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Guia do nude perfeito: tudo o que você precisa saber antes de mandar o seu

O melhor jeito de mandar um nude é assim: escondendo o rosto - Getty Images
O melhor jeito de mandar um nude é assim: escondendo o rosto Imagem: Getty Images

Felipe Germano

Colaboração para Tilt

23/01/2020 04h00

Sem tempo, irmão

  • Antes de mais nada, capriche na pose e use apps para tratar a imagem
  • Não há um método a prova de falhas, por isso cubra marcas de nascença e o rosto
  • Cuidado com o backup e prefira redes sociais que somem com as fotos
  • Estes apps para apagar metadados da foto, que podem provar que a foto é sua
  • Vazar nudes é crime com pena de prisão, e a culpa nunca é da vítima

Tudo bem, não precisa se envergonhar. Você estava de papinho com o crush, a coisa esquentou e veio o famoso pedido: "Manda nudes?". Mais importante que isso: você realmente está a fim de enviar. Mas e aí?

Bom, e aí temos duas notícias para você. A primeira é horrível: não existe um método absolutamente seguro de enviar um nude. A partir do momento que você tirar a foto, existe, sim, o risco dela sair do seu controle. Mas isso nos leva à notícia 2: há maneiras de dificultar o compartilhamento não consentido do material. Não é perfeito, mas vai te ajudar com certeza.

Olha o passarinho! Strike a pose

Antes de mais nada, vale caprichar na foto, né? Aplicativos de mensagem, em via de regra não oferecem muitos recursos quando o assunto é imagem. Em geral, eles se resumem a enviar os arquivos. É uma boa dar uma olhada em aplicativos focados nisso, antes do envio.

O Darkroom (para iOS) e o Snapseed (iOS e Android), por exemplo, têm ótimos sistemas de edição de imagem. Quer deixar a foto um pouco mais escura? Um pouco mais clara? O sistema de iluminação do app pode te ajudar bastante aqui. Aplicativos como o Huji Cam também podem entrar na jogada. Responsáveis por trazer um visual retrô à imagem, o estilão desses apps pode até já estar um pouco batido, mas dão um efeito diferente nos seus nudes.

O lado bom? Você não precisa mandar essas fotos para ninguém ou salvar na nuvem. Se você quiser tê-las só para se curtir e se conhecer um pouco, não há riscos envolvidos.

Mas, se você quiser enviar para alguém e tiver absoluto pavor de que essas imagens um dia caiam na rede, o jeito é dificultar o seu reconhecimento. Fotos que exibem tatuagens, marcas de nascença ou o rosto revelam mais facilmente a sua identidade. Alguns apps de edição de imagem oferecem recursos bacanas, como o "blur", que borra partes do corpo. Vale experimentar.

Outro recurso bastante usado é colar um emoji em cima de certas partes. Você pode aproveitar para já mandar uma carinha ou símbolo que reforce suas intenções —tipo, uma berinjela, um pêssego ou um diabinho roxo.

Ei, moça! Cuidado com essa tatuagem aí exposta - Getty Images
Ei, moça! Cuidado com essa tatuagem aí exposta
Imagem: Getty Images

Cuidados básicos

Diversos especialistas em segurança ressaltam algumas precauções mínimas para qualquer ser humano com um celular na mão. Não custa nada repassar essa lição de casa:

  • bloqueie seu aparelho com senha: além de esta ser a primeira camada de proteção, afasta o acesso indevido de terceiros às suas informações pessoais. É bom ter isso em mente, já que nem sempre o vazamento de alguma intimidade é provocado por alguém com grades conhecimentos cibernéticos;
  • converse com as pessoas ao seu redor sobre golpes na internet: sabe aquele link que chega pelo WhatsApp com alguma promoção ou com a promessa de dinheiro fácil? Nem todo mundo sabe que isso pode levar a uma invasão do celular.
  • ative um programa que permita apagar suas informações de um dispositivo: tanto Android quanto iOS possuem mecanismos para apagar seus dados à distância em caso de perda ou roubo. No sistema do Apple, você precisa acessar o aplicativo "Buscar". Quando encontrar o iPhone sumido, basta acionar a opção "apagar iPhone". No sistema do Google, vá a este site. Um detalhe: isso só funciona se o aparelho estiver com bateria e conectado à internet.
  • ative sempre, para todas as redes sociais que usar, a verificação em duas etapas: quando este simples passo, você já barra grande parte dos problemas de clonagem e invasão de contas e aparelhos.

Melhor um na mão do que dois na nuvem

A nuvem, esse servidor que pode soar tão abstrato, pode ser um problema para os nudes. Na prática, trata-se de um sistema online com milhões de informações sendo atualizadas a cada segundo. Um baita banco de dados para quem está mal-intencionado. E, infelizmente, não é impossível que um hacker acesse isso.

Foi hackeando o iCloud, o sistema de nuvem da Apple, que imagens íntimas de celebridades rodaram o mundo em 2014. Se um hacker conseguir acessar a sua conta, ele tem acesso à todas suas fotos —incluindo as mais "calientes".

Uma saída para evitar que suas imagens para maiores caiam nas mãos erradas, sem correr o risco de perder as fotos daquelas férias incríveis caso seu celular quebre, é recorrendo a aplicativos como o Orga. Já falamos dele aqui.

Na prática, funciona como um cofre. O app joga a sua imagem dentro de uma área que só pode ser acessada com senha e apaga cópias tanto da sua galeria quanto da nuvem. O aplicativo conta até com uma inteligência artificial que detecta nudes no meio das suas fotos salvas —só para não correr o risco de você esquecer aquela foto pelada entre uma imagem da sua avó e outra do seu cachorro.

Olha rápido, vai sumir!

Snapchat, Instagram, Telegram e Signal têm ferramentas muito útil para envio de fotos eróticas: o apagamento automático. É possível configurar por quanto tempo aquela imagem ficará disponível. 30 segundos? Um segundo? Depois desse tempo, a imagem é apagada automaticamente. O Snapchat ainda possui um extra: caso a pessoa tente tirar uma captura da tela, ele detecta e avisa para você que enviou a foto. Pelo menos você fica sabendo.

No 'Direct' do Insta, você pode conversar com o crush e enviar qualquer tipo de imagem. Na hora de enviar a mídia, você pode escolher se a pessoa vai ver a foto uma vez, duas vezes ou se ela permanece no bate papo sem tempo determinado.

No Telegram, existe uma função chamada 'Chat Secreto', que permite trocar fotinhos sem deixar rastros no servidor. O sistema impede o encaminhamento das mídias dentro de um chat para outras conversas.

O KIK é um mensageiro gratuito que ficou conhecido por ser usado pelas Kardashians. Para os amantes de 'sexting', ele é ótimo, porque não se associa ao número de telefone, e sim ao nome do usuário. Isso te dá mais anonimato.

Já o Buttrcup é para quem vê os nudes como forma de expressão e não vê problema em compartilhá-los publicamente. Inspirado no Instagram, o app reúne fotos mais ousadas —mas não imagens explícitas.

Ainda assim, esses sistemas estão longe de ser à prova de vazamentos.

Com certeza não é imprudente usar um aplicativo que automaticamente deleta fotos e tenta notificar o usuário se um 'print screen' foi feito. Mas é sempre possível para quem recebe a foto usar algum aplicativo que salve a imagem. Dá até mesmo para ele usar uma câmera para tirar foto do celular
Lesley Carhart, especialista em cibersegurança que já cuidou dos dados da Força Aérea americana e de empresas como a Motorola

Fale, mas prefira os códigos

Se você não tem nenhum medo de que o "crush" vaze a foto (e seu receio é única e exclusivamente referente aos hackers), uma ferramenta que pode ajudar são os aplicativos com criptografia de ponta a ponta, como Signal, Telegram e, claro, o WhatsApp.

Esse tipo de tecnologia torna muito mais difícil que suas fotos vazem. Prova disso é que se um funcionário do WhatsApp tentar, ele não conseguirá ler suas mensagens. Tudo que os servidores registram são códigos ininteligíveis. Para transformá-los nos textos e nudes que você trocou, é necessária uma "chave virtual" que o app só fornece a você e à pessoa com quem você está conversando.

Isso significa que, mesmo que um hacker consiga invadir os servidores do WhatsApp, em teoria, ele não teria acesso às suas fotos. Bom, em teoria. É importante lembrar que as conversas do ministro da Justiça, Sérgio Moro e do procurador Deltan Dallagnol, estavam no Telegram, app que também é criptografado —mas o hack ocorreu usando outro método. Criminosos muito determinados conseguirão encontrar alguma forma de burlar a segurança.

"O WhatsApp é considerado por muitos o melhor jeito de garantir a privacidade, mas há pouco tempo já tivemos notícias sobre suas vulnerabilidades", afirma Zohar Pinhasi, hacker especialista em ciberterrorismo e executivo da MonsterCloud, empresa de segurança digital. "Isso já não é mais novidade: sempre haverão vulnerabilidades quando um exército de hackers está ralando para conseguir suas informações", completa.

Existem alguns aplicativos que ajudam a proteger a privacidade de suas fotos com senha e criptografia. Um dos mais populares é o Gallery Lock, cuja versão Lite do app é gratuita. Mas, se você não é bom para lembrar senhas, não instale, pois você corre o risco de perder todas as fotos. Se instalar, usar e não gostar, precisa liberar os arquivos (desativando a função de escondê-los) antes de desinstalar, ou perderá tudo. O bom é que o app pode até esconder o ícone, fazendo com que as pessoas nem saibam que você o usa. Também dá para liberar e compartilhar os arquivos os descriptografando com rapidez.

O Ocultar Fotos (Secure Gallery) esconde fotos, vídeos e GIFs e também usa um modo invisível —que oculta o ícone. As mídias protegidas podem ser facilmente compartilhadas por redes sociais quando necessário. Esse é um ponto importante quando escolher um aplicativo para proteger seus arquivos. Você não vai querer perder 30 minutos todas as vezes que precisar enviar um arquivo.

Além de proteger suas fotos e vídeos, o Private Photo Vault ajuda você a descobrir se alguém anda fuçando em suas coisas. No relatório de intruso, seu smartphone registra foto e localização da tentativa de invasão.

Sem qualquer rastro

Uma segurança extra também pode ser o apagamento dos metadados. São informações que funcionam como o RG das suas fotos. Ou seja, de posse delas, alguém pode conseguir provar que aquela imagem saiu do seu aparelho.

Aplicativos como o ViewExif fazem exatamente isso. Eles deletam qualquer dado referente à fotografia. Tecnicamente ninguém vai poder provar que aquela pessoa na imagem é você.

Vazar é crime, e dá cadeia!

Acontece. Às vezes, nossos dados são invadidos ou acreditamos no contatinho e ele repassa a imagem para frente. Quebra de confiança, né? Não. Quebra de lei.

No Brasil, quem rouba ou compartilha nudes alheios é criminoso. O ato isolado de invadir um sistema e capturar imagens eróticas sem autorização pode trazer até três anos de reclusão e multa, de acordo com a lei 12.737/2012. O compartilhamento de imagens, sejam ela enviadas espontaneamente ou não, tem pena ainda maior: cinco anos de xadrez, mais multa.

Um dos pontos mais importantes é todo mundo entender que a vítima é exatamente isso: uma vítima. A culpa não pode recair sobre quem já é a pessoa mais prejudicada, então nada de dizer que ela não deveria ter feito a foto ou algo do tipo. Um terço dos brasileiros com acesso a internet já enviou um nude, 28% deles usou o celular para tirar uma foto ou registrar um vídeo picante, mais da metade simplesmente não protegeu seus aparelhos de jeito algum, segundo pesquisa da empresa de segurança Kaspersky, em parceria com a chilena Corpa.

"Uma maneira de tornar o sexting mais seguro é todos nós pararmos de culpar as vítimas de violações da privacidade", afirma Amy Hasinoff, professora da Universidade do Colorado e responsável por um Ted Talk sobre vazamento de nudes. Se apontarmos o dedo para as vítimas, os verdadeiros criminosos podem sentir-se até no direito de fazer tais violações.

