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Blog do Dunker

Nossa relação de negação com a Cracolândia aparece até no Google Maps

Morador de rua na região da Cracolândia durante operação do Estado e Prefeitura de São Paulo, em 11 de junho de 2017 - Governo do Estado de SP - 11.jun.2017/ Flickr
Morador de rua na região da Cracolândia durante operação do Estado e Prefeitura de São Paulo, em 11 de junho de 2017 Imagem: Governo do Estado de SP - 11.jun.2017/ Flickr
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

20/11/2020 04h00

Descendo na estação Luz do metrô, atravesse a ponte rumo à estação Júlio Prestes e a proximidade da rua Helvétia. Pise com cuidado porque você está atravessando parte dos sonhos paulistanos mais longínquos.

Poucos lembrarão que desde os anos 1920 a região concentrava a nascente indústria cinematográfica, com a presença da Fox, Paramount e Metro. Esse foi o embrião do Cinema Marginal brasileiro, onde se formaram Zé do Caixão e Carlos Reichenbach.

Já nos anos 1960 o cinema da Boca do Lixo, com suas invenções e imitações criativas, foi sendo recusado pela população, o que acabou transformando os antigos cinemas em casas de encontro e pornografia. Quase ninguém terá em mente que nos anos 1950 um "acordo de cavalheiros" decidiu concentrar ali a região do meretrício, estabilizando assim o conflito entre o abolicionismo inglês e o regulamentarismo de linhagem francesa. Na expressão da historiadora Margareth Rago:

"São duas políticas muito contraditórias, porque o regulamentarismo supunha que o Estado deveria interferir, definindo locais específicos, horário de funcionamento das casas, circulação das mulheres. Enquanto o abolicionismo pautava-se na ideia de que o Estado não podia interferir, porque estaria agindo como cafetão".

Ou seja, ande com cuidado porque você está pisando no imaginário histórico e no ponto de convergência de contradições que nos formaram.

Em síntese: em torno de museus como Pinacoteca, Arte Sacra e Língua Portuguesa e de locais de audição musical como a Sala São Paulo (Osesp), encontra-se aquilo que a nossa cultura repudia, execra e quer eliminar.

Muito deste processo pode evocar a conhecida hipótese psicanalítica que as raízes da história que nos formou frequentemente precisam ser negadas, para que não nos lembremos das contradições das quais somos feitos. Isso ajuda a entender porque a mais alta cultura convive como a imagem do "pior" que nossa civilização foi capaz de produzir. Isso ajuda a entender também porque uma coisa não se comunica com a outra e porque ambas não se reconhecem como partícipes do mesmo processo mesmo habitando espaços tão próximos.

Um exemplo de como negação e dualismo encontram-se atuantes em versão digital pode ser experimentado pelo leitor.

Digite: "como chegar à cracolândia?" no Google. Agora clique em "maps" e você será levado automaticamente para "Cristolândia".

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Imagem: Reprodução/ Google Maps

Como se o algoritmo interpretasse que quem faz uma pergunta tão suspeita como esta deve ser enviado para Jesus. Boas intenções à parte, não é negando a existência de um território que ele será revitalizado.

A Cracolândia é uma espécie de síntese e condensado dos conflitos históricos que atravessam a cidade. Ela está lá a nos lembrar da circulação de pessoas, neste monumento ferroviário silencioso que é a estação Júlio Prestes. Ela nos lembra da migração mal acolhida, da pobreza invisível, dos ex-presidiários que sujeito a multas absurdas quando saem da cadeia não têm onde se empregar, nem como ser recebidos por suas famílias.

Ela nos lembra de como tratamos a população transexual, que privada de emprego e condições de reconhecimento social recorre a este espaço de "no man's land".

Se você nunca foi à Cracolândia, faça uma visita guiada. Isso pode reduzir muito dos preconceitos e projeções sobre o que existe atrás dos muros, inclusive muros culturais que construímos para nos proteger.

