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Cortina de ferro na web: por que russos protestam contra projeto de Putin

O chamado "Programa Nacional de Economia Digital" tem a aprovação do presidente Vladimir Putin - Xinhua/Sputnik
O chamado "Programa Nacional de Economia Digital" tem a aprovação do presidente Vladimir Putin Imagem: Xinhua/Sputnik

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

12/03/2019 04h00

Milhares de russos se reuniram no último domingo (10) para protestar contra um projeto que corre pelo Parlamento local, com apoio do presidente Vladimir Putin. Segundo a agência de notícias Deutsche Welle, mais de 15 mil pessoas foram às ruas da capital Moscou para expressar a oposição ao chamado "Programa Nacional de Economia Digital", mas por que esse plano gera preocupação local e internacional?

Aprovado pela primeira esfera do legislativo russo, o projeto implica que todo tráfego de dados entre cidadãos locais e organizações deve ficar armazenado dentro do país, não em servidores externos. O governo quer que os provedores de internet locais desenvolvam uma infraestrutura que permita que a rede russa continue funcionando normalmente mesmo que outros países tentem derrubá-la.

O discurso oficial é que essa "cortina de ferro" virtual é necessária para proteger a Rússia de ciberataques estrangeiros. Haveria uma preocupação com retaliações, vindas de hackers de outros países, aos supostos ataques russos em eventos como a campanha eleitoral americana que terminou com Donald Trump eleito presidente.

Só que esse papo não é comprado por entidades internacionais e por críticos locais do regime de Vladimir Putin, que enxergam nesse projeto mais uma maneira de cercear liberdades individuais e tentar vigiar o comportamento de dissidentes dentro do país. O Telegram, um dos organizadores da manifestação do último fim de semana, tem interesse direto com essa questão.

Você é o produto: cada passo que você dá na web gera rastros e essas informações são usadas para te vigiar e influenciar o seu comportamento

Entenda
Fundado por russos, mas registrado como empresa no Reino Unido, o aplicativo de troca de mensagens foi enquadrado em uma lei de 2016 que exige, caso o governo peça, o fornecimento de chaves que quebrem a criptografia das mensagens trocadas em um celular. Além de se opor a essa demanda, chamada de inconstitucional pelo cofundador Pavel Durov, o Telegram explicou que essa determinação é tecnicamente impraticável, já que tais chaves não ficam com a empresa, mas são armazenadas nos dispositivos de cada usuário.

As autoridades russas têm tentado bloquear o aplicativo desde abril de 2018 por determinação judicial, mas a imposição não funcionou na prática, tanto é que os protestos de domingo também foram organizados com auxílio da plataforma. A aprovação definitiva do Programa Nacional de Economia Digital, dada como certa, só aumentará o controle estatal sobre a internet na Rússia.

O país já prepara até um experimento de como será a rede russa do futuro. A previsão, sem data definida, é que a Rússia isole sua internet da do resto do mundo antes do início deste mês de abril, em um teste para o que pode virar a regra com a nova legislação.

Internet cada vez mais vigiada

Com sua própria internet, a Rússia poderá apertar o controle sobre o uso da rede. Sites já foram banidos do país, assim como cidadãos foram detidos, ou receberam multas, por fazerem publicações em redes sociais ridicularizando o governo ou a igreja ortodoxa russa.

Uma analogia fácil é com o que ocorre na China, onde o governo tem cada vez maior conhecimento da vida dos seus cidadãos por meio da internet. Também controlada, a rede chinesa tem suas próprias redes sociais e mecanismos de busca - nada de Facebook, Twitter, WhatsApp ou Google por lá -, além de bloquear diversos sites de notícias estrangeiros e até termos relacionados a assuntos sensíveis no país.

Homem para na frente de tanques em protesto na Praça da Paz Celestial, em Pequim - Arthur Tsang/Reuters
Homem para na frente de tanques em protesto na Praça da Paz Celestial, em Pequim
Imagem: Arthur Tsang/Reuters
Um caso recente tem a ver com a mudança que permitiu que o presidente Xi Jinping mantivesse o cargo por tempo indeterminado. Críticos passaram a chama-lo de "imperador Xi", então o uso de termos como "meu imperador" passou a ser censurado - por aí vai.

Isso também tem aplicações a acontecimentos históricos, como o Massacre da Praça da Paz Celestial de 1989. No Baidu, o equivalente chinês ao Google, ao jogar termos relacionados ao que aconteceu em Pequim, como "homem tanque", a busca retorna com imagens genéricas de homens e tanques - no Google Imagens, todos os principais resultados são do evento na Praça da Paz Celestial.

A barreira que isola a rede chinesa foi apelidada de "Grande Firewall", uma brincadeira com a milenar Grande Muralha da China. Mesmo sem ter sido aprovada, a Rússia já ganhou um nome engraçadinho: "cortina de ferro", em alusão ao termo usado durante Guerra Fria para descrever os países do Leste Europeu alinhados com a então União Soviética.

Herdeira da maior parte do território soviético, a Rússia pode retomar o espírito do antigo regime no controle à internet. Por enquanto, os críticos ainda podem reclamar, mas a liberdade pode estar com os dias contados.

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