"Não culpamos as pessoas que contraíram uma IST de um parceiro que trai, e também não devemos culpar quem enviou nudes e teve a confiança traída. Devemos aceitar que a maioria das pessoas se expressa sexualmente de alguma maneira; é injusto condenar e criticar alguém, especialmente mulheres e meninas, por isso" completa.

Vazou, e agora?

Caso o vazamento ocorra, como reduzir o constrangimento? O jeito é recorrer aos meios legais. Qualquer que seja a imagem, se ela causar constrangimento, é possível retirá-la do ar.

A responsabilidade aí passa a ser não apenas de quem obteve as imagens mas também de quem as repassou e de quem as recebeu —ou seja, não encaminhe prints! Dar print screen em uma conversa de WhatsApp, por exemplo, e divulgar expõe os interlocutores, então é crime.

Se um casal se filma em momentos íntimos e ambos concordaram com, não há crime. Se o conteúdo for divulgado sem a permissão de um ou de todos os envolvidos, isso passa a ser considerado crime, afirmam especialistas.

Se o conteúdo foi obtido por meio de invasão, o ato é criminalizado pela lei "Carolina Dieckmann" (Lei 12.737) com multa e detenção de 3 meses a 1 ano.

Se for compartilhado sem a autorização da pessoa retratada nas imagens, o ato é configurado como importunação sexual e a pena pode variar de um a cinco anos de prisão.

Insinuar, atribuir ou alterar pornografia com a intenção de causar constrangimento a outra pessoa também é crime, assim como filmar e fotografar mulheres em situações constrangedoras, mesmo que vestidas. Gravar por baixo da saia ("upskirt") ou sobre os decotes ("downblouse") em lugares públicos são exemplos disso.

Pessoas maiores de 18 anos flagradas com imagens de menores nus ou em ato sexual são consideradas pedófilas e punidas por crime de pedofilia (pena de 3 a 6 anos de reclusão mais multa). Quando a troca de imagens acontece entre pessoas menores de idade, o responsável pela divulgação ou armazenagem também pode ser punido, assim como os pais ou responsáveis legais.

A internet já foi "terra de ninguém", e ainda há aqueles que confiam no anonimato da web para cometer atos ilegais. Mas, segundo o advogado Leonardo Zanatta, especialista em direito digital, as punições acontecem:

Nem sempre é reclusão, mas são aplicadas multas ou penas alternativas. O indivíduo, no entanto, só tem uma chance: se incorrer no mesmo crime num prazo de quatro anos, vai preso direto

Sobre o conteúdo, um juiz pode determinar que um site saia do ar. Mesmo que o dono deste não seja identificado imediatamente, os provedores são responsabilizados. E não importa como o conteúdo chegou lá —é possível retirá-lo do ar e punir judicialmente quem os divulgou, incluindo quem armazenou ou hospedou essas imagens.

Zanatta afirma ainda, que na maioria dos casos, as imagens de nudez ou de ato sexual são vazadas por um dos participantes. Uma parcela muito pequena é divulgada após roubo ou perda de smartphone, ou devido a ação de hackers. O "revenge porn" ("pornografia de vingança", em tradução livre), o mais comum dos vazamentos, é uma retaliação feita por um dos cônjuges envolvidos no material. A pessoa decide expor a intimidade de outra para constranger e causar prejuízo moral.

Aconteceu comigo, o que fazer?

Você encontrou fotos ou vídeos que não deseja que permaneçam expostos? Entre em contato com a polícia e faça um boletim de ocorrência tradicional, relatando que encontrou material impróprio na internet. Procure um advogado, de preferência especializado, para te orientar a partir daí.

Envie uma notificação ao site, pedindo a retirada imediata do conteúdo sob pena de dano moral proporcional ao número de acessos. Por fim, identifique o responsável. Ele será punido judicialmente.

Entendeu tudo? Consciência tranquila, então boa sessão de fotos. E não esqueça de mandar essa matéria para o "crush" também —assim as fotos que você receber também estarão protegidíssimas.

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