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Motoristas de apps elogiam centros anticovid, mas reclamam de preços

Centro de higienização da 99, em São Paulo - Divulgação/99
Centro de higienização da 99, em São Paulo Imagem: Divulgação/99

Sarah Alves

Colaboração para Tilt

18/08/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Apps criaram espaços para a desinfecção dos veículos de seus colaboradores
  • Motoristas comentam experiência e dizem que o processo poderia ser melhor
  • Condutores desaprovam distribuição de divisória só para as categorias "mais ativas"
  • Higienização oferecida pelos centros teria duração de até 72 horas
  • Especialista explica que limpeza entre corridas pode ser a principal garantia de proteção

Desde junho, o motorista de aplicativos João Ricardo Conceição, 50, agregou uma parada obrigatória: o centro de higienização de veículos montado por uma das plataformas em que está inscrito. Os espaços são uma medida dos principais apps de mobilidade para combater a covid-19 e trazer mais proteção a seus condutores e passageiros.

A Uber mantém dez centros em operação em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e outras, com 720 agendamentos por dia em média. Já a 99 possui as chamadas "bases de proteção" em 15 estados e atende, no total, 3.600 motoristas diariamente. A Cabify não possui centros de higienização, apesar de distribuir kits de higienização a seus motoristas.

Os centros oferecem a desinfecção dos veículos, a aplicação de uma divisória que cria uma barreira entre motoristas e passageiros, e a distribuição de kits com itens como máscaras, luvas e álcool.

"Já fiz mais de 15 limpezas e é um processo que me traz muita segurança", comenta Conceição. O motorista visitou os centros da Uber e da 99 na capital paulista e destacou que a experiência no segundo foi mais positiva, já que pode voltar a cada 72 horas para refazer o processo. Na Uber, cada motorista tem direito a uma desinfecção por mês.

João Ricardo Conceição, 50 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
João Ricardo Conceição, 50, ficou satisfeito com o serviço que recebeu
Imagem: Arquivo pessoal

O motorista e estudante de Jornalismo Ewerton Almeida, 28, disse que não se sente seguro mesmo fazendo uso das higienizações. "Não sei qual a total eficácia dos produtos de forma duradoura e esse é o xis da questão", afirma.

Almeida conta que visitou os dois centros e voltaria no da 99, sobretudo por ser mais próximo de sua casa, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo. "Tive a impressão da limpeza ser mais eficaz e também maior facilidade de agendamento, o que é um fator importante", relata.

Segundo as duas empresas, ambas usam o mesmo produto: o Peroxy 4-D, um desinfetante hospitalar regulamentado pela Anvisa e com efeito de proteção ao novo coronavírus de até 72 horas. A limpeza é realizada por um tipo de pulverização, em que uma névoa da substância higieniza as partes internas e externas dos veículos.

Divisórias não saem de graça

Ewerton Almeida, 28 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ewerton Almeida, 28, dirige há quatro anos pelo app e teria que pagar R$ 37,50 para ter uma divisória no seu carro
Imagem: Arquivo pessoal

A distribuição das divisórias de proteção é praticamente um consenso como ponto de reivindicação dos motoristas. Disponíveis gratuitamente apenas para a parcela considerada "mais ativa", de acordo com a pontuação interna dos aplicativos, elas podem ser aplicadas pelos demais colaboradores por um valor adicional.

"Se a placa é um recurso de proteção para os motoristas e os passageiros da plataforma, ela deveria ser gratuita. Ainda mais em um período de pandemia, em que as coisas já estão difíceis", opina Ewerton Almeida.

Da categoria platina, a segunda no ranking de pontuação da Uber, Almeida dirige há quatro anos pelo aplicativo e teria que desembolsar R$ 37,50 para aplicar a proteção. Achou o valor caro, sobretudo pela queda na receita durante a pandemia. "Tinha dias em que eu saia para trabalhar cedo, voltava tarde e não alcançava a metade da minha meta, já que não tinha passageiro disponível", conta.

A ausência de corridas somada ao medo de transmitir a covid-19 a parentes do grupo de risco fizeram o motorista Allan Setubal, 28, suspender seu trabalho para os apps por 20 dias no início da pandemia, em março.

"Como fiquei parado, pensei que não iria receber a notificação para agendar a limpeza. Recebi e avalio a iniciativa como boa para ótima", comenta. No centro de higienização da Uber, optou por instalar a película de proteção pelo valor de R$ 75. "Eu achei o preço salgado. Acredito que deveria ser gratuito para todo mundo ou, pelo menos, poderiam ter atenção aos motoristas que mantém um histórico ativo na plataforma", defende.

Segundo a Uber, a divisória "é um recurso complementar de proteção oferecido com desconto de, no mínimo, 40% sobre o preço de mercado". O valor é escalonado, dependendo da categoria do motorista, chegando a R$ 89,99 para os colaboradores que não têm direito à gratuidade.

Já a 99 informou que "priorizou os condutores com mais corridas para atingir também o maior número de passageiros" e que estuda a expansão do projeto.

A Cabify, por sua vez, também afirmou que a disponibilização da película para a parcela "mais engajada" visa concentrar o maior aporte de corridas.

Mesmo com o recurso dos aplicativos, há motoristas que se sentiram mais seguros em terceirizar o material. João Ricardo Conceição, do início da reportagem, pagou R$ 180 em um modelo personalizado que isola completamente motorista e passageiro, se estendendo do assoalho ao teto do carro.

"Com certeza me sinto mais seguro com a placa. Achei as que eram disponibilizadas pelos aplicativos ruins e optei por pagar uma particular, para a minha segurança e saúde. Sempre acabo pensando nos motoristas que não têm condição de comprar também e continuam rodando sem [a proteção]."

No centro de higienização: serviço rápido e isolado

Carlos Henrique Ragazzoni  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Carlos Henrique Ragazzoni contou que não tiraram os tapetes do carro dele na higienização
Imagem: Arquivo pessoal

A agilidade e a organização são pontos comuns nos relatos de quem visitou os centros de higienização ouvidos por Tilt. Todo o processo é agendado para evitar aglomerações, e os motoristas devem apresentar um QR code para entrar no local. Lá, ficam em um ambiente reservado durante a higienização, que dura entre dez e 20 minutos, dependendo da colocação da divisória de isolamento.

"Os profissionais são muito atenciosos e rápidos. Além disso, o espaço é amplo, então você não fica em contato com ninguém", conta o motorista Carlos Henrique Ragazzoni, que visitou o centro da Uber.

Um ponto chamou a atenção de Ragazzoni: os tapetes do carro não foram tirados durante o processo de limpeza. "Como ficamos a uma certa distância, não temos visão exata da higienização dentro do veículo, mas reparei que não tiram os tapetes para limpar os assoalhos. Talvez isso seja algo mais detalhista para se fazer e deixar o serviço mais completo", diz.

Segundo os motoristas ouvidos por Tilt, todos os profissionais envolvidos usavam equipamentos de proteção individual (EPIs). A única ponderação, no entanto, foi do motorista Ewerton Almeida. Durante visita ao centro da Uber, em junho, ele conta que ficou sem máscara por alguns momentos, quando realizou gravações sobre a experiência para compartilhar nas suas redes sociais e enviar a motoristas conhecidos.

Em nota, a Uber afirmou que segue todas as exigências de distanciamento social e normas para garantir a segurança dos motoristas e dos profissionais que atuam nos espaços.

Centro de higienização da Uber - Divulgação - Divulgação
Centro de higienização da Uber
Imagem: Divulgação

Afinal, a limpeza dura quanto tempo?

A Uber garante que os motoristas estarão até três vezes mais protegidos ao passarem pelo centro de higienização da empresa. A tecnologia, a mesma oferecida pela 99, é um limpador à base de peróxido de hidrogênio e quartenário de amônia e tem ação de até 72 horas.

Ao serem questionados, no entanto, os motoristas afirmaram que durante a visita não receberam nenhuma orientação sobre a durabilidade do produto.

"Ninguém me falou nada sobre o prazo [de durabilidade], mas por ter mais conhecimento já sabia que não possui uma ação tão duradoura. São produtos utilizados em hospital, com capacidade de limpeza, mas que tem que ser feita constantemente. É melhor do que nada, não tenho dúvida, mas o efeito não tem mesmo como permanecer por mais de três dias", comenta Carlos Henrique Ragazzoni, que diz já ter trabalhado como revendedor de produtos químicos.

A doutora em Química e professora da USP São Carlos Maria Olímpia Rezende comenta que as substâncias usadas na desinfecção têm alto poder de combate ao novo coronavírus, mas com garantia de durabilidade realmente variável.

"O peróxido de hidrogênio é instável à luz, por isso é adicionado o quartenário de amônia, para deixar a solução mais estável à decomposição", explica. Em outras palavras, levar em consideração o tempo de exposição à luz dos veículos também é uns principais pontos fatores na garantia de que as superfícies estarão protegidas.

Segundo ela, o mais importante e seguro é garantir a desinfecção contínua dos veículos, intercalando os cuidados a cada nova solicitação de corrida.

"Eu diria que a cada 12 horas os motoristas deveriam fazer a aplicação da substância. Mas é essencial na garantia de proteção que o carro seja esterilizado a cada passageiro, até para que o produto usado nos centros de higienização dure mais", acrescenta.