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Carlos Affonso de Souza

Meme, HQ, romance e até grife formam identidade dos invasores do Capitólio

Manifestantes apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, invadem Congresso - Win McNamee/Getty Images
Manifestantes apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, invadem Congresso Imagem: Win McNamee/Getty Images
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Carlos Affonso

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

20/01/2021 04h00

"Agora que estamos aqui a gente bem que podia formar um governo", disse um dos invasores do Congresso americano ao ingressar no plenário do Senado. A tarde de 6 de janeiro de 2021 não apresentou ao mundo os seus futuros líderes, mas abriu os olhos de muita gente para a diversidade de movimentos, crenças e símbolos que são compartilhados pelos apoiadores de Donald Trump.

Teorias da conspiração e desinformação formam a argamassa que cola uma mistura de supremacia racial, determinismo histórico, cultura de internet, desobediência civil e um senso distorcido de realidade. Para quem estava de fora, assistindo tudo de sua casa, poucas vezes a democracia nos EUA pareceu tão ameaçada. Aos olhos de quem estava dentro, a democracia americana estava sendo salva.

Para os invasores aquilo era uma nova Revolução Americana, só que ao invés de expulsar os ingleses, agora o alvo eram os comunistas, os globalistas e os traidores. Eu disse expulsar? Para muitos dos invasores a punição para os políticos contrários a Donald Trump não era o exílio, mas sim a forca, outro símbolo comum no imaginário desses grupos.

Não dá para entender como chegamos até aqui sem conhecer um pouco desses movimentos, no que eles acreditam e quais símbolos carregam. Muitos deles têm o seu desenvolvimento diretamente ligado à expansão da Internet e à dinâmica das redes sociais que aproxima pessoas com interesses e visões em comum. Imagens e vídeos da fatídica invasão do Capitólio ajudam a fazer esse mapeamento.

O "dia da corda"

"Enforquem Mike Pence", gritava um grupo de invasores enquanto corriam pelas salas do Capitólio em busca do vice-presidente, visto como um traidor por ter referendado a vitória de Joe Biden nas urnas. Do lado de fora do Congresso, forcas foram efetivamente construídas.

forca no Capitólio - Andrew Caballero-Reynolds/ AFP - Andrew Caballero-Reynolds/ AFP
Forca é um dos símbolos usados por apoiadores de Trump na invasão ao Capitólio
Imagem: Andrew Caballero-Reynolds/ AFP

A imagem do enforcamento de traidores da causa é recorrente no movimento supremacista branco, sendo geralmente exaltado como o "dia da corda". O nome deriva do romance "Os Diários de Turner", publicado em 1978 e que narra uma revolução racial nos Estados Unidos que termina com a deposição do governo, uma guerra nuclear e a consagração da supremacia branca.

No livro, o protagonista Earl Turner se envolve com uma organização paramilitar depois que o governo dos EUA confisca as armas de fogo dos cidadãos, cria leis contra o discurso de ódio e monitora a população através de várias ferramentas. O grupo passa então a perseguir os traidores da raça (como professores, magistrados e jornalistas) e promove um grande enforcamento público que fica conhecido como o "dia da corda".

O New York Times classificou o livro como "explicitamente racista e antissemita". Exemplares foram encontrados com autores de atentados nas últimas décadas. O atentado terrorista em Oklahoma de 1995, que matou dezenas de pessoas, teria sido baseado na explosão do prédio do FBI narrada no livro. O autor do ataque carregava consigo algumas páginas dos Diários de Turner quando foi preso.

Bandeira do Kekistão

Se você nunca ouviu falar no Kekistão não precisa sair correndo para atualizar os seus conhecimentos de geografia. O país, na verdade, é uma criação de usuários do fórum de internet 4chan para parodiar o sentimento de identidade, o politicamente correto e a proteção aos refugiados.

A bandeira do país fictício foi inspirada em bandeiras de guerra da Alemanha nazista e o seu nome pega emprestado um outro famoso meme nos círculos de extrema-direita: o sapo Pepe, personagem de quadrinhos alternativos que foi apropriado nas redes como sendo representante do deus-sapo egípcio Kek.

kekistan - Reprodução - Reprodução
Bandeira do Kekistão
Imagem: Reprodução

O youtuber Sargon of Akkad já tentou até coordenar que britânicos respondessem ao censo nacional como sendo da etnia do Kekistão. Bandeiras do país fictício vêm aparecendo em atos pelo mundo afora. Além de marcar presença na invasão do Capitólio (com um sujeito vestido de sapo), a bandeira do Kekistão também já foi vista em ato de apoio ao presidente Bolsonaro.

Proud Boys

Fundado em 2016 e associado a atos de violência, o grupo defende fechamento de fronteiras a imigrantes, a revisão de medidas de bem-estar social e a afirmação de papéis tradicionais de gênero. Pautado por misoginia e racismo, segundo South Poverty Law Center, o grupo foi tema de um debate entre Trump e Biden no qual o primeiro terminou por não condenar os atos violentos do grupo.

proud boys - Getty Images - Getty Images
Apoiador do grupo extremista norte-americano Proud Boys, em Charlotte, Carolina do Norte
Imagem: Getty Images

Os Proud Boys compareceram em número recorde na invasão do Congresso, mas vestidos sem as suas cores características, o preto e o amarelo.

Em 2019 a marca britânica Fred Perry teve que cancelar a venda nos EUA de uma de suas camisas polo mais famosas justamente porque ela continha um louro da vitória e as cores preto e amarelo. Integrantes dos Proud Boys haviam feito da camisa uma espécie de uniforme e a empresa emitiu um comunicado expressando que ela não compactuava com os valores do grupo.

Com forte atuação nas redes, o Proud Boys foi criado por um dos cofundadores da Vice Media, Gavin McIness, que depois abandonou a empresa para se tornar um ativista de extrema-direita nos Estados Unidos.

Three Percenters

O Three Percenters é um grupo paramilitar que defende que a sociedade americana apenas será livre da opressão governamental se estiver plenamente armada. O grupo se posiciona contra o que caracteriza como intromissão do governo federal em assuntos locais.

Bandeira do movimento Three Percenters - Reprodução - Reprodução
Bandeira do movimento Three Percenters
Imagem: Reprodução

O nome do grupo deriva de uma visão (amplamente contestada) de que apenas 3% dos colonos americanos teriam participado da luta armada pela independência contra os ingleses. Sendo assim, uma pequena milícia armada poderia fazer frente ao poder central e garantir a proteção dos demais cidadãos.

Oath Keepers

Outro grupo bastante presente em imagens e vídeos da invasão, os Oath Keepers congregam ex-militares, policiais e socorristas. A sua missão é fazer valer o juramento de proteger a sociedade e respeitar a Constituição, feito pelos seus membros, em especial caso qualquer ordem governamental pareça ir contra esse mandamento.

O fundador do grupo, que foi aluno da Faculdade de Direito de Yale e paraquedista do exército americano, argumenta que se policiais e soldados tivessem descumprido as ordens de Hitler o rumo da história seria distinto. Assim, o grupo enxerga que policiais e soldados são forças ativas na contenção de desmandos governamentais. Como em outros grupos ideológicos armados, muitos de seus integrantes não apenas apoiam Donald Trump como também enxergam que eles têm a missão de impedir a ascensão de uma Nova Ordem Mundial.

Hebreus Israelitas Negros

Os Black Hebrew Israelites formam um movimento religioso que, com diferentes feições, acredita que as pessoas negras são os verdadeiros hebreus ou os descendentes dos israelitas, sendo assim o povo escolhido por Deus.

QAnon

Talvez o símbolo mais presente nas imagens da invasão seja a letra Q, estampada em camisas e cartazes. Ela se refere à teoria da conspiração chamada QAnon, segundo a qual existe uma rede internacional de tráfico de menores que envolve políticos e celebridades e que Donald Trump estaria combatendo esse esquema, revelado por um informante misterioso (o "Q" em questão).

qshaman - Saul Loeb/ AFP - Saul Loeb/ AFP
Manifestante favorável ao presidente Donald Trump durante invasão ao Congresso dos EUA
Imagem: Saul Loeb/ AFP

O personagem que mais chamou atenção nas imagens da invasão foi um suposto "viking". Jake Angeli, autodenominado Q-Shaman, é um divulgador das teorias conspiratórias do grupo. A sua vestimenta lembra os nativos americanos, embora suas tatuagens sejam de elementos nórdicos e derivados de games. Já preso, ele se recusou a comer na carceragem por não terem sido oferecidas opções orgânicas.

Um vídeo publicado pela revista New Yorker mostra que o pretenso xamã, ao tomar a mesa da presidência do Senado, tirou a pele de bisão com chifres fake que cobria sua cabeça e comandou uma oração ao deus "divino, onipotente e onisciente". Não sem antes tirar uma foto sob os olhares de um policial que pedia para que os invasores preservassem aquele "local sagrado".

Vídeo da revista New Yorker mostra invasores no plenário do Senado, no Capitólio - Reprodução - Reprodução
Vídeo da revista New Yorker mostra invasores no plenário do Senado, no Capitólio
Imagem: Reprodução

Essa miríade de símbolos e grupos mostra a diversidade de mentalidades e de filiações que motivaram o ataque ao Congresso nos EUA. O que une grande parte desses grupos? A fidelidade a Donald Trump e a obediência aos seus comandos.

Isso não deve mudar com a transição de poder na Casa Branca. Aliás, muito ao contrário. Joaquim Nabuco dizia que a oposição é sempre popular porque "é um prato servido à multidão." O abolicionista só não disse se tem opção orgânica.