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Carlos Affonso de Souza

Banir Trump se tornou solução e armadilha para as redes sociais

Presidente dos EUA, Donald Trump - Reuters
Presidente dos EUA, Donald Trump Imagem: Reuters
Carlos Affonso

Carlos Affonso é Diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) e professor da Faculdade de Direito da UERJ.

10/01/2021 11h24

Trump foi feito para as redes sociais. Fala com frases curtas, respeitando limite de caracteres. Provoca adversários como um verdadeiro troll. Cria memes de si mesmo. Engaja seguidores com várias publicações ao dia. Seu estilo de governar se moldou e foi moldado pelas redes.

Ao banir indefinidamente Donald Trump o Twitter não vai fazer muitos amigos. Apoiadores do presidente vão dizer que é uma censura sem precedentes, ainda mais com a atuação confusa depois do banimento, apagando posts e contas que pretendiam se passar por Trump. Um grande whack-a-mole, com a empresa correndo atrás para apagar uma postagens só para logo em seguida ela aparecer em outro lugar.

Mesmo no espectro contrário ao Trump vai ter muita gente criticando o Twitter pelo banimento, questionando a legitimidade de grandes empresas de tecnologia para decidir o que um presidente pode ou não falar nas plataformas. Empresas estariam acima de Estados?

São pelo menos duas armadilhas que o Twitter criou para si mesmo com o banimento do Trump: 1) a empresa vai ter que inventar uma forma de impedir que ele volte via outras contas e isso agrava o debate sobre liberdade de expressão; e 2) vai ter que seguir a mesma lógica com outras autoridades.

O Twitter inovou ao detalhar os motivos do banimento do Trump oferecendo uma interpretação dos conteúdos que levaram ao resultado. Mas como tudo na vida, quando você expõe os argumentos também é aberto o debate para que outros questionem a sua interpretação.

O episódio também revela que contexto importa. Se não fosse pela invasão do Capitólio esses dois tuítes que levaram ao banimento seriam apenas mais duas falas com a retórica de sempre de Trump. Mas lidos como a continuidade de um enfrentamento que pode ficar violento a empresa resolveu adotar uma medida inédita

Vamos esperar que o banimento de Trump não vire mais um caso de "excepcionalismo americano". É claro que os acontecimentos nos EUA geram atenção global, mas agora que o gênio está fora da lâmpada, vai ser importante ver como o Twitter aplica o mesmo racional para outros líderes.

Podemos esperar uma cobrança ainda maior em cima das plataformas por transparência e coerência na aplicação das suas regras de moderação de conteúdo agora que a solução mais drástica foi usada com Trump. A temporada de aplicação esotérica e assistemática dos termos de uso acabou.

Banir Trump acabou sendo ao mesmo tempo uma solução e uma armadilha para as redes sociais, que passarão a ser questionadas à luz das medidas que adotaram nessa semana. Mais um elemento a unir umbilicalmente Trump e as redes sociais. Mesmo que em algumas delas ele nem lá mais esteja.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL