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Não é só videoaula: estudo a distância já envolve IA, bots e até WhatsApp

damircudic/Getty Images
Imagem: damircudic/Getty Images

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

17/04/2020 04h00

Aquela aula online, ao vivo ou gravada, que você provavelmente viu durante a quarentena imposta pela Covid-19 está longe de ser o único recurso disponível na educação a distância. A EAD, que começou com cartas e apostilas, vai muito além de videoconferências e pode envolver ferramentas que vão de robôs inteligentes à realidade aumentada, mas passam até por WhatsApp e Alexa ou Siri.

Lá fora, conta Ronaldo Barbosa, coordenador dos cursos de Tecnologia da Informação na Unimetrocamp e professor de Midialogia na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], as experiências são volumosas, em vários níveis de ensino. Dá para colocar, por exemplo, uma inteligência artificial para monitorar o comportamento dos alunos —quantos bocejos deram durante a aula? Estão com sono ou atentos?

Da carta à inteligência artificial

Assim como era quatro décadas atrás, hoje a lógica é garantir que o aluno realmente aprenda o conteúdo. Pode ser chato ver longas aulas na frente do computador, mas imagino que meu pai se formou técnico em eletrônica, nos anos 1980, e fez dois cursos por carta. Ele pagava um valor para um instituto, que mandava todas as apostilas necessárias para que ele obtivesse o conhecimento esperado para consertar aparelhos eletrônicos. Ele tinha um prazo para estudar e, ao final de cada volume, recebia pelo correio uma carta com dez questões, que precisavam ser respondidas e enviadas de volta. O professor avaliava e respondia. Ou seja, esse processo podia durar semanas e até meses. O trabalho final do curso foi montar um rádio de pilha.

Agora, existem sistemas de ensino inteligentes, capazes de detectar qual a melhor maneira para fazer com que um aluno aprenda um conteúdo, individualmente. "Se você gosta mais de ler, [o sistema] separa mais artigos. Se gosta mais ver vídeos, separa esse tipo de material. Se é uma pessoa mais auditiva, separa podcasts", explica Cláudio Pinheiro, coordenador da pós-graduação em Inteligência Artificial (IA) da ESPM.

Essas plataformas adaptativas, movidas a IA, até são construídas no Brasil, mas são pouco exploradas, acredita Lana Paula Crivelaro, diretora da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância) e doutora em Educação, Inovação e Tecnologia pela Unicamp. Em geral, servem para que a instituição saiba se o aluno está atrasado ou se acompanhou o conteúdo. "Mas, ano a ano, a inteligência artificial consegue mostrar qual aluno está a ponto de desistir e vai evadir, porque não está acompanhando o ritmo", conta.

Alexa, você é a professora do futuro?

Os filhos de Crivelaro costumam brincar com a "Siri", assistente virtual da Apple. Para ela, a robozinha pode ser, sim, uma ótima ferramenta na educação. "O professor pode pedir que os alunos pesquisem, usando a Siri. Isso tornaria a educação mais atrativa", disse.

Esse é apenas um exemplo simples de como robôs podem ajudar no processo de aprendizado. A interação começa com uma pergunta à Alexa, mas já é possível ter parte do conteúdo das aulas ministrados por um assistente virtual ou bots que aprendem os padrões de estudo de cada aluno para personalizar o material escolhido para aula —algo conhecido como "automated machine learning" (ou aprendizado de máquina automatizado, em tradução livre).

Para Cláudio Pinheiro, da ESPM, esse é um caminho sem volta. "Vamos ter assistentes virtuais ajudando a responder perguntas sobre a disciplina ou ambientes que interagem na preparação e criação dos modelos", diz.

O bot funciona mais ou menos como o Akinator, uma ferramenta que aprende com as perguntas para adivinhar em qual personagem estamos pensando. "Ele faz uma série de perguntas e chega a uma resposta, mas não tem um padrão fixo. Ele aprende. Quando alguém imaginar aquele mesmo personagem, provavelmente ele fará perguntas melhores", explica Barbosa.

É assim que os bots são programados, com todos os processos e pré-requisitos que levam um aluno a entender um determinado conceito. "Ele pode soltar os conceitos para o aluno de forma sequencial e programada, e cobrar o domínio desses pré-requisitos até que você entenda o conceito", explica.

De acordo com o especialista, o bot funciona como um tutor. Até então, diz ele, as instituições de ensino tinham o papel de selecionar os conteúdos, criar os percursos de aprendizagem e vender esse serviço. Hoje as máquinas começaram a fazer isso. "Muitos professores que atuam como máquinas podem vir a ser substituídos por uma inteligência artificial capaz de fazer associações, comparações e buscas de forma muito mais rápida", provoca.

