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Letícia Piccolotto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Já temos tecnologia eficaz para monitorar a covid, só falta o país adotar

Profissional de saúde faz coleta para teste de covid-19 - iStock
Profissional de saúde faz coleta para teste de covid-19 Imagem: iStock
Letícia Piccolotto

Letícia Piccolotto especialista em gestão pública pela Harvard Kennedy School, presidente da Fundação Brava e fundadora do BrazilLAB, primeiro hub de inovação que conecta startups com o poder público. Em 2020, foi a única brasileira na lista das 20 principais lideranças mundiais em GovTech da Creators, laboratório de inovação sediado em Tel Aviv (Israel).

06/02/2021 04h00

O Aberto de Tênis da Austrália (Australia Open Tennis) começará na segunda, 8 de fevereiro, com a participação de figuras já conhecidas, como Djokovic e Serena Williams. Isso se deve a uma elemento que caracteriza uma boa gestão da pandemia: os protocolos de testagem em massa da população.

Tenho acompanhado essa nova abertura das quadras de esporte com um misto de entusiasmo pelo tênis, mas também de deslumbramento: após semanas de preparação, protocolos rígidos de cuidado e a intensa cooperação de atletas, trabalhadores e cidadãos, a cidade de Melbourne está pronta para receber o torneio de maneira segura.

Os dados do governo australiano mostram essa realidade. Até a sexta-feira, 5 de fevereiro, o portal do departamento de saúde do país apontava a existência de 28.824 casos ativos e 45.569 testes realizados nas últimas 24 horas.

É isso mesmo: a Austrália está testando diariamente sua população em quantidades muito acima de todo o histórico de casos já registrado.

É bem verdade que a Austrália é um país insular e com uma população de 25 milhões de habitantes, características que privilegiam as tarefas de testagem e rastreio de infectados. Mas o que dizer de outras nações, como os países asiáticos, que investiram na mesma estratégia?

Dados do Worldometers mostram o cenário de testagem em diversos países considerando dados das últimas 24 horas.

Taiwan, por exemplo, realizou 162.543 testes em uma população de quase 24 milhões de habitantes (são 6.817 testes por milhão de habitantes).

A Índia e sua população de quase 1,4 bilhão de pessoas já realizou mais de 199.931 testes (o equivalente a 142 testes por milhão de habitantes) e os EUA, primeiro país em número de casos e óbitos, realizou mais de 319.878 testes nas últimas 24 horas (representando 963 testes por milhão de habitantes).

Especialistas têm apontado o quanto as estratégias de rastreamento e isolamento de casos da doença são fundamentais, assim como elas só são plenamente possíveis com a testagem dos casos.

O Brasil, terceiro em número de casos e óbitos, realizou 28.600 testes nas últimas 24 horas, o que equivale a 133 testes por milhão de habitantes.

Esse cenário se combina com notícias terríveis, como a de que milhões de testes adquiridos pelo Ministério da Saúde teriam de ser descartados por terem perdido a validade.

Em um contexto global no qual os insumos para atenção à saúde são cada vez mais preciosos, parece absurdo que, os tendo à nossa disposição, não sejamos capazes de fazer com que os testes cheguem aos locais nos quais são necessários.

A testagem é tão fundamental que, inclusive, foi adotada como um dos parâmetros utilizados pelo Instituto Lowy na construção do "Covid Performance Index", um ranking de desempenho dos países na gestão da pandemia de covid-19.

O Brasil ocupa o último lugar dentre 98 nações avaliadas. Obtivemos a nota 4,3, de um total de 100 pontos possíveis, estando atrás de países como Paquistão (69º lugar, com 36,9 pontos), Etiópia (46º lugar e 49,1 pontos) e nosso vizinho, o Uruguai (12º lugar e pontuação de 75,8).

Mas há alternativas já disponíveis. Diversos empreendedores têm desenvolvido soluções tecnológicas que podem ser empregadas para o desafio de ampliar a testagem e, consequentemente, garantir o controle do vírus.

Tecnologia a nosso favor

Um dos exemplos é a solução da Hilab. A empresa desenvolveu dois tipos de soluções para a detecção da doença, o teste de antígeno (Ag), que identifica proteínas do vírus, e cuja aplicação é indicada a partir do 1º até o 5º dia do aparecimento de sintomas; o teste de sorologia IgM e IgG, que identifica a presença das imunoglobulinas, ou seja, anticorpos desenvolvidos a partir da exposição ao vírus; e o teste molecular, também conhecido como PCR, que identifica o material genético do vírus, ainda que ele esteja presente em pequenas quantidades.

O mais interessante é que as amostras não precisam ser enviadas a um laboratório central: graças a um equipamento, chamado scanner, os dados são enviados para uma nuvem e, posteriormente, são analisados pelas equipes de técnicos, que assinam o laudo. Os resultados são apresentados entre 15 e 40 minutos após a coleta.

Outra solução disponível é a meuDna Covid, um teste que utiliza a metodologia PCR-Lamp e, com a coleta de saliva do paciente, permite a identificação do vírus - em um prazo de até 24 horas.

Em conjunto com a testagem, é fundamental garantir o rastreamento de casos suspeitos ou confirmados. Há diversas soluções também disponíveis para esse fim.

O Colab, startup acelerada pelo BrazilLAB, em conjunto com a Epitrack, lançaram o Brasil Sem Corona, um app colaborativo que, com as informações fornecidas por usuários, permite a construção de mapa nacional de risco para acompanhar a evolução da pandemia no território nacional.

E há muitas outras soluções de rastreamento do vírus. A Revista de Tecnologia do MIT (MIT Technology Review) mapeou 25 soluções semelhantes sendo implementadas em diversos países.

As possibilidades são diversas e fundamentais, afinal, estamos ainda em pleno combate ao vírus.
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Mesmo com o início da aplicação de vacinas, temos ainda um longo caminho para garantir o controle da doença no país.

As chamadas medidas não farmacológicas —higiene pessoal, uso de máscaras e distanciamento social— continuam sendo fundamentais. E com elas devemos investir na testagem de indivíduos como uma estratégia de controle da doença no território, especialmente considerando o surgimento de novas variantes.

Testagem traz conhecimento, previsibilidade e controle. A combinação desses três elementos nunca foi tão importante para sobrevivermos não só a essa pandemia mas eventualmente a outras que ainda poderão surgir.

Nesse sentido compartilho, por fim, o vídeo da Fundação Bill e Melinda Gates reforçando boas práticas globais que poderemos adotar no futuro para o enfrentamento de pandemias. Vale a pena a reflexão!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL