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SMS, email e ajuda dos amigos: como é a vida de quem não usa WhatsApp

Professor Victor Lopes Mausano Brasil não usa WhatsApp - Acervo pessoal
Professor Victor Lopes Mausano Brasil não usa WhatsApp Imagem: Acervo pessoal

Caroline Apple

Colaboração para Tilt

28/06/2020 04h00

Nem mesmo uma pandemia e o isolamento social convenceram algumas pessoas a usar uma das ferramentas de comunicação mais populares no Brasil e em boa parte do mundo: o WhatsApp. Os motivos? Manutenção da saúde mental, a priorização de outras atividades, o sossego, a preservação da individualidade e até mesmo um certo saudosismo pela vida analógica.

Para se manter longe do aplicativo, encontram novas formas de se comunicar —ou voltam a antigas— para não ficarem totalmente de fora dos assuntos, das reuniões de trabalho e dos eventos.

Uma das ferramentas é o bom e velho SMS, recurso que caiu no ostracismo quando passou a ser dominado por propagandas e cobranças bancárias e de lojas de departamento.

O jornalista e escritor Lauro Henriques Junior, de 47 anos, conta que o app nunca atraiu sua atenção, apesar de reconhecer "alguns benefícios". E para manter seus contatos de trabalho, manda mensagem de texto via SMS. Mas, Henriques toma algumas precauções.

lauro_sem_whatsapp2 - Arquivo Pessoal/Lauro Henriques Junior - Arquivo Pessoal/Lauro Henriques Junior
Jornalista e escritor Lauro Henriques Junior, de 47 anos, nunca se deixou levar pelos encantos do WhatsApp e prefere SMS
Imagem: Arquivo Pessoal/Lauro Henriques Junior

"Eu mando o SMS, e se percebo que a pessoa demorou muito para responder, faço uma ligação ou mando um email. Sei que muita gente nem lembra desse recurso e até desativa as notificações. Já aconteceu de ter dificuldades em alguns momentos, mas as contornei tranquilamente", conta o jornalista.

Boa parte da decisão vem da necessidade de manter sua "sanidade mental", ficar longe de conversas desnecessárias e até mesmo escapar das fake news.

Percebo que quem usa o WhatsApp fica mais imediatista. A pessoa escreve e acha que tem que ser respondida prontamente. Quero preservar meu tempo e manter a comunicação mais saudável. Vejo as pessoas parando o que estão fazendo para responder uma mensagem que, geralmente, nem tem importância nenhuma para o momento. Além disso, não quero ficar recebendo informação falsa em massa
Lauro Henriques
Junior, jornalista e escritor

Apesar das críticas, o escritor tem Facebook e decidiu abrir uma conta no Instagram durante a pandemia. Uma postura diferente do administrador "Ricardo", de 37 anos (que preferiu não ser identificado).

"Ricardo" vive praticamente em um mundo analógico. Não tem nenhuma rede social, ostenta um celular antigo com o jogo da minhoquinha e, até o mês passado, sequer tinha internet em casa. Ele faz poesias e as manda via SMS para os amigos. Mas, o número de leitores caiu bastante com a chegada do WhatsApp.

Ter internet em casa já foi uma grande transição, porque a considero muito sedutora e onde ela chega, ela toma conta. Mas eu queria manter práticas antigas como ler livros, ouvir meus CDs, DVDs. Escolhi o SMS para enviar meu correio poético. É por meio dele que as pessoas entram em contato comigo. Perdi muitos contatos. Teve gente que disse que o contato seria feito pelo WhatsApp ou pelas redes sociais, porque não iriam 'andar para trás' por minha causa
"Ricardo", administrador

Apesar de a pandemia reduzir ainda mais suas possibilidades de contato, não foi o suficiente para abrir mão do que ele considera uma liberdade à "imposição tecnológica". "Só farei um WhatsApp quando eu precisar buscar um novo emprego, porque sei que no mercado de trabalho eles não fazem concessões", diz.

Ao desligar a ligação da entrevista com "Ricardo", a reportagem recebeu um correio poético via SMS.

Mulher olha celular, fala de influencer viraliza, rede social - golubovy/Getty Images/iStockphoto - golubovy/Getty Images/iStockphoto
Imagem: golubovy/Getty Images/iStockphoto

A luta para ficar por dentro

Quem não tem WhatsApp precisa contar com a colaboração de quem tem para conseguir participar dos eventos online durante a pandemia.

