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Educação a distância pode ser tão efetiva quanto a presencial; veja por quê

Há muitos preconceitos em relação a educação à distância, mas ela pode funcionar também - Pollyana Ventura/Getty Images
Há muitos preconceitos em relação a educação à distância, mas ela pode funcionar também Imagem: Pollyana Ventura/Getty Images

Mirthyani Bezerra

Colaboração para Tilt

02/04/2020 04h00Atualizada em 22/04/2020 20h40

A pandemia do novo coronavírus suspendeu aulas em escolas, universidades e outras instituições de ensino ao redor do mundo por tempo indeterminado. A alternativa encontrada por muitas dessas instituições foi oferecer aos estudantes o conteúdo que seria dado em sala por vias digitais, fazendo uso de tecnologias de ensino a distância. No Brasil, o próprio MEC (Ministério da Educação) publicou no dia 18 de março uma portaria autorizando a mudança, por um período de 30 dias.

A crise tornou-se uma oportunidade de derrubar alguns preconceitos e mostrar que a modalidade de educação a distância — conhecida pela sua sigla EAD — pode ser tão eficaz no aprendizado do aluno quanto o ensino presencial, se aplicada da maneira adequada.

"É uma oportunidade de professores, alunos, comunidade escolar em geral, se disporem a entender e usar as ferramentas disponíveis", afirma Marcus Vinicius Maltempi, coordenador do Instituto de Educação e Pesquisa em Práticas Pedagógicas da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Todos os especialistas ouvidos por Tilt fizeram a ressalva de que, apesar de ser um momento propício para a expansão de técnicas de ensino a distância, as aulas remotas que têm sido oferecidas hoje pelas instituições de ensino no Brasil em substituição às presenciais, no geral, não devem ser vistas como EAD.

Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, entidade que representa as instituições de ensino superior no Brasil, afirma que as instituições estão transpondo a aula presencial para um ambiente virtual. "[EAD] Não é simplesmente eu pegar a aula presencial e sair dando aula via plataforma. O ritmo é outro."

Controle sobre espaço e tempo

Cursos a distância permitem que o estudante tenha mais controle sobre o espaço e o tempo de estudo e isso pode ser uma vantagem para quem precisa conciliar trabalho, filhos e afazeres domésticos, por exemplo. Também dá acesso aos cursos das mais renomadas universidades a quem vive em cidades distantes dos grandes centros ou mesmo nas periferias das cidades, poupando longos deslocamentos. "A EAD permite fazer um curso em que o especialista está em São Paulo, em Harvard (EUA) ou Oxford (Reino Unido), algo que eu não teria a possibilidade de fazer regularmente. E é possível encaixar esse curso dentro da rotina", diz Maltempi, da Unesp.

Quando bem aplicado, o método desenvolve no estudante o senso de autonomia e responsabilidade pelo próprio conhecimento. "Uma das coisas mais importantes da educação é a emancipação. O estudante ganha autonomia. Ele nunca vai ter isso enquanto ficar dependente da inteligência e da explicação do professor", afirma Maltempi. Ainda assim, o ideal é que as ferramentas permitam a interação com professores, o que, segundo o especialista, é fundamental para o processo de aprendizagem, porque "um ambiente de interação dá a possibilidade de expandir e ter a opinião avaliada e criticada."

Para driblar a competição por atenção e envolver os alunos, o professor precisa munir-se de ferramentas diversas, visuais e auditivas, para conseguir ensinar tanto os distraídos quanto os que dependem do texto para aprender. Para Crivelaro, da ABED, a gamificação então entra como um recurso importante para que o aluno se sinta motivado a conquistar pontos para o seu aprendizado e seguir uma trilha de conhecimento.

Não é só gravar o professor dando aula

A pandemia pegou o setor da educação de surpresa e as instituições de ensino ficaram sem saber como agir diante da crise. Gigantes de tecnologia, como o Google e a Microsoft, disponibilizaram o acesso gratuito às suas ferramentas para viabilizar ambientes virtuais de aprendizagem. Também há no mercado algumas ferramentas gratuitas que podem servir como sala de aula, e o próprio MEC mantém uma plataforma de recursos digitais, o MEC Red.

