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Senti que existe justiça, diz Lola sobre vitória em ação contra misógino

Lola Aronovich, professora universitária e blogueira feminista - Marília Camelo/UOL
Lola Aronovich, professora universitária e blogueira feminista Imagem: Marília Camelo/UOL

Renata Baptista

De Tilt, no Recife

24/11/2020 04h00

A professora universitária e autora do blog feminista Escreva Lola Escreva, Lola Aronovich, anunciou na última semana a vitória em uma ação que enfrentava contra um "mascu" —forma como ela apelidou misóginos masculinistas que a atacam pela internet— havia cerca de sete anos.

Em vídeo publicado no seu canal do YouTube, narrou os detalhes recentes do caso contra um de seus agressores, Emerson Eduardo Rodrigues. Ele acionou a professora na Justiça em 2013, mas foi processado de volta e agora será obrigado a indenizá-la.

Argentina naturalizada brasileira de 53 anos, Aronovich sofre contínuos ataques e ameaças desde que começou a expor manifestações de ódio contra mulheres na web e revelar seus responsáveis. Sua dedicação levou à lei 13.642/18, a Lei Lola, sancionada em abril de 2018, que atribui à Polícia Federal a investigação de crimes cibernéticos contra mulheres. Desde então, aquelas que são atacadas na internet têm como denunciar.

O processo

Por meio de seu blog, que existe desde 2008, Aronovich fez várias denúncias a um site de ódio que pregava coisas como legalização do estupro, estupro corretivo para lésbicas, legalização da pedofilia e assassinato de mulheres, negros e LGBTs. Nele havia posts como: "Seja homem: mate uma mulher hoje".

O site chegou a receber 70 mil denúncias na Safernet, ONG de combate a crimes na internet. Mas era difícil tirá-lo do ar porque após a denúncia, ele saía, mas voltava logo em seguida, porque não estava hospedado no Brasil, e sim em outros lugares, como Chicago, Malásia e Filipinas.

Foi então quando Emerson Rodrigues, hoje com 42 anos, foi preso em março de 2012 pela Operação Intolerância, da Polícia Federal, com Marcelo Valle Silveira Mello. Os dois eram os responsáveis pelo site. A dupla foi presa, julgada e condenada a seis anos e sete meses de prisão, mas deixou a cadeia em maio de 2013. "Assim que saíram, ambos disseram que iriam me processar, pois me responsabilizavam pela prisão", explica a feminista.

Rodrigues abriu o processo, que só chegou ao conhecimento da professora em 2015. Ele pedia R$ 41 mil de indenização. Com a ajuda de uma leitora que é advogada, a professora entrou com reconvenção contra ele —ou seja, ela o processaria de volta. "Achei bastante ridículo. Afinal, tudo que eu denunciei foi comprovado pela Justiça", diz Lola.

À reconvenção foram incluídas várias provas, como as centenas de vídeos que gravou acusando Aronovich de crimes, como roubar a Universidade Federal do Ceará, onde ela ensina Literatura em Língua Inglesa; de trocar notas por sexo, fraudar concurso, sacrificar bebês, ser pedófila, racista e antissemita, entre outros.

Nos primeiros anos após as acusações, não houve audiência. Nesse meio tempo, Emerson fugiu pros Estados Unidos, foi preso lá, ficou quatro meses num centro de imigrantes, e foi deportado de volta para o Brasil. No início de 2018 ele fugiu para a Espanha, onde está até hoje.

Em maio daquele ano, em outra operação da Polícia Federal, a Operação Bravata, Marcelo Valle Mello foi preso e depois condenado a 41 anos de prisão por crimes como pedofilia, racismo, associação criminosa e terrorismo. Ele está preso em Campo Grande. Também foi expedido um mandado para a prisão de Rodrigues, mas ele, que já estava no exterior, não foi encontrado. "O fato é que ele [Emerson] abandonou o processo contra mim", diz Aronovich.

Segundo ela, no ano passado o juiz condenou Rodrigues a pagar as custas do processo, fixadas em R$ 4 mil. Mas o processo de reconvenção contra ele continuou.

Em outubro deste ano saiu a sentença favorável à blogueira. Os ataques de Rodrigues foram classificados como discurso de ódio e ele teria que pagar R$ 25 mil de indenização a Aronovich, além de 15% do valor da ação para a defesa dela.

Justiça

"Fiquei muito feliz [com a sentença], senti que existe justiça. É como se um ciclo se fechasse, dá um alívio", declara Aronovich. Ela acha, entretanto, que não deve receber os valores relativos à indenização ou às custas de sua advogada, pelo fato de Rodrigues não morar mais no Brasil.

A professora diz que está conversando sobre a possibilidade de fazer com que o caso chegue até a Espanha, onde Rodrigues continua gravando vídeos com calúnias e difamações contra ela e outras pessoas.

"Espero que essa sentença faça com que outros misóginos pensem duas vezes antes de me processarem, pois posso entrar com reconvenção. E pode levar anos, mas eles vão perder. Eles sempre perdem, o fracasso é a sua natureza."

Aronovich segue escrevendo seu blog, que em janeiro completa 13 anos. Desde julho do ano passado, passa suas mensagens também por seu canal no YouTube, o Fala Lola Fala. Veja, abaixo, o vídeo em que ela relata a recente vitória judicial.

Em seus planos, está escrever um livro sobre feminismo e ativismo —que segundo ela, já deveria ter sido publicado no ano passado.

As ameaças de morte, estupro, tortura e desmembramento a Aronovich começaram em 2011 e continuam até hoje, mas ela não se deixa abater. "Não posso deixar que [as ameaças] afetem minha vida. Eu me sinto segura por morar em Fortaleza. Aqui o número de neonazistas é muito menor que no Sul, onde eu já vivi. No Nordeste 70% dos eleitores não votaram em um presidente que tem um discurso muito parecido ao de Marcelo e Emerson", afirma.