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OPINIÃO

Como a tecnologia de fertilização afeta o seu desejo íntimo de ter filho

Nos consultórios é comum ouvir casais que enfrentam dilemas e decisões de ter filhos mediadas pela tecnologia da fertilidade Imagem: Andre Furtado/ Pexels
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Christian Dunker

01/04/2022 04h00

Com o adiamento da decisão de ter filhos, escutamos cada vez mais nos consultórios dilemas e decisões mediadas pela tecnologia da fertilidade.

Há imensos ganhos de saber e desdobramentos cada vez mais surpreendentes dos caminhos que nos levam a ter filhos. Mas, curiosamente, pouco se fala da correlação entre estes meios técnicos e como eles afetam os processos psíquicos do tornar-se mãe ou do torna-se pai.

Até bem pouco tempo atrás, falava-se em relógio biológico e temia-se a data dos 40 anos como uma espécie de decreto real de exclusão da maternidade.

Com a popularização relativa de técnicas como o congelamento de óvulos, em paralelo com os segundos, terceiros e quartos casamentos, com o aumento da "conectividade" entre casais e com as flutuações de gênero e orientação sexual, a alquimia da parentalidade tornou-se ainda mais complexa.

Por exemplo: um banco de esperma pode custar R$ 3 mil se for nacional, R$ 6 mil se norte-americano e até R$ 8 mil se você quiser um descendente genético dinamarquês. Uma óbvia ampliação de escolhas, que nunca tínhamos nos colocado de forma tão acessível.

Isso se poderia dizer também dos processos de ovodoação, implantação de embriões, barrigas de aluguel e adoção, em suas variantes, cobertas e descobertas pela lei.

Mães em produção independente, pais solo, homoparentalidades e demais arranjos orientados para a criação de filhos começam a ser sentidos na cultura.

Aqui, como em tudo o mais no que se refere à disseminação de novas tecnologias, não há nada a reprovar na ampliação de ofertas e na facilitação de meios.

Aqueles que acompanharam casais em busca de filhos enfrentando obstáculos de fertilidade sabem como o sofrimento é alto e imprevisto, suscitando decisões morais para as quais não havíamos nos preparado, por exemplo:

  • O que fazer com embriões não implantados?
  • A felicidade de outro casal ou uma consideração de aborto?
  • O que fazer com a detecção de variedades genéticas descobertas ainda durante o processo embrionário?

Nesta ampliação de ofertas, muitas vezes somos levados a um dilema ético relevante, ainda que genérico:

  • Até onde você quer saber?
  • Até onde você precisa saber?
  • E até onde você suporta saber?

A abertura de tais questões acaba acontecendo porque, para apoiar o processo que vai da extração (de óvulos ou espermatozoides) até a fecundação e o processo gestacional, são feitas perguntas que estavam todas embutidas uma dentro das outras no processo clássico.

Aliás, se olhado de perto, o processo clássico está cheio de artificialidades que nos esquecemos de considerar: usa pílula, suspende pílula, tira camisinha, coloca de novo, transa na data ou usa tabelinha, e assim por diante.

Isso porque o que é efetivamente construído ao longo do processo não é a decisão de compra, mas a criação de um desejo.

As decisões são muitas vezes pretextos para enunciação e descoberta e desenvolvimento deste desejo. Tenho para mim que esta é a razão pela qual muitos casais que iniciam processos de fertilização, bem-sucedidos ou não, acabam surpreendidos por uma gravidez "natural".

Outros tantos casais têm uma dificuldade em "gestar" o desejo de se tornar pai ou mãe a ponto de esquecer ou minimizar o papel da ordem "natural" das coisas. Por exemplo, aquele casal que está "tentando" há um ou dois anos e que, diante da pergunta mais óbvia (e geralmente não feita) "mas vocês transam?", respondem enfaticamente: "Sim, claro! Uma ou duas vezes por mês (quando ele não está muito cansado)."

Um filho começa a ser gestado toda vez que falamos dele; toda vez que especulamos sobre o assunto; toda vez que vamos àquele aniversário de criança, que vemos um carrinho de bebê, ou encontramos crianças nas festas de família.

Ou seja, a novidade e a tarefa impostas pelas novas tecnologias de fertilização é que elas precisam se entranhar com as nossas antigas narrativas de maternagem e paternidade, pois foi com elas que "aprendemos" simbolicamente como a parentalidade se transmite e se recria como um desejo.

Por isso, tornar-se pai ou tornar-se mãe é um "ajuste de conta" com a cadeia de pais e mães que nos antecedeu. Assim como reunir a narrativa reprodutiva com a narrativa sexual.

Aliás, muitos casais enfrentam uma dificuldade neste ponto. Depois de anos "evitando", não é fácil ir para a cama para "engravidar". É como se o tesão e este tipo de amor tivessem que existir "em separado" um do outro.

É aqui que podemos usar as tecnologias de fertilização para criar uma espécie de suporte real e de pretexto para manter, e às vezes aprofundar, essa separação.

Nos informamos sobre estatísticas e dados, preços e oportunidades, janelas de estimulação ovariana e processos endócrinos. Nada errado até aqui e é melhor que isso seja feito com calma, carinho e participação conjunta. Ainda que neste percurso, um queira mais do que o outro, ou um tenha mais medo do que o outro, a ponto de formarem pactos de implicação diferencial, o desejo não cabe no contrato jurídico ou no pacto de colaboração "part time".

Nesta matéria, a confusão e a mistura, a incerteza e a contingência, são bem-vindas, assim como todos os saberes disponíveis para a criação deste novo desejo e deste novo ser. A "pessoinha" por vir - este ponto de vista tantas vezes esquecido nos processos de decisão, escolha e aposta.

O que será que ela pensaria de tudo isso e qual história queremos que ela possa contar, depois, sobre si mesma, antes de ser si mesma?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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