Para que as aulas a distância funcionem, o planejamento deve vir antes da tecnologia — ou seja, encontrar uma metodologia, organizar o passo-a-passo e pensar como os alunos vão lidar com essa autonomia. Em vez de disponibilizar longos vídeos de aula expositiva, Capelato, do Semesp, sugere dividir a aula em módulos. "Dou 20 minutos de exposição, faço atividade, dou mais 20 minutos de exposição, faço uma leitura, peço uma apresentação de trabalhos em grupo. Há ferramentas que permitem ao professor gerenciar trabalhos em grupo e a apresentação de seminários durante a aula", exemplifica.

Outra dica é fazer uso da "sala de aula invertida", técnica que abre espaço para interações de maior qualidade. Nela, o aluno tem acesso ao material antes de interagir com o professor e os colegas de sala. Ele recebe vídeos com aulas gravadas e sugestões de leitura para consumir antes de um encontro virtual. Na hora em que o professor entra em "sala", é possível tirar dúvidas e fazer os exercícios juntos.

Passada a pandemia, esse modelo pode resultar inclusive na implantação de uma metodologia de ensino híbrida, que mistura as duas modalidades: presencial e a distância. "O presencial terá uma nova concepção, porque contará com um uso muito mais alargado dessas ferramentas ", diz Capelato, do Semesp.

É puxado para os professores, falta excelência em cursos

Pode até parecer ser contraditório, mas ter mais aulas em EAD presume uma participação ativa do professor do outro lado do computador. "Ele deve ser criativo, organizado, ter método. A ambiente [virtual de aprendizagem] não ensina sozinho", diz Crivelaro. Esse modelo interativo e tecnológico de educação a distância não se parece nem de longe com o método de EAD difundido no Brasil, segundo os especialistas, que existe majoritariamente no ensino superior. No geral, os cursos a distância oferecem aulas prontas, gravadas, que são disponibilizadas em uma plataforma e o aluno vai fazendo conforme o ritmo dele.

"É quase um curso que você faz sozinho", afirma Capelato. Sem uma boa base e disciplina, o aluno não finaliza a graduação, como comprova o último Censo da Educação Superior: a avaliação de cursos a distância ainda é pior do que a de graduações presenciais. Dados mais recentes do Inep mostram que dos alunos concluintes de cursos presenciais 6,1% dos tiveram conceito máximo, esse percentual foi de 2,4% no ensino a distância. Além disso, a taxa de conclusão nos cursos a distância é pior do que em cursos presencias (35% na EAD, e 38,6% no presencial).

"Há uma pressão das grandes universidades privadas para vender cursos, e isso, com certeza, faz com que seja mais facilitada a abertura e manutenção de cursos. A régua de avaliação foi flexibilizada", acredita Maltempi. Ao mesmo tempo em que esse formato representa um acesso à graduação, por ser de custo baixo.

Mas, lembra Capelato, no Brasil os cursos em EAD são uma alternativa de ter uma graduação a um custo baixo. "Não estou dizendo se isso é bom ou ruim. É a proposta que nasceu de uma demanda do Brasil. São pessoas que só podem pagar uma mensalidade muito baixa e para fazer isso eu não posso ter muitos professores à disposição", diz.

A experiência da pandemia, em que as instituições estão sendo forçadas a rapidamente pensar em alternativas para manter a excelência e a interação entre alunos e professores mesmo a distância pode produzir grandes avanços para o EAD no Brasil e no mundo. Para Lana Paula Crivelaro, especialista em educação, inovação e tecnologia e diretora da ABED (Associação Brasileira de Educação a Distância), essa é a hora de ouvir especialistas e buscar modelos. "Vivemos hoje em um modelo de educação muito tradicional. Agora é hora de verificar o potencial da EAD", acredita.

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