Foi isso que fiz com meus alunos no contexto do convênio que assinamos com a Defensoria Pública para escutar o sofrimento dos policiais da Guarda Civil Municipal. Isso mesmo. Se queremos reduzir a violência é preciso cuidar de nossa polícia. Modificar a maneira como são formados nas academias, participá-los e incluí-los nas transformações como atores da cidade que queremos.

Uma das versões narrativas mais hostis e equivocadas desta contradição entre o alto e o baixo na Cracolândia é aquela que se recusa a ver que o sofrimento alinha todos que dele se aproximam: médicos, policiais, usuários, traficantes, famílias, religiosos e comerciantes. Faz parte desta impotência estrutural para "resolver o problema" as reações de violência, moralização e invisibilidade.

Em nossa expedição pudemos ver que a Cracolândia é muito mais e muito menos do que o mito político formado em torno dela.

Logo na entrada vemos as barracas que vendem crack, e que são pacientemente desmontadas e remontadas a cada verificação de limpeza. Se viramos à direita encontramos os sobreviventes do antigo projeto "Braços Abertos", inspirado no programa clínico de redução de danos, que reconhece, acolhe e acompanha o processo da dependência cruzando-o com as outras determinantes da cracolândia: pobreza, desterritorialização, desemprego e transtornos mentais. Apresentei os princípios científicos nos quais se baseia a redução de danos em coluna anterior, ressaltando como as condições de recuperação e proteção são mais favoráveis quando o ambiente é interessante e vinculativo.

A carência de recursos humanos e materiais é óbvia. São voluntários dedicados, em convivência diária e noturna com usuários. Os portões estão abertos, as pessoas entram e saem, recebem alimentação. Os laços de cuidado e atenção se mantêm, apesar das centenas de pessoas deitadas em torno de uma única televisão. A disputa por um lugar para dormir gera tensão, mas não deixa de ser o último refúgio para quem perdeu tudo.

O contraste é brutal com o edifício que fica em frente, onde funciona a operação "Redenção". Tudo limpo, branco e asséptico. Ali você entra desde que declare o desejo de interromper o consumo de drogas. Tentamos falar com os responsáveis clínicos, o que só é possível mediante contato e agendamento prévio. Mas é possível ver que os pacientes são bem tratados, ainda que enviados para abrigos depois do período inicial de luta contra os efeitos da abstinência.

Muro na região da Cracolândia, no centro de São Paulo - Marcos Gomes - 12.jun.2009/ Flickr - Marcos Gomes - 12.jun.2009/ Flickr
Muro na região da Cracolândia, no centro de São Paulo
Imagem: Marcos Gomes - 12.jun.2009/ Flickr

A inadmissível descontinuidade entre os "Braços Abertos", de Fernando Haddad (prefeito de SP de 2013 a 2016), e o "Redenção", de João Doria (prefeito de SP de 2017 a 2018), um de cada lado da rua, com a miséria no meio, é a metáfora persistente de como é possível usar as melhores tecnologias disponíveis para o prejuízo de todos.

Recusar-se a reconhecer a realidade mais extensa do consumo de drogas repete os abolicionistas ingleses, que se negavam a admitir o reconhecimento, pelo Estado, dos trabalhadores sexuais. Lembremos que os mesmos ingleses defendiam nominalmente a abolição da escravidão ao mesmo tempo que se beneficiavam, com o comércio cruzado que ela requeria.

Hoje o fracasso mundial da guerra às drogas alimenta a indústria militar da coerção e o novo negócio religioso das reabilitações morais. Contra eles os regulamentaristas franceses pretendiam reconhecer o lado obscuro da civilização, eventualmente para administrá-lo, talvez em benefícios de todos.

No fundo, a política que temos com relação ao que excluímos, seja historicamente seja individualmente, reflete a maneira como entendemos a sociedade: como um conjunto de monumentos e realizações luminosas, ou como uma mistura de altos e baixos. O mais elevado patrimônio cultural ao lado do mais relegado elemento humano. Uns querem polir e limpar, outros querem organizar e civilizar.

A Cracolândia não é só um assunto de saúde pública. Ela representa a encruzilhada de problemas e de diálogos que o Brasil precisa enfrentar para sair da monomania na qual se colocou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.