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"Conferência com os amigos é sobre amor": como recurso ganhou novos usos

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

Natália Eiras

Colaboração para Tilt, de Lisboa (Portugal)

10/06/2020 04h00

Sentar em frente ao computador e abrir a câmera era, para muitos, só um ritual profissional. Pelo Zoom, Google Hangouts ou Skype, as pessoas usavam as videoconferências para cumprir compromissos com clientes em outros estados e países. Mas, com a chegada da pandemia, essa relação ganhou uma nova camada.

Nos últimos dois meses, festas e até mesmo velórios por chamadas em vídeo se tornaram comuns. O ambiente de câmera com telas, antes estéril, virou a mesa de bar onde as pessoas dão risadas, voltam a falar com pessoas de países diferentes e choram juntos em um momento de luto. Tilt reuniu algumas essas histórias.

Celebração após morte: "Estaríamos chorando cada um na sua casa"

Rayane Jacobson, 32, gestora de projetos, em São Paulo (SP) - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Rayane Jacobson, 32, gestora de projetos, em São Paulo (SP)
Imagem: Acervo pessoal

O Léo era de Goiânia, morava aqui em São Paulo e a maior parte da família dele era de Minas Gerais. Ele foi enterrado em Minas Gerais. Se já era difícil os amigos irem até lá se despedirem, com a pandemia ficou ainda mais.

A morte é uma passagem, então a gente tem uma necessidade de encerrar um ciclo nesse sentido. E como o Leo tinha amigos de vários lugares do país, decidimos fazer uma celebração pela vida dele online. A sala de videoconferência tinha capacidade para 100 pessoas e ficou lotada. Tinha gente na fila para entrar.

Depois da celebração, muita gente mandou mensagens agradecendo por termos ajudado todos a terem esse fechamento. Foi algo realmente que marcou para todo mundo. No fim da celebração, uma pessoa falou que era uma nova era, um momento em que tudo estava mudado, em que pessoas longe estavam podendo fazer parte de um momento como esse.

Não é exatamente a mesma coisa de estarmos todos pessoalmente, mas para muita gente é muito melhor aquilo do que nem poder estar lá. E o fato de não ser exatamente um velório tornaram as coisas mais leves. Naquele momento, se eu estivesse em um velório, estaria pensando em pessoas que eu amava e que morreram. Mas como eu estava em casa, estava pensando no Léo, foi uma conexão de energias.

Não tenho dúvidas de que isso está mudando e que as pessoas estão entendendo que a tecnologia pode solucionar muitos dos nossos problemas. Se não fosse ela, cada um estaria chorando em sua casa, sem esse apoio de saber que está todo mundo passando pela perda.

Aniversário de casamento: "Conferência com os amigos é sobre amor"

Natália Furtado, 34, publicitária, de São Paulo (SP) - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Natália Furtado, 34, publicitária, de São Paulo (SP)
Imagem: Acervo pessoal

Estamos juntos há dez anos, mas, neste ano, completamos oito anos de casados. Queríamos fazer uma festa de aniversário de casamento em Ilhabela, onde nos casamos, mas não poderíamos por conta da pandemia. Decidi, então, fazer uma festa por videoconferência porque a gente precisava fazer algo que fosse diferente para a nossa comunidade de amigos.

Chamei três amigos meus, que trabalham como produtores de verba, e dei uma verba para eles. O que eu ia investir em uma festa presencial, decidi investir na online. Eles começaram a organizá-la uma semana antes, tudo de maneira remota.

Chamei 60 pessoas, e 55 delas estavam online no dia da festa. Fiz questão de ter consistência na minha benção, então tivemos a participação da Deise Tigrona, que também se apresentou na minha festa de casamento. E teve DJ e, no fim, começou a rolar a festa "Selvagem" na nossa videoconferência. A gente começou às 20h. Era para ter durado até 1h, mas por conta da intensidade, eu saí às 4h58 e ainda tinha gente online. Deixei a festa acontecendo, ela foi até às 9h da manhã. Foi um estouro.

Foi incrível, porque coloquei meu vestido, abri o computador, porque começou a dar uma tremedeira sobre se eles apareceriam, e todo mundo começou a entrar. Eu já estava acostumada a fazer videoconferências, mas a diferença é que essa conferência com os meus amigos foi sobre amor. O que foi engraçado é que todos os meus amigos sabiam que essa live ia ser foda.

Bar virtual: "Falamos pelo menos uma vez por semana com nossos amigos, é um ritual"

Amanda Bozza, 31, jornalista, e Gabriel Cavalcante, 32, coordenador de tecnologia, de Bogotá (Colômbia) - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Amanda Bozza, 31, jornalista, e Gabriel Cavalcante, 32, coordenador de tecnologia, de Bogotá (Colômbia)
Imagem: Acervo pessoal

Eu nunca fui das videoconferências, mesmo não morando há seis anos na cidade onde nasci. Fazia vez ou outra com as amigas de Curitiba, mas sempre todo mundo tava com a agenda cheia de coisas e era aquele borogodó para conseguir juntar todo mundo. Videoconferência era coisa de trabalho, e com ela vinha esse peso de estar bem arrumado, falar bem e etc.

Acredito que ela tenha se tornado uma ferramenta de estar perto e acho que tivemos sorte em mudar de país nesse momento em que está todo mundo mais disposto e com tempo para fazer vídeo. Hoje ela acaba sendo a ferramenta de matar a saudade e de manter um pouquinho a sanidade mental em tempos de isolamento.

Nós gostamos de gente, gostamos de conversar e estar perto (mesmo que fisicamente distante). Nosso medo era que as pessoas não tivessem disposição de falar por videoconferência. Mas não, não tínhamos ideia que falaremos pelo menos uma vez na semana com nossos amigos mais próximos, é meio que um ritual!

Durante a reclusão, a gente aprendeu a dar um pouco mais de valor pras pessoas e acho que isso ensinou a gente a estar atento. E a videoconferência, pelo menos para nós, vai continuar sendo a ferramenta para cuidar, ouvir e estar perto de quem amamos.

Nesses últimos tempos, com a situação do Brasil e o jeito que estamos 'normalizando' a morte, o que eu sinto, ainda mais quando vou desligar, é que essa pode ser a última vez e isso me parte. Fico feliz em conversar com meus amigos e família, mas também temo pela vida deles. Enquanto aqui na Colômbia temos mais de 1.300 mortos, no Brasil já são mais de 37 mil, é desesperador. Emocionalmente, ver e ouvir as pessoas é saber que elas ainda estão lá!

Se eu pudesse, faria todos os dias e com todos os meus amigos (família a gente faz muito, eu quase todos os dias) porque essa tem sido a forma de garantir que está tudo bem e dar aquela puxada de orelha quando precisa.

Reconexão: "Deixei de dar prioridade para quem está perto e me reaproximei das pessoas importantes"

Carise Fernandes, 35, cozinheira, de Berlim (Alemanha) - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Carise Fernandes, 35, cozinheira, de Berlim (Alemanha)
Imagem: Acervo pessoal

Eu não tinha uma relação profissional com videoconferência, tinha pouquíssimas pessoas que eu fazia Skype, mas era uma coisa muito rara. Com exceção dos relacionamentos a distância, e ainda assim a cada duas semanas, no máximo. Nunca fui muito de chamada de Skype. Eu fazia e ainda faço ioga com meu parceiro de Londres, mas não era nada de ficar batendo papo na frente da câmera.

No fim das contas, quando a pandemia chegou, primeiro o grupo de amigos daqui de Berlim resolveu fazer uma videoconferência por causa do aniversário de uma amiga. Aí isso me fez perceber que podia fazer isso também com pessoas de outros países.

O que mudou muito é que a geografia já não atrapalhava mais. Em uma vida mais normal, a gente acaba dando prioridade para encontrar pessoas que estão geograficamente mais próximas de vocês. Que pode ir a um bar, a um cinema. Quando a epidemia chegou, isso deixou de existir: fez com que eu pudesse me encontrar com qualquer pessoa. Comecei a ficar mais próxima de amigos que eu não mantinha mais tanto contato por conta da distância. Ficamos tão distantes que todo mundo ficou mais próximo.

Para mim ter um Skype com uma prima que mora no Brasil ou com o meu amigo que mora na rua de baixo é a mesma coisa. Não sei se isso vai continuar depois do confinamento, porque a vida atropela a gente, mas espero que algumas pessoas eu consiga manter uma comunicação mais próxima, como por exemplo a minha prima.

Ainda assim, quando falo com as pessoas que estão próximas de mim, que a gente poderia estar num bar, me dá uma sensação um pouco amarga, ter que fazer isso só por vídeo. Mas com pessoas que estão longe de mim, é muito bom eu poder mostrar um pouco da minha vida e do meu universo por aqui.

Eu e minha prima temos cozinhado juntas à distância, eu tenho ensinado ela a fazer receitas pelo vídeo. A conversa é muito mais fluida. Uma interrompe a outra para dar risada. Nunca imaginei que me sentiria tão aberta. Se eu não tivesse esse tipo de encontro durante o confinamento, seria muito mais difícil.