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Blog do Dunker

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que esta peça no YouTube e Marília Mendonça têm em comum? Freud dá a dica

Cena da peça "Tectônicas" - Divulgação
Cena da peça "Tectônicas" Imagem: Divulgação
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

12/11/2021 04h00

Está em cartaz na reabertura do teatro Sesi da avenida Paulista, em São Paulo, a peça "Tectônicas" com texto de Samir Yazbek e direção de Marcelo Lazaratto. O espetáculo também está disponível por tempo determinado no canal do Sesi-SP no YouTube. A peça trata do processo histórico, familiar e econômico, de transmissão da violência no Brasil. E aqui temos um retrato de rara fineza descritiva e narrativa sobre o que Freud chamou de mal-estar e Lacan de Real.

Antes de tudo são processos apreensíveis no tempo, tanto na extensão maior das gerações, quanto nos efeitos que isso traz para a trajetória de vidas vividas em comum.

Trata-se de mostrar como aquilo que é esquecido pode ser esquecido de muitas maneiras diferentes e, portanto, pode voltar à lembrança tanto sob forma de memória quanto de atos repetitivos, desmemoriados de si mesmo. Essa é uma das propriedades que distinguem as diferentes incidências e metamorfoses do trauma.

O recurso mobilizado para isso é a colocação em cena de dois personagens "do futuro", que atuam como medidores da movimentação de placas tectônicas em cena paralela com o retorno da filha Fabíola, depois do mestrado em psicologia, para a casa do usineiro Jorge e sua esposa Marli.

Temos então este movimento típico que vai do privado ao público e do sintoma ao mal-estar:

(Marli) Você bebeu?

(Jorge) Você não tem nada com isso (silêncio) Vocês não sentiram nada de estranho na cidade hoje?

(Marli) Eu não senti nada de mais.

(Jorge) Você nunca presta atenção em nada.

(Fabíola) Eu não senti nada de estranho hoje, mãe.

(Jorge) Quando a justiça dos homens falha, a gente não sabe o que fazer.

(Marli) Mas do que você está falando?

(Jorge) Entregue aos corruptos, estupradores, aos assassinos, a gente precisa entender que ...

(Dolores para Alfredo) Esta situação é típica do acúmulo de tensões em função do movimento contínuo das placas tectônicas.

Perceba-se como ao ter apontado seu excesso particular (bebida), Jorge, o protótipo do patriarca violento, desloca o assunto para um mal-estar genérico e indeterminado, mas ainda assim localizado na cidade.

No gesto seguinte ele desmerece a esposa (que não sabe de nada) que é apoiada pela filha.

Trata-se de reconhecer o estranho, ou seja, aquilo que é familiar e conhecido, mas que de repente é percebido como estrangeiro e descontínuo em relação à nossa rede de expectativas cotidianas.

Ou seja, é próprio do poder que tudo "caminhe como antes" e que pequenas mudanças sejam feitas "para que tudo continue igual".

Esta moral do "trabalha que passa" é também a moral do esquecimento.

O trabalho de Yazbek e Lazaratto coloca-se em série com outras tantas produções —como "Bacurau" (1919), de Kleber Mendonça Filho, "Casa Submersa" (2020), de Kiko Marques. e "Cura" (2021), de Deborah Colker— e o sertanejo feminista de Marília Mendonça, que tematizam a violência e fragilidade, a resistência material dos corpos e as patologias da memória.

O Brasil está em primeiro lugar mundial em mortes violentas no campo, de assassinato de homossexuais e em terceiro em mortes no trânsito.

Contudo, tomar consciência de uma paisagem de violência pode não ser o melhor caminho para transformá-la. Mais do que isso, é decisivo como paisagem "de fundo" e cena no "palco" se relacionam.

Em chave temporal, como a história das violências, lembradas ou esquecidas, são reconhecidas, neste momento, quando reaparecem em presença. É a percepção da repetição que pode fazer diferença. Sem isso, ficamos prisioneiros no "manto de invisibilidade" da violência, que nos faz reconhecê-la "de longe" nos filmes, nas séries ou nos programas sensacionalistas.

