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Show de Caetano Veloso manda 'mensagem subliminar' sobre eleição e política

Caetano Veloso em show de "Meu Coco", em Belo Horizonte - JP Lima/Divulgação
Caetano Veloso em show de 'Meu Coco', em Belo Horizonte Imagem: JP Lima/Divulgação
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

13/05/2022 04h00

"Meu Coco" é o nome do novo show de Caetano Veloso em turnê pelo Brasil. Entre antigas e novas, o público veio junto o tempo todo em uma experiência presencial de retomada. A expressão tem múltiplas acepções, todas elas convenientes para o momento.

Retomada do longo percurso musical de Caetano, desde a Bossa Nova até a Tropicália com ênfase no disco de 1972, "Transa", que marca seu retorno ao Brasil depois do exílio em Londres. Os discos dos anos 1990, combinando o novo rock urbano com o samba reggae, como em "Circuladô", e finalmente os experimentos de rediscussão da brasilidade, do álbum "Cê" dos anos 2000. Uma retomada nominal de todos que trabalharam nesta longa e frutífera carreira, desde arranjadores, músicos e parceiros.

Retomar quer dizer tomar novamente, reapropriar-se, recomeçar. Em termos militares remete a reconquistar um território perdido. Em termos estéticos pode ser um território simbólico. Por exemplo, quando se fala em Cinema da Retomada, alude-se ao longo período de hibernação interno à ditadura e o recomeço de produções nacionais entre 1995 e 2005.

Retomar remete a um conceito técnico nas artes visuais, ou seja, a tomada da câmera para a gravação de uma cena ou plano. Tomada, presume set, cenário, atores, iluminação e de forma decisiva o enquadramento.

A retomada pode ser uma reocupação, como o show de Emicida, no Teatro Municipal de São Paulo, chamado AmarElo, em 2019, que talvez tenha inaugurado o projeto estético de uma nova retomada musical e artística no Brasil.

Quando perdemos alguém e entramos em luto, quando saímos de um trabalho ou profissão, quando encerra-se uma fase da vida, quando mudamos de casa ou país, quando se fecha uma época ou um tempo do mundo, em todas estas situações é preciso realizar uma operação de retomada, ou seja, olhar para o baú —de coisas, pessoas, experiências e relações— e dizer para si mesmo, às vezes para os outros e para as coisas mesmas, o que segue viagem e o que ficará para trás.

São nesses momentos da vida que devemos realmente fazer diagnósticos e balanços, não apenas nas datas comemorativas e nas épocas de transição anual.

Ora, momentos de transição política, como eleições convocam processos semelhantes de retomada.

Surgem as benfeitorias, as obras de ocasião, os números e os dados. Discute-se a volumetria dos feitos, a densidade das decisões, a área de contato com o que se poderia fazer com as circunstâncias das quais se dispunha.

Às vezes o baú mostra apenas promessas vazias, decepções e enganos, outras vezes encontramos aquele velho brinquedo caído, levado de mudança em mudança, não se sabe muito bem porquê, mas que naquela hora decisiva nos traz aquela lembrança que restaura, que refaz, que nos lembra de que sabemos brincar e que faz o desejo trabalhar para recuperar aquilo que foi perdido, nas atribulações da viagem da vida ou da história.

Neste ponto lembro um detalhe curioso do show de Caetano. Ele estava lá, todo pimpão, de branco, do alto orgulhoso de seus 80 anos, dançando o TikTok do momento, mas no cume calvo do cenário, assentava a sombra sonora de uma imagem. A forma era ambígua, assemelhando-se a uma cadeira mal construída, com um borrão no meio.

Ele passa quase todo show inteiro de pé, o que me levou a pensar naquilo como uma daquelas cadeiras estilizadas, de Geraldo de Barros.

Isso me levou ao antigo teste neuropsicológico de Bender, que os psicólogos aprendem na faculdade, que permite diagnosticar demências a partir de como os pacientes perdem a capacidade de representar tridimensionalmente o espaço.

Depois disso me veio a ideia, mais plausível, de que se tratava de uma espécie de chapéu. As duas ideias convergiam para a cabeça de Caetano, ou seja, seu "coco".

Mas a imagem era geométrica demais para isso. Lembrava aqueles desenhos de Escher, com escadas que sobem e descem continuamente, ou quedas de água infinitas que se realimentam, criando uma espécie de paradoxo visual.

Já se observou fenômeno semelhante em certas fugas de Bach, que usam o recurso do contraponto, mas também na teoria matemática de Gödel, que mostrou que nenhum sistema lógico pode ser completamente consistente, de forma a incluir a si mesmo dento dos próprios teoremas que prevê [1].

A tal figura ia mudando de cor —do verde para o vermelho, do amarelo para o azul—, me intrigando cada vez mais sobre seu propósito no show, Cheguei a pensar que era um MacGuffin, do Hitchcock. Nos seus filmes há sempre uma falsa intriga, um objeto ou uma coisa fora de lugar, que pertence a trama apenas para desviar a atenção do ponto principal e depois causar certa surpresa ou inversão de expectativas.

Quando todos começaram a gritar "Fora Bolsonaro", pensei que obviamente aquela coisa só podia ser uma imagem deformada de uma urna eletrônica. De fato, ela era construída por uma parte mais alta ao fundo e outra mais baixa, com uma espécie de apoio no meio, que lembrava vagamente a cabine de votação ou o formato trapezoide da própria urna.

Já estava quase desistindo de meu exercício projetivo, que talvez fosse mesmo o objetivo do enigma visual proposto, quando me veio a ideia de que se aquilo era uma mensagem "secreta" só podia ser uma combinação entre a retomada política e musical, de Caetano e sua obra, junto com uma deformação propositalmente enigmática, política e formal do que nos está acontecendo.

Estamos sendo enganados, procurando sentidos no objeto, presente e imediato, o MacGuffin sem sentido, levantado em torno da segurança das urnas eletrônicas, no contexto das eleições vindouras, quando o que nos falta é lucidez para enxergar o que está posto diante de nossos olhos.

Olhando assim para a pura forma, sem querer criar nenhum sentido ou resposta para por que aquilo estava ali, pude perceber, pela primeira vez, aquilo que escapa ao olhar focado.

Tratava-se do conhecido efeito de pós-imagem, explorado por Mark Rothko e tantos outros artistas, baseado no fato de que se você fixasse o olhar na forma, durante algum tempo, e depois movesse os olhos para o lado, uma figura-sombra reproduzia a forma antes vista.

Isso cria um efeito curioso porque você percebe que é uma ilusão, mas não pode se impedir de sentir sua realidade diante dos seus olhos.

Tratava-se de um convite à retomada do que está sendo visto diante de nossos olhos. Retomada do Brasil. Retomada de nossas próprias elipses e eclipses democráticas.

Quem se fixar na urna, nas suspeitas sobre sua funcionalidade, integridade ou confiabilidade técnica não verá a pós-imagem que ela realiza como golpe do olhar.

REFERÊNCIA

[1] Hofstadter, Douglas (1979) Gödel, Escher, Bach: um entrelaçamento de Gênios Brilhantes. São Paulo: Basic Books, tradução José Viegas Filho, 2001.