Claro que o professor pode ser o protagonista nesse processo, se ele for capaz de reconstruir o seu papel como educador. "O principal erro é querer concorrer com as máquinas. Professores criativos, que valorizam a comunicação com os estudantes e a capacidade crítica dos alunos, vão se sobressair", defende.

Imersão total ajuda a recriar cenários

Você está na sua casa, coloca os óculos e é transportado para outro lugar: uma sala de aula, um laboratório, uma sala de cirurgia, um escritório. Isso já acontece em muitos campos de ensino, especialmente para treinamentos em situações perigosas ou que exigem muita precisão. Em São Paulo, a escola de línguas Beetools ensina adultos e crianças com ajuda do VR, transportando os alunos para os cenários onde podem treinar os diálogos. Técnicos de manutenção de elevadores ou cirurgiões podem praticar neste contexto virtual.

Recursos de realidade aumentada são mais acessíveis e fáceis de aplicar num contexto educacional, mesmo assim ainda são adotados de forma tímida. Na mesma lógica do Pokémon Go, o jogo de realidade aumentada que faz sucesso no mundo todo, dá para digitalizar objetos de estudo. "Um componente de um carro ou o corpo humano, o esqueleto... Você navega tridimensionalmente, apontando a câmera do seu celular para uma área em branco, e a plataforma coloca esse elemento na sua frente", explica o coordenador da ESPM.

"É legal ver isso sendo expandido, mas é algo que demanda muito e é caro, por isso não é comum", afirma Pinheiro. "E falta gente que produza esse conteúdo 3D."

Manda um zap?

O celular, em geral, é mal visto por educadores do ensino tradicional. Sim, eles podem atrapalhar a aula, distrair os alunos e, por isso, muitas vezes são artigo proibido no meio escolar e acadêmico. Mas o olhar para essa ferramenta não deve ficar limitado a isso, defendem os especialistas ouvidos por Tilt.

É preciso saber explorar o smartphone de forma saudável, como uma importante ferramenta de conhecimento. "Pode ser riquíssimo. Ainda estamos aprendendo a usar para dar a aula, assistir à aula, interagir com os colegas", diz Barbosa. Em muitos casos, ressalta ele, o celular é a única opção que muitos muitos estudantes têm para estudar e ter acesso a conteúdos.

"Costumo ir a escolas públicas para dar palestras. Uma vez, perguntei para uma turma com 50 alunos do terceiro ano do ensino médio se eles estavam usando a internet para aprender alguma coisa —e podia ser qualquer coisa: tocar violão, pintar um quadro, saber escrever um roteiro de um filme, tirar fotografia. Sabe quantos levantaram a mão? Quatro ou cinco", conta o professora da Unicamp.

Quando ele perguntou sobre usar redes sociais para interagir ou se entreter, 45 alunos levantaram a mão. "Deveríamos investir na formação dos professores para mudar essa realidade. Não adianta ter uma boa estrutura e não ter uma cultura que estímulo à busca autônoma, ao mesmo tempo em que guiada, do conhecimento pelos meios digitais."

Crivelaro defende que até o WhatsApp pode ser explorados na educação. "As pessoas não entendem que o WhatsApp dá a possibilidade de uma comunicação rápida e de interação", diz.

Na PUC-RS, por exemplo, cada turma dos cursos de pós-graduação em MBA à distância tem um grupo no WhatsApp, que chega a ter até 150 pessoas. Eles são criados pela instituição para serem canais de troca de ideias, experiências e networking entre os alunos. Há dúvidas que eles mesmos conseguem resolver entre eles, sem precisar entrar em contato com a instituição, já que os professores não participam desses grupos.

Em outros casos, exemplifica Crivelaro, o professor é que dá o ritmo dos grupos. "Eu, professora, posso ser administradora e ninguém ter direito a mandar mensagem. Eu mando as orientações de como vai ser o nosso processo, no momento em que eu libero para que os alunos enviem a mensagem, acontece a troca. Isso vai ser avaliativo, por exemplo. Quando acaba o tempo eu fecho de novo [o grupo]."

Já Barbosa não gosta da ideia. "O WhatsApp pressupõe que as pessoas têm que dar a resposta na hora e estar disponíveis o tempo todo. Isso não é educacional, educacional é pensar antes de falar, fazer comparações, sínteses", discorda.