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OPINIÃO

Big Brotheragem Brasil: como a relação masculina definiu o BBB 22

BBB 22: Arthur Aguiar questiona discurso de Tadeu Schmidt para eliminação de Jessilane Imagem: Reprodução/Globoplay
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Christian Dunker

22/04/2022 04h00

Muitos estão estranhando a chegada de seis homens à final do Big Brother Brasil 2022. Nos anos de pandemia, a atração se tornou extremamente popular, movimentando pautas e promovendo os fandoms dos participantes, e fez com que, além do capital financeiro e da promoção simbólica, os vencedores acumulassem ainda um poderoso capital digital. Mas o que explicaria a tendência masculina e menos política desta versão do jogo?

Se tudo sair como o previsto, Arthur será o primeiro vencedor a vir do camarote (personalidades convidadas que não passam pela seleção, como os pipocas). Ele terá derrotado outros candidatos, inclusive mulheres associadas a causas específicas: Linn da Quebrada, Eslovênia e Jessiane.

Ingressando como um ator, com fama de "cancelado" por ter traído a namorada "mais de quinze vezes", ele representa a jornada do herói em redenção, dos homens comuns e suas misérias banais. No fundo, ele se presta a ser um suporte ideal, mais que Scooby ou Eliezer, para o momento brasileiro de "pés no chão", realismo dos pequenos defeitos e grandes desilusões. Por outro lado, Arthur nada seria sem seus brothers e fandoms.

Alguns associam a cultura de fandom com a economia da doação, salientando que o ato de doar seu tempo, sua energia e dedicação, por exemplo, para administrar uma página de um participante do BBB, possui curiosos efeitos restaurativos. Dar, doar, partilhar, solidarizar-se realmente têm caráter restaurativo e terapêutico. Só que na cultura fandom esse ato generoso pode facilmente se transformar em apossamento e investimento em um personagem que é uma extensão narcísica de nós mesmos (nesse caso, a doação não funciona mais).

A ideia não é de todo ruim se lembramos do clássico "Ensaio sobre a Dádiva", de Marcel Moss, no qual o sobrinho de Durkheim inaugura a tradição antropológica de pensar as culturas humanas como sistemas de troca simbólica. Isso levou, mais tarde, à ideia de que essas trocas seriam sempre mediadas por alguma estrutura de linguagem.

Dar, receber e retribuir seriam, assim, as três grandes leis gerais de nossas culturas. Remanescia, no entanto, certo enigma sobre o ato que inicia os processos de troca, que depois se tornarão trocas econômicas e, para alguns. trocas envolvendo sexualidade e parentesco: dar.

O engajamento gratuito, como trabalho oferecido ao fã, parece ser a matéria-prima dos fandoms e, indiretamente, o fator de decisão para esse BBB. Mas, como tudo no universo da avaliação, depois que percebemos como funciona a gramática de trocas, passamos a pensar e a agir de maneira reversa. Em outras palavras, primeiro entendemos como funciona o sistema de avaliação, o que é uma prova e quais são seus elementos decisivos para, então, passarmos a nos comportar estrategicamente para vencer o jogo.

Até aqui, o BBB é uma grande mímesis do nosso mundo no trabalho, na escola e na família porque consegue reunir três tarefas práticas: vencer os desafios mostrando habilidades especiais (como na escola), atravessar as duras exigências relacionais que fazem eclodir ódios, amores e intrigas (como no universo da família e do amor) e pensar estrategicamente na lógica de eliminação e sobrevivência, tecendo alianças que combinam as duas tarefas anteriores (como no mundo do trabalho).

É claro que, no trabalho, também temos que enfrentar desafios e ter uma boa "entrega". Porém, gradualmente, à medida que as pessoas crescem em suas carreiras e profissões, sua capacidade de fazer alianças políticas e de ser reconhecido, admirado e respeitado simbolicamente ganha em importância.

Nesse sentido, o potencialmente vitorioso Arthur mostrou-se extremamente hábil ao compor estratégias e se desviar dos problemas, construindo para si um lugar revestido de proteção e excepcionalidade simbólica: o de vítima. Talvez seja por isso que muitos fãs contumazes tenham abandonado esta edição, dizendo que ela só tem estratégia. Sim, falta amor e "treta". Sem isso, as provas se tornam exercícios mais ou menos monótonos, parecidos com o famoso seriado coreano, Round 6, já discutido por esta coluna.

Isso revela também algo sobre o momento da sociedade brasileira, em que sobreviver subjetivamente parece ter se tornado mais importante que amar ou destruir.

Vejamos um diálogo de Paulo André, que tenta confrontar Arthur:

"A não ser que você esteja armando um plano contra a gente mesmo. Imagina o Arthur amanhã no raio x: 'E aí, rapaziada, o jogo está afunilando. Vou contra os 'muleque', sempre joguei sozinho...'"

Arthur, cortando unhas, não esboça reação alguma. Mas as redes sociais responderam por ele:

"Não conhecia esse lado do PA, tô decepcionada de verdade, achei que o Arthur tivesse um amigo de verdade lá dentro."

Decepção, desonra e vergonha são os afetos punitivos desse novo tipo de "ação entre amigos" (para lembrar o filme de Beto Brandt) que caracteriza o pacto entre irmãos, também conhecido como brotheragem. Em outras palavras, a tendência masculina a reduzir o impacto das faltas dos amigo e intensificar os erros dos não-amigos, notadamente as mulheres. O interessante nesse caso, que de fato transpõe aspectos da vida real, é que Artur conseguiu empreitar a brotheragem de tal maneira que, enquanto outras vozes o defendem, ele pode permanecer interpassivamente vítima.

Interpassividade é um fenômeno descrito pelo filósofo esloveno Slavoj Zizek para descrever o transporte de reações emocionais e subjetivas para um terceiro. Por exemplo, aqueles risos artificiais ou palmas que vemos em programas de auditório e em comédias de baixa qualidade, que poupam seu trabalho de rir ou de aplaudir de tal maneira que seu gozo fica liberado inclusive desse esforço elaborativo. Ou as antigas carpideiras do interior do país que eram contratadas para chorar nos funerais e velórios.

A estratégia vencedora entre as diferentes formas de brotheragem parece ser a interpassividade: faça os outros fazerem por você. Incite os outros ao ódio, à decepção e ao ataque, enquanto você goza sozinho em seu próprio canto. Nesse sentido, quanto menos ação de fato, quanto menos risco, quanto menos implicação nas palavras e consequência nos gestos, maior a chance que você faça os outros fazerem o trabalho crítico por você. Isso cria um efeito de isenção e extrai esse elemento decisivo segundo a economia da dádiva: o ato de amor, pelo qual, gratuitamente, alguém apoia suas ideias. O fandom não é apenas um braço armado e robótico, ele entra com esse gesto tão precioso que é fazer algo por alguém, sem estar na fase simples das trocas simbólicas, que é receber e retribuir.

Nós nos ressentimos muito quando não encontramos espaços em nossa vida para dar. Sem isso, nossos gestos ficam desprovidos de sentido e nossa existência se esvazia. A entrada do amor como elemento gratuito no interior das frias lógicas de troca social se torna, assim, não só um elemento precioso a ser parasitado pelos estrategistas, mas também uma espécie de necessidade psicológica que nos recompensa pelo engajamento.

Por isso, quando queremos destruir essa lógica, partimos para a denúncia das más intenções e dos interesses escondidos. Por isso também "não decepcionar" se tornou mais importante do que "revelar intenções, razões ou motivos". Os primeiros são sempre mais ou menos falseáveis, os segundos nunca enganam. Vistos de perto, todos decepcionam, confirma o apaixonado.

Com isso, vemos que a lógica das provas, a criação de líderes e anjos, as votações e os paredões ficam frios e tolos. Todo o afeto foi incorporado ao próprio processo de engajamento instrumental, pelo qual fazer o seu candidato vencer torna-se uma prova de amor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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