A enfermeira Roseane Oberderfer, de 53 anos, do Campo Limpo (zona sul da capital paulista), participa de um grupo de oração desde que o isolamento social começou. As reuniões acontecem pelo Zoom, mas toda a organização da atividade é feita via grupo no WhatsApp.

Faço parte do grupo de reza do terço e também alguns de dança circular. Antes de começar, alguém sempre me manda o link pelo Messenger do Facebook. Nunca fiquei de fora. Dá um certo trabalho para quem fica responsável por enviar, mas vejo que fazem com amor porque entendem e respeitam a minha decisão de não ter o aplicativo
Roseane Oberderfer, enfermeira

Roseane tomou a decisão de não ter WhatsApp quando experimentou a ferramenta por 24 horas e ela não parou de vibrar seu celular quando estava no hospital.

"Comecei a receber correntes e outras mensagens que eu não tinha interesse nenhum, então desinstalei. Faço tratamento oncológico e quero sossego, mesmo com as pessoas insistindo para que eu baixe o aplicativo. Vejo muito desentendimento por causa das coisas enviadas via WhasApp. Por isso, sou muito feliz assim", diz Oberderfe.

O assistente financeiro Celi Rodrigues dos Santos, de 48 anos, de Guarulhos (Grande SP), também quer sossego, mesmo que isso custe as fatídicas reuniões de família por vídeochamada para matar a saudade dos parentes.

Sem nenhuma rede social e acesso à internet no celular, Santos segue contente e orgulhoso por não se render ao aplicativo. Porém, para amenizar a distância durante o isolamento social, o administrador precisou de uma mãozinha.

Uma vez fizeram uma reunião de família pelo Whatsapp e eu participei pelo celular da minha tia. Estou começando a sentir a necessidade [de ter o app], principalmente por causa da pandemia. Mas, por enquanto, não vou fazer, porque também é um gasto com internet no celular que hoje não tenho. Ainda teria que comprar outro aparelho. Não tenho muita paciência para ficar mexendo
Celi Rodrigues dos Santos, assistente financeiro

Proibido WhatsApp, não usa WhatsApp - Arte/UOL sobre Getty Images - Arte/UOL sobre Getty Images
Imagem: Arte/UOL sobre Getty Images

Nadando contra a corrente

A recusa em usar o famoso mensageiro pode ser desmembrada em alguns perfis. A psicóloga Marisa de Abreu afirma que optar por não ter WhatsApp pode ser uma forma de oposição afrontosa, um tipo de saudosismo e até mesmo uma maneira de se sentir especial.

"Essas pessoas enfrentam grandes dificuldades de comunicação, pois a maioria já se acostumou à rapidez e praticidade do WhatsApp. Mesmo assim mantém essa posição. Acaba sendo uma forma de ser visto como uma pessoa diferente, que anda na contramão, não se entrega à maioria", afirma a psicóloga.

O professor Victor Lopes Mausano Brasil, de 35 anos, de Barra Bonita (Interior de SP), tentou ser uma pessoa mais preservada e livre das pressões sociais, mas, há um ano e meio precisou sucumbir às facilidades de comunicação do WhatsApp, mesmo que um tanto contra a sua vontade.

"Falam que o mundo moderno é cheio de escolhas, mas parece que escolhem para a gente. Comecei a me sentir excluído. A gente vai ficando à margem quando as pessoas passam a priorizar o contato com quem tem o aplicativo. Me senti obrigado a ter", conta Brasil.

E com a chegada da pandemia, as aulas online foram inevitáveis. Então, o professor viu seu tempo no aplicativo mais que duplicar, o que lhe causa bastante incômodo.

"O processo online fez cair o meu tempo de leitura. A aula online exige um preparo mais lento e a aprender a mexer em novas ferramentas. A impressão é que o app resolve as coisas, mas a verdade é que as coisas passam e você nem sente e fica dominado pela ferramenta. Fora a falta de afetividade das conversas", diz o professor.

A psicóloga e terapeuta cognitiva comportamental Pâmela da Silveira endossa o discurso. "Noto que alguns indivíduos que não tem o aplicativo se sentem, às vezes, solitários e excluídos, já que a maior parte das pessoas se acostumou a contar novidades, enviar convites de festas, aniversários, lembretes e consultas apenas pelo WhatsApp", afirma Silveira.

A psicóloga também reconhece outro motivo pela recusa. "Percebo que quem decide ficar de fora o faz para conseguir manter a privacidade, gerir suas prioridades e se dedicar melhor a atividades que precisam da sua atenção", afirma.