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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que trocamos vida real por experiências de baixa qualidade no celular?

O celular nasceu como extensão de nós mesmos, mas também uma espécie de ser animado, cada vez mais dotado de vontade própria - Rob Hampson/ Unsplash
O celular nasceu como extensão de nós mesmos, mas também uma espécie de ser animado, cada vez mais dotado de vontade própria Imagem: Rob Hampson/ Unsplash
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

25/02/2022 04h00

Freud [1] usou algumas imagens fundamentais para introduzir o conceito de narcisismo: o gato que não demanda nenhuma atenção, a menos que ele a conceda, a pessoa adoentada que se torna intragável porque só pensa em si ou a criança que se comporta como déspota encenando diariamente "his majesty the baby".

Mas de todas elas a mais sensível é a relação de continuidade que mães estabelecem com seus filhos.

Talvez derivada da experiência concreta de contê-los dentro de si por nove meses, ou pela intensidade dos primeiros cuidados ligados à amamentação, muitas delas relatam que crianças muito pequenas são como uma extensão de você mesma.

Na prática não há nada que impeça um homem de possuir e cultivar a mesma sensação, que, aliás, pode ser reprisada na relação com carros, relógios e demais adereços de virilidade. Artefatos que reagem ao meu comando "à distância", vozes de obediência como Alexa ou Gabriela (uma das anunciantes de caminho preferidas nos aplicativos de trânsito) são instrumentos preferenciais para este tipo de gozo que, infelizmente, às vezes, evolui para a relação com pessoas.

O celular nasceu precisamente neste lugar: extensão de nós mesmos, como a carteira ou a bolsa, mas ao mesmo tempo uma espécie de ser animado, cada vez mais dotado de vontade própria.

Uma extensão de nós mesmos, um órgão fora do corpo, como aquele olho portátil que vemos nos filmes do Harry Potter, capaz de sair da face e ser usado pela palma de nossa mão, como uma câmera.

Lá estão nossos dados, nosso histórico de consumo e, afinal, todas as imagens e declarações que poderão ser usadas contra nós, uma vez recortadas pelo pérfido produtor de ângulos destrutivos de nós mesmos. Aliás, é possível que isso tenha sido uma vingança, criada por ele mesmo, para denunciar nosso uso corretor, make-up, filtrador de imperfeições, que ele também habilita.

A mera presença desta extensão de nós mesmos, sobre uma mesa de reunião ou de jantar, perturba a atenção e a orientação para outros, reles mortais, verdadeiros humanos "in praesentia".

Cada vez escutamos mais queixas daqueles que se sentem excluídos, minorizados e desamados pela concorrência desleal do celular do parceiro.

Muitas buscas devastadoras e invasivas, várias delas semiconsentidas, ou inconscientemente sancionadas, não respondem apenas ao ideal controlador de que nosso parceiro amoroso se torne a versão superior desta extensão de nós mesmos, mas a curiosidade para encontrar o que tem ali que pode ser mais interessante do que nós mesmos.

É como se naquele quarto escuro, no nosso cantinho da verdade, na cama, na casa ou na fazenda, existisse um pequeno buraco negro que nos leva de volta para o cosmos da mistura com o Outro indiscernível.

Imagine você a decepção narcísica, quando, uma vez revelada toda a verdade do desejo alheio, você descobre que perdeu para ... o Minecraft ou para o TikTok?

Outro fenômeno curioso é a síndrome de esquecimento sistemático do celular.

Ele cai no chão, racha o vidro três ou quatro vezes por mês, desaparece na bolsa e o clássico dos clássicos, é deixado para trás, por sobre o divã do psicanalista.

O sacrifício final, a oferenda xamânica ritual cria esta cena de purificação. Por meio dela todos nossos problemas, nossas ansiedades e até mesmo as paixões acachapantes serão entregues para o Outro de onde isso veio.

Tudo isso junto, mas agora separável unicamente pelo desfazimento de uma pequena máquina.

Sim, uma das evoluções clínicas mais previsíveis do narcisismo descompensado é a agressividade. Aquela fonte suprema de amor e gratificação se transforma na causa máxima do ódio e do desejo de fazer apagar o outro da face da terra.

Até nisso o delete, unfollow e cancelamento atendem perfeitamente nossos anseios imaginários. É que este outro que nos acompanha como duplo, sombra ou voz em backing vocal de nós mesmos, sempre cansa. E esse outro (que é você mesmo) fica ali disponível para ser depositário de toda culpa e raiva que você tem (de você mesmo).

Mas não queiram saber quando ela se vai, às vezes pelo ralo de um prazer anal devoluto na privada, outras deixado ao relento do sereno da madrugada, ou até mesmo esquecido num táxi qualquer. A sensação é de desproteção e raiva. A dimensão ontológica de nossa existência é colocada em questão.

Afinal, como acontece com nossas extensões narcísicas primárias, queríamos mesmo que um dia elas crescessem, fossem estudar fora e criassem suas próprias famílias, com suas extensões narcísicas renovadas. Nós, agora avós, podemos brincar de como as coisas eram antes, mas agora com aquele maldito botão faltante, disponível: desliga. Tudo bem, nesta nova versão ele vem com um problema crônico que não funciona, mas o importante é "acreditar" que ele existe.

O desleal nesta história é que em geral trocamos momentos potencialmente divertidos ou de tensionamento real, por experiências de baixa qualidade no celular.

A diferença pode ser avaliada pela família que, reunida, discute e conversa sobre o mesmo post do Instagram, e aquela na qual está cada um na sua e todos numa boa.

Aliás, quando me perguntam sobre a medida mais simples para melhorar a saúde mental das pessoas eu sempre respondo: almoce ou jante com sua família todo dia (sem celular).

O que é mais difícil explicar é que mesmo a baixa qualidade experiencial, em regra neste tipo básico de uso, não "descansa" de verdade, como parece. Junto com ela vem a sensação de que eu mesmo posso regular a demanda do outro, que tantas vezes me oprime.

Pense na quantidade de mães escravizadas por seus filhos e que, na verdade, se imaginam no "governo" da situação. Quantas tantas vezes estou apenas me iludindo com a potência de fazer pequenas escolhas, que mudam as páginas da tela, quando o que eu queria era mudar as páginas da vida.

REFERÊNCIA

[1] Freud, S. (1911) Introdução ao Narcisismo. Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica.