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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Onde está Meu Coração' vai além da crença de que drogas domesticam cérebro

Mariana Lima, Letícia Colin e Fábio Assunção em cena de "Onde Está Meu Coração" - Globo/ Fábio Rocha
Mariana Lima, Letícia Colin e Fábio Assunção em cena de "Onde Está Meu Coração" Imagem: Globo/ Fábio Rocha
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Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

02/07/2021 04h00

A minissérie "Onde está Meu Coração", de George Moura ("Linha de Passe", 2008) e Sergio Goldenberg ("Malhação"), disponível na Globoplay, é um drama sobre os efeitos da dependência química em uma médica e sua família.

Apesar das cenas em hospital onde Amanda (Letícia Colin) trabalha e do retrato da clínica psiquiátrica onde ela é internada, a alta densidade e a verdadeira vertigem da série é o fechamento em um circuito fechado composto pelos pais Davi e Sofia (Fábio Assunção e Mariana Lima), pelo marido Miguel (Daniel de Oliveira) e por Júlia (Manu Morelli), irmã de Amanda.

Tradicionalmente filmes sobre consumo de drogas abordam situações de isolamento, pobreza ou decadência como "Eu, Christiane F, - 13 Anos, Drogada e Prostituída" (Ulrich Eder, 1981) ou "Trainspotting" (Danny Boyle, 1996). Mas em vez de cenários marcados pela escuridão, "Onde Está Meu Coração" é desagradavelmente solar, como as telas de Edward Hopper (1882-1967) e "O Iluminado" (1980), de Stanley Kubrick.

Isso combina com o próprio tema da drogadição, presente por toda parte, mas por outro lado invisível.

Daí a escolha acertada ao mostrar que a dependência química não está apenas na pobreza, nas comunidades afaveladas ou esquecidas pelo Estado.

Na minissérie, a família de classe alta, com todos os recursos disponíveis, tem que passar pelos mesmos pontos de culpa, negação e vergonha de qualquer outra família infeliz. Ou seja, em todos os casos é preciso deslocar o afeto punitivo da culpa para a formação de uma cultura da responsabilidade.

A agonia do espectador se reúne com o olhar da família ao perceber que Amanda se acredita "no controle" da situação. Sua impercepção dos prejuízos, dos efeitos sobre si e sobre os outros é compensada por uma espécie de capa funcional, que assola tantas outras profissões de alto risco para consumo compensatório de medicamentos ou substâncias psicotrópicas, como é o caso de aeronautas, caminhoneiros e publicitários.

Contrariando a maior parte dos filmes do gênero, que foca ou o processo pelo qual alguém "cai nas drogas" ou a forma como se "supera o problema", a série começa com a situação de dependência dada. Isso contorna a mais comum das falsas questões que cercam o assunto, ou seja, a causa.

Muitos buscam causas apenas para saciar seu medo, ou confirmar preconceitos, não para realmente entender o processo. Saber se uma educação mais liberal ou mais conservadora "protege" das drogas, se o engajamento na religião ou a disciplina nos afasta do mal, são questões ruins, derivada de nossa demonização do objeto, própria da era da guerra às drogas, que devemos superar, como mentalidade e como política.

Apesar disso, "Onde Está Meu Coração" retrata muito bem as reações mais ou menos regulares no enfrentamento da situação. A começar pela culpa que atua de forma desresponsabilizante, reacendendo pontos vulneráveis da história da família e que são retroagidos como determinantes.

Se a obsessão em saber o porquê é o primeiro erro, o segundo é inverter o controle perdido em uma potência reformista, representada aqui pela internação compulsória puxada pelo pai, igualmente médico, mas cardiologista.

O discurso higiênico, asséptico e científico obviamente culmina na recaída imediata após sua libertação. Aqui a crítica aparece na frase fundamental de "Into my Arms", de Nick Cave, uma das excepcionais músicas temas: "Eu não acredito em um Deus intervencionista"

Em seguida vem a fase das demissões, do cansaço e da raiva que leva muitas famílias à dissolução fractal dos laços.

Por exemplo, a filha mais nova sente-se abandonada, em função disso replica e tenta mimetizar a "filha problema" que capta para si todas as atenções. As traições e deslealdades dos pais e do marido são ativadas como uma espécie de colapso gradual das formas de amar. Como se cada um, diante da impotência da situação primeiro intensificasse a oferta de amor, para depois desistir dizendo-se "fiz tudo o que podia".

Mas em Sofia, a mãe, e nos outros de forma menos clara, vai emergindo uma outra resposta que consiste em abandonar uma forma de amar e criar outra.

É por isso que muitas famílias falam em uma grande transformação, que atravessa a todos e acompanha o processo de recuperação individual. Em todos os casos temos ao final uma narrativa de transformação, e quase sempre um herói que não desiste, neste caso a mãe.

Neste processo supera-se não apenas as "drogas", mas a narrativa da demonização do objeto, segundo a qual, o crack ou a cocaína possuem poderes metafísicos capazes de dominar e domesticar nosso cérebro, a ponto de que contra todo nosso desejo e vontade nos tornamos escravos.

Voltamos assim ao problema da liberdade. Neste sentido, Amanda vive uma vida de fuga do desprazer, com um trabalho pesado, mas com muito pouco lugar para a busca de prazer.

Seu uso não é recreativo porque ela consome para aliviar-se, para dar-se um tempo no desprazer, para suportar o cotidiano de dor. Mas ao final ela se torna uma médica melhor ainda que com o mesmo nível de eficiência, mas com outro engajamento ético.

Nisso, cada personagem se vê convocado para dar uma resposta nova, oferecer outra nova forma de responsabilidade, fruto do retorno do recalcado. Por isso a série exige do espectador alta tolerância a angústia.

A dependência de Amanda remete à dependência superada pelo pai em relação ao álcool (que remete à própria experiência de Fábio Assunção com sua internação pessoal).

O pai, a mãe e o próprio marido descobrem novas formas de amar, em vez de redobrar a gramática básica, na qual se formou aquela família, com seus fracassos. Até mesmo Júlia, a filha mais nova que se consagra a virgindade como maneira de consertar a família se transforma ao final.

Ponto formal marcante deste processo é uso parcimonioso —ou diria quase lacaniano— do flashback, ou seja, não são longos blocos de esclarecimento sobre significações traumáticas esquecidas, mas instantes fundamentais, momentos mutativos, nos quais uma foto ou fotograma faz lembrar intensa e condensadamente o modo como um pai brincava com a filha.

"Onde está Meu Coração" não é uma pergunta, mas uma declaração. Uma espécie de legenda flutuante ao longo da minissérie e que ganha novas leituras a cada episódio: no trabalho, no sexo, na droga, na missão de salvar o outro, até que ele pode voltar ao seu lugar, dentro de si.

Todos os méritos para uma narrativa que não é trivial e arrisca muito na vertigem em temos nos quais as produções correntes querem marcar pontos fazendo o já esperado.

Mérito ainda maior ao declarar a importância da descriminalização do uso de drogas como ponto de partida para substituir uma cultura da culpa por uma cultura da responsabilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL