para a família. Existe um cuidado para saber se a pessoa fez isso de boa intenção, se de fato temos uma situação que parece uma pista coerente", explica Vianna.

Por isso, é importante ter atenção a dois pontos durante o uso do app: preencher corretamente os dados para contato e ativar a geolocalização, porque essas informações ajudam na apuração do alerta. "Pensando no fim que essa denúncia vai ter é importante dar a informação com qualidade e carinho", completa o presidente da Mult-connect.

Pandemia dificultou as buscas

Ao todo, a Mães da Sé já localizou metade das 10 mil pessoas que procurou. O aplicativo é um agregador na busca incessante, ainda mais durante a pandemia da covid-19.

Conhecidas por todos os domingos levarem cartazes com os rostos de seus entes desaparecidos à escadaria da Catedral da Sé, no centro da capital paulista, a necessidade do isolamento social impactou significativamente essa rotina.

"A última vez que nos reunimos foi em março. Existe uma fragilidade na busca por conta da situação atual, mas todos os dias as pessoas continuam desaparecendo, com ou sem pandemia", conta Ivanise Esperidião.

A presidente da associação teve a vida tomada pela causa e encontrou em histórias como a sua, a força e dedicação para seguir em frente. "Se eu não tivesse ocupado a minha mente, talvez eu nem estivesse mais aqui. Depois que eu comecei esse trabalho e passei a vivenciar a minha dor com outras mães, eu fui aprendendo a conviver com ela de uma forma mais amena", diz.

Resiliência compartilhada também pela mãe de Luis Felipe. "No dia a dia, tem um quarto que era ocupado pelo meu filho, que saiu de mim, e eu tenho que arrumá-lo, a rotina tem que continuar. Eu digo que tem que ter fé, persistência, lutar pela vida. É até engraçado eu falar isso, porque é você lutar pela vida sendo que não sabe o que aconteceu com um pedaço de você, pois é isso que um filho é", diz Ana Paula Puga.