O retorno da violência recalcada se dá de suas maneiras, politicamente opostas.

Na necropolítica, a violência que não foi simbolizada, volta no real em atos impulsivos, erráticos, incompreensíveis em sua intensidade ou contexto. No segundo caso, a violência se elabora como história compartilhada, como luto, ainda que negado ou suspenso, retorna na forma de sonhos, mas também no material da cultura e das artes, como oniropolítica.

A alegoria das placas tectônicas remete a pequenas movimentações ocorridas no mais profundo da terra que geram extensos e inesperados terremotos.

A ideia de que nossos monstros do passado, foram aprisionados no interior da terra é um tema recorrente na mitologia grega.

A Sphinx que foi vencida por Édipo veio do interior da terra, a Píton que prevê o futuro veio do interior da terra, Cronos e os Titãs dormem no fundo da terra, como qualquer um que tenha visitado a Islândia poderá ver com os próprios olhos.

Os seres ctônicos, são interpretações míticas da movimentação das placas tectônicas: vulcões, gêiseres, terremotos são suas manifestações geológicas.

Mas, como diria Adriana Varejão, citando National Kid, "cecalanto gera maremoto", ou seja, a detecção deste peixe pré-histórico (das espécies Latimeria chalumnae e Latimeria menadoensis, estimadas possuir 350 milhões de idade), na costa da África do Sul, em 1938 causou o sentimento de estranheza, como que a anunciar o "maremoto" da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Nos anos 1960 a frase reaparece nos muros cariocas, causando estranheza em pleno período militar.

"Vocês não sentiram nada de estranho na cidade hoje?"

A movimentação das placas tectônicas do passado tem um efeito bem específico na peça. Um mesmo gesto violento, dentro da família, é negado pela memória.

Lentamente vamos percebendo que todos os personagens sabem que ele aconteceu. Todos eles sabem, mas de diferentes maneiras e distintas perspectivas.

Mas o gesto que afeta o destino de cada um, criando cúmplices, vinganças, testemunhas e conivências, passa por uma deformação muito precisa. Ele volta como uma espécie de convicção delirante que é o outro.

Figura-se assim porque a violência, decorrente do excesso de concentração de poder no pai, inverte-se em violência suposta nas comunidades vulneráveis: gays perigosos porque trazem a pedofilia, negros temíveis porque serão violentos, mulheres desonestas que não conseguem controlar sua sexualidade. Em seu personagem de pai e usineiro tenta proteger a filha destes elementos perigosos.

Sua retorica é defensiva de ponta a ponta, ou seja, temos que fazer algo antes que eles ou elas nos prejudiquem. Jorge (André Garolli) precisa punir Marcelo (Sidney Santiago Kuanza), que teria agredido sua filha, Fabíola (Maria Laura Nogueira) porque afinal assim se fará justiça.

Negação e projeção funcionam juntos para produzir uma história invertida.

Primeiro negamos a violência que tantas vezes é o ingrediente oculto das histórias de riqueza no Brasil.

Segundo, depositamos nos outros aquilo que negamos em nós mesmos. Assim, "eles" se tornam perigosos, gananciosos, arrogantes e violentos como "nós" negamos ser.

Assim também sentimos que o "outro bate em nós", quando na verdade "nós estamos batendo no outro" sem perceber.

Contudo, negar para si mesmo, processos de longo prazo, inverter atividade e passividade (transitivismo) demanda alto custo psíquico.

O que cancelamos pela porta da frente, volta pela porta do subsolo. Aquilo que colocamos debaixo da terra, como nossos mortos, voltam como monstros irreconhecíveis envoltos por sinais "estranhos".

O que tememos sobre o futuro pode ser na verdade um passado inconcluso, um passado que não para de passar.

Como os pesadelos traumáticos, que repetem sem transformar uma violência inesperada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL