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Letícia Piccolotto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Contra mudança climática, nossas startups são a esperança que o mundo busca

Gerd Altmann/ Pixabay
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

13/02/2021 04h00

O Fórum Econômico Mundial teve início no final de janeiro. Como quase todos os grandes eventos dos últimos meses, a maior parte das atividades será transmitida por videoconferência. Mas uma diferença será marcante: o principal tema debatido não será a pandemia de covid-19, mas sim o que é preciso fazer para salvar o planeta Terra.

Lideranças políticas, empreendedores, pesquisadores e ativistas discutirão estratégias para combater os efeitos das mudanças climáticas e para construir um planeta mais resiliente e saudável. Esse debate não surge agora, mas sua urgência nunca foi tão evidente. Afinal, especialistas têm se referido a 2021 como o ano de transição: temos exatamente uma década para cumprir as metas do Acordo de Paris e diminuir em 50% a emissão de gases poluentes da atmosfera terrestre.

Considerando este cenário, estamos diante de uma verdadeira corrida por tempo, recursos e estratégias de mitigação. Eventos recentes, desde incêndios no pantanal, na Austrália, seguido pelo desmatamento da Amazônia, reforçam a urgência do tema.

A própria epidemia de covid-19, vale lembrar, tem sido correlacionada à degradação ambiental, como discuti aqui.

Caso queiramos impedir novas crises e pandemias globais, é preciso garantir a proteção e o equilíbrio dos ecossistemas.

Enquanto a mudança climática passa a ser percebida como um risco sistêmico pela maioria das nações do planeta, inclusive os EUA que, sob a nova gestão Biden, retomou o compromisso com o Acordo de Paris, o Brasil vê sua imagem externa cada vez mais abalada.

De potenciais lideranças sobre o tema, dada a relevância estratégica de nossa biodiversidade, passamos a ser cobrados por ações mais estruturantes. E já sentimos a pressão externa de maneira mais determinante, com posicionamentos contra o desmatamento manifestados por lideranças de países como França e EUA.

Mesmo diante da imagem externa, temos uma postura incoerente no Fórum Econômico. Diante de desmontes institucionais, tentativas de suavizar regulações e sanções e do evidente aumento do desmatamento no país, representantes brasileiros insistem em reforçar o compromisso do país com a conservação do meio ambiente, afirma Natalie Unterstell, diretora do Instituto Talanoa.

Desmatamento - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Trocando o desespero por esperança

A maioria das discussões sobre o futuro do planeta nos deixa desesperados e inseguros. Mas diante do desafio que está colocado é preciso trocar esses sentimentos de impotência pela esperança. É o que afirma o documentário "Solo Fértil", que tem Gisele Bundchen como produtora executiva e foi lançado pela Netflix.

Em um curto espaço de tempo, ou seja, pelos próximos 10 anos, precisaremos construir oportunidades de investimento sustentáveis em energia, transporte e uso da terra. Será preciso requalificar trabalhadores que atuam em cadeias de produção atuais e poluentes - como é o caso da petroleira. E também construir soluções que garantam a sustentabilidade da vida humana: a existência de nossa geração, sem comprometer o equilíbrio da terra e as chances de sobrevivência futura.

Nesse cenário, a tecnologia terá um papel fundamental. Já discuti sobre o tema muitas vezes aqui na coluna, e a boa notícia é que as propostas têm se multiplicado de maneira exponencial.

O BrazilLAB já acelerou diversas greentechs, startups que utilizam tecnologia para contribuir com o meio ambiente.

Como a Plataforma Verde, que utiliza o blockchain, uma tecnologia que permite o registro, mapeamento e rastreamento de informações. A tecnologia desenvolvida pela startup tem sido aplicada para a gestão de toda a cadeia de resíduos sólidos —desde sua geração até o destino final.

Ou a SIntecsys, solução que monitora e detecta de maneira automática, possíveis focos de incêndios em florestas e plantações.

A BRFlor, por sua vez, pode ser aplicada para combater o desmatamento ilegal —que, segundo estimativas, é fonte de 80% da madeira produzida no Brasil. Com base em tecnologias como blockchain, internet das coisas (IoT) e inteligência artificial, ela permite registrar e rastrear a produção madeireira garantindo sua legalidade.

Há também startups atuando no mercado de energia renovável, como é o caso da Sunew, que criou painéis orgânicos para captar energia solar. Eles podem ser instalados em prédios, carros e até mesmo no transporte público, gerando uma energia limpa e que é abundante em um país como o Brasil.

Outras ações também serão fundamentais e demandam a mobilização de diversos atores da sociedade.

Recentemente, Elon Musk, fundador da Tesla e entusiasta da exploração espacial, anunciou o apoio de US$ 100 milhões ao XPrize Carbon Removal. Essa será a maior premiação do tipo da história e tem como objetivo apoiar o desenvolvimento de soluções tecnológicas que reduzam os níveis de dióxido de carbono na atmosfera terrestre. A julgar pelos resultados de iniciativas anteriores, podemos ter altas expectativas; excelentes soluções estão por vir.

Diante da urgência trazida pelas mudanças climáticas, o discurso não substituirá a ação. Seremos cobrados, como nação, por nossa efetiva capacidade de proteger o meio ambiente. Podemos e devemos contar com as soluções tecnológicas disponíveis para essa tarefa. É preciso agir, não há mais tempo a perder.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL