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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Escritores brasileiros captaram a relação íntima entre tecnologia e loucura

José Agrippino de Paula, autor do "PanAmérica" - Domínio público/ Arquivo Nacional
José Agrippino de Paula, autor do "PanAmérica" Imagem: Domínio público/ Arquivo Nacional
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

25/06/2021 04h00

Desde a antiguidade acredita-se que a loucura pode ser uma experiência visionária, uma concessão feita pela intuição divina que introduz o sujeito em outros mundos, outras línguas, outros seres. As vozes, os pensamentos intrusivos, o sentimento de que existe Outro falando em nós, nos comandando e revelando sentidos ocultos. Por isso, a loucura manteria uma comunicação secreta com a arte.

Menos abordada