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Made In Brazil

Os cientistas que brilharam na pandemia


Marisa Dolhnikoff, a médica que tornou a autópsia mais segura na pandemia

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Bruna Souza Cruz

De Tilt, em São Paulo

07/12/2020 04h00

Existe uma fase da pesquisa médica durante uma pandemia que ganha pouco os holofotes, especialmente porque está associada à morte das pessoas infectadas: a autópsia. Mas olhar para ela é fundamental para gerar dados precisos e estabelecer estratégias de combate à doença. É isso que Marisa Dolhnikoff faz desde que os primeiros casos de covid-19 começaram a ser registrados no Brasil, em fevereiro.

Médica pneumologista e pesquisadora da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), ela vive há quase um ano uma maratona diária de trabalho para entender como o coronavírus afeta o corpo humano. Tantos casos resultaram numa experiência inédita e numa técnica pioneira de Autópsias Minimamente Invasivas (AMI) para estudo da covid-19.

O desconhecimento inicial sobre a doença deixou a equipe sob forte estresse nos primeiros meses. "Na pandemia, respostas rápidas são uma necessidade. É preciso conhecer o vírus para propor tratamentos que diminuam a mortalidade, desenvolver a vacina e conhecer as consequências a médio prazo para prevenir perdas funcionais e sequelas nos sobreviventes. Cada informação adicional é preciosa", diz.

O trabalho coordenado por ela foi fundamental para proteger os profissionais de saúde do contágio pelo vírus. Para colher as amostras para a biópsia, eles usaram agulhas (como as usadas em pessoas vivas) para acessar os tecidos do pulmão e de outros órgãos, mas foram guiados por imagens feitas num ultrassom portátil —sem a necessidade, portanto, de abrir o corpo e expor os profissionais ao vírus.

No entanto, o AMI exige um treinamento específico e ensinado a poucos especialistas. "Isso impôs uma grande sobrecarga de trabalho diário. Nunca trabalhei tanto na minha vida", conta ela, que também divide seu tempo dando aulas online na universidade.

Embora a autópsia seja o retrato de um momento específico, do quadro mais grave da doença, ela nos possibilita investigar os mecanismos envolvidos nas perdas funcionais, como nas fibroses ou cicatrizes pulmonares, causadas pelo novo coronavírus
Marisa Dolhnikoff

A técnica do ultrassom permite saber as alterações pulmonares que acontecem tanto no início da doença quanto nas diferentes fases da internação. Além disso, os dados obtidos revelaram que a morte é causada por insuficiência respiratória decorrente de lesões severas e múltiplas no pulmão —o vírus ataca as células epiteliais, que revestem os alvéolos pulmonares, e interfere no processo de troca gasosa.

Os resultados da análise dos tecidos reforçaram que o pulmão, por ser o órgão mais afetado, é o responsável pela maioria das internações hospitalares.

Nos pacientes que desenvolvem a forma mais agressiva da doença, as lesões são muito semelhantes às que ocorrem na Sars (síndrome respiratória aguda grave) e Mers (síndrome respiratória do Oriente Médio), causadas por outros tipos de coronavírus, descobriram os pesquisadores.

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Imagem: Arte/UOL

Existe um protocolo para as autópsias, que prevê a coleta de material para biópsia de cada órgão, independentemente de ter ou não alterações, explica a pesquisadora.

Por isso, a ultrassonografia virou uma importante arma neste trabalho, que leva cerca de uma hora para ser concluído com a técnica —as amostras são posteriormente enviadas para o Laboratório de Histologia da USP para serem analisadas por microscopia eletrônica.

Nesse processo, o grupo de trabalho coordenado por Dolhnikoff conseguiu criar um acervo de tecidos, que é usado por outros profissionais em estudos diversos sobre o vírus. Foi isso que permitiu confirmar que:

  • a covid-19 é uma doença sistêmica, que pode afetar coração, rins e o sistema nervoso central;
  • existe o risco de hemorragias e trombose em diferentes regiões do corpo, principalmente pulmonares, associado ao coronavírus;
  • existe uma manifestação rara e grave da covid-19 que atinge o coração de crianças, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (estudo publicado na revista The Lancet Child and Adolescent Health).

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Dolhnikoff soma participações em estudos sobre asma, fibrose pulmonar e síndrome do desconforto respiratório agudo. Nos últimos anos, dedicou-se a pesquisas sobre epidemias, como a da H1N1, da febre amarela e, agora, a covid-19.

O trabalho de autópsia que coordenou foi todo realizado dentro do Hospital das Clínicas (HC) da USP, mas vários departamentos da universidade e outros grupos de pesquisa parceiros puderam usar o material coletado para fins diversos, como a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Entre os profissionais envolvidos nas pesquisas estão:

  • Paulo Saldiva, professor que idealizou e introduziu o método da AMI no Brasil e, durante a pandemia, executou o procedimento no HC ao lado de Renata Monteiro, médica ultrassonografista;
  • Amaro Nunes Duarte Neto, infectologista e patologista que faz a análise e interpretação dos casos autopsiados pelo grupo;
  • Luiz Fernando Ferraz da Silva, diretor do SVOC (Serviço de Verificação de Óbitos da Capital);
  • Thais Mauad, patologista e professora responsável por estudos colaborativos com outros grupos de pesquisa;
  • Jair Theodoro Filho, responsável pela assessoria técnica na realização das autópsias minimamente invasivas;
  • Elia Garcia Caldini, professora do centro multiusuário de microscopia eletrônica do HC-FMUSP, que conduziu a análise do tecido coletado de uma criança que morreu pela covid-19;
  • João Renato Rebello Pinho e Michele Soares Gomes-Gouvêa, pesquisadores responsáveis pela análise molecular para pesquisa de RNA viral nos tecidos.

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Durante a pandemia, houve certa convergência das agências financiadoras para o repasse de verbas para pesquisas grandes envolvendo o novo coronavírus, explica Dolhnikoff. Mas, segundo ela, as consequências da falta de incentivo e corte de bolsas do governo federal vem sendo sentida há muito tempo —especialmente o fim da formação de jovens pesquisadores. Sua equipe precisou contornar algumas dificuldades e, para isso, procurou financiamentos internacionais.

"É importante que a sociedade perceba que a maioria dos avanços científicos em nosso país vem das universidades públicas. As instituições deram resposta imediata à pandemia com produção de conhecimento para entender e tratar a doença, e assistência à população pelo SUS", ressalta.

O negacionismo da ciência também é outra preocupação da pesquisadora: "Vejo com muita tristeza e frustração. Ele não está mais restrito a pequenos grupos anônimos. Quando líderes de países importantes como o Brasil e EUA optam por desvalorizá-los e desacreditá-los, colocam em risco a saúde da população."

"As pessoas que desmerecem a ciência hoje provavelmente não sobreviveriam em tempos onde essas conquistas não existiam", conclui.

Este texto faz parte da série "Made In Brazil", que descreve o trabalho de 10 cientistas de ponta brasileiros que atuaram brilhantemente no combate ao coronavírus durante a pandemia.

Tilt, o canal de ciência e tecnologia do UOL, acredita no trabalho dos cientistas brasileiros, que conseguem fazer pesquisa de ponta mesmo com falta de recursos, estrutura e apoio. Para valorizá-los e conseguir que recebam o apoio que merecem, trazemos aqui uma curadoria dos nomes "made in Brazil" que impressionaram a nós e à comunidade científica internacional.