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Made In Brazil

Os cientistas que brilharam na pandemia


Felipe Naveca, o cientista que desvendou o corona enquanto perdia o pai

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Gabriel Francisco Ribeiro

De Tilt, em São Paulo

07/12/2020 04h00

Bem longe dos centros médicos e de pesquisa que costumam dominar o debate, o pesquisador Felipe Naveca, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Amazônia, trabalha incansavelmente, ultrapassando os mais dolorosos obstáculos, para trazer respostas "fora da bolha" à luta contra a covid-19. Ele foi o pioneiro em sequenciar o DNA do coronavírus no Norte, em março, e coordenou um importante estudo que desvendou ao menos oito novas linhagens circulando no país.

Segundo ele, já são 26 linhagens no Brasil, oito delas encontradas na região amazônica, o que confirma que o Estado teve múltiplas portas de entrada do vírus, algumas independentes do restante do país. Somente em Manaus, foram sete linhagens circulando, bem diferentes das encontradas em Tabatinga, na fronteira com Peru e Colômbia, ou em cidades interioranas como Manacapuru e Manicoré.

Naveca ressalta que isso contradiz a ideia de que a pandemia se espalhou só de grandes para pequenos centros. Segundo ele, o estudo prova que o vírus teve como uma das portas de entrada a tríplice fronteira e chegou de forma mais rápida e intensa na região. "Até porque são áreas remotas onde só se chega de barco", explica.

A pesquisa continua ampliando o número de genomas estudados, tentando abarcar cada vez mais municípios. A intenção é analisar a dispersão do vírus para elaborar planos de contingência e melhorar o sistema de vigilância no estado.

Temos de parar de achar que uma vigilância em Rio, São Paulo e Distrito Federal é suficiente para entender o que se passa no país. A dinâmica epidemiológica das doenças respiratórias no Norte é diferente e já sabíamos disso com o [vírus] influenza. Ouvi várias vezes que o SARS-CoV-2 chegaria a Manaus vindo de outra grande cidade e aí seria interiorizado, mas os dados não suportam essa como a única rota
Felipe Naveca

O estudo analisa também:

  • 62 amostras de áreas indígenas para descobrir como o coronavírus chegou até a pontos remotos e isolados do país;
  • As variáveis genéticas pessoais que podem tornar a doença mais grave;
  • Se o Brasil tem alguma linhagem própria, com mutação do coronavírus, que pode dar falso negativo em testes feitos por países estrangeiros (o que pode levar a um protocolo nosso)

Apesar de serem linhagens diferentes —que ocorrem por mutações naturais do vírus— elas não alteram, em tese, a forma da doença nem reduzem a imunidade de quem já foi contaminado. Ou seja, quem pegou um tipo de linhagem fica protegido de todas as demais, embora o tempo de imunidade ainda seja uma incógnita.

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Imagem: Arte/UOL

Naveca e sua equipe começaram a se preparar para a covid no início do ano, com as primeiras notícias sobre a misteriosa doença na China. Quando o vírus atingiu o Brasil, com Manaus sendo um dos epicentros, passou a virar noites no laboratório. Ficou 45 dias sem ver seus pais para protegê-los, mas não adiantou: deu pai foi uma das vítimas da pandemia na capital amazonense.

"Eu que fiz o exame deles. Minha mãe ligou falando que meu pai estava com febre, aí fui coletar as amostras. Cheguei e deu positivo para meu pai, minha mãe e minha avó, que moravam juntos", lembra, emocionado.

Dos três, o pai foi o único que manifestou sintomas. Dois dias depois do exame, o quadro piorou. Ele morreu 20 dias após o diagnóstico.

O cientista tirou dois dias para se restabelecer, mas no terceiro já estava de volta à pesquisa. Mesmo abalado, quis seguir com o trabalho que poderia evitar que outras pessoas tivessem o mesmo fim.

No começou foi muito difícil, até hoje é. Quando falo do assunto, tenho de parar, porque vêm lágrimas. Mas tenho focado no trabalho para honrar a memória de quem se foi por essa doença. Meu pai sempre foi muito orgulhoso do que eu faço e sigo fazendo para orgulhá-lo

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A pesquisa na Fiocruz-AM ocorre em parceria com laboratórios do Amazonas, universidades de outros estados e até o Greenpeace, que ajudou fretando voos para obter amostras em uma aldeia indígena e em Tabatinga.

Na equipe, Naveca conta com alunos do doutorado e do mestrado, que pararam suas pesquisas para abraçar o trabalho com o coronavírus. "Cada um fazendo o que era melhor: diagnóstico, sequenciamento, bioinformática. Mudamos para a dissertação ser sobre a doença", conta.

Primeiro, eles trabalharam em diagnósticos, porque havia uma alta demanda. Depois, partiram para o protocolo de sequenciamento de amostras do vírus —mapearam 37 genomas e contaram com a "sorte" de que um dos primeiros casos positivos no Brasil foi de um pesquisador colega que voltava da Espanha.

Mesmo sem sintoma, esse pesquisador foi submetido ao teste. Quando deu positivo, forneceu o primeiro material para o estudo do genoma do vírus e acelerou o processo. Outra coincidência foi que essa equipe tinha acabado de receber aprovação para um estudo sobre viroses respiratórias e um novo laboratório tinha começado a ser montado em dezembro, com novos equipamentos.

"Demos sorte, porque recebemos sequenciadores de nova geração duas semanas antes da pandemia. Não chegamos nem a ter treinamento, foi tudo virtual", explica Naveca.

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Mesmo assim, em três momentos, a equipe quase teve de parar os diagnósticos pela falta de reagentes e até plásticos. Isso deixou uma lição importante: é preciso ter uma cadeia nacional capaz de produzir insumos e diminuir a dependência da importação.

"Temos que antecipar, não responder. Se for só responder, até abrir edital, apresentar projeto e tudo mais, a coisa passou. Os grupos internacionais, com mais dinheiro, vão fazer antes", ressalta o pesquisador.

Em 2010, anos antes da epidemia, ele leu estudos que o fizeram armazenar insumos e testes. Foi isso que permitiu que ele descobrisse os primeiros casos de zika no Amazonas em 2016, o que rapidamente conteve a propagação da doença.

Para combater o descrédito, ele aposta em levar informação descomplicada. "Falamos em escolas do Brasil inteiro. É a população que paga meu salário. E quando damos esse retorno, adaptando a linguagem para não usar a mesma que falamos para especialistas, vejo que conseguimos quebrar um pouco essa descrença", afirma.

Este texto faz parte da série "Made In Brazil", que descreve o trabalho de 10 cientistas de ponta brasileiros que atuaram brilhantemente no combate ao coronavírus durante a pandemia.

Tilt, o canal de ciência e tecnologia do UOL, acredita no trabalho dos cientistas brasileiros, que conseguem fazer pesquisa de ponta mesmo com falta de recursos, estrutura e apoio. Para valorizá-los e conseguir que recebam o apoio que merecem, trazemos aqui uma curadoria dos nomes "made in Brazil" que impressionaram a nós e à comunidade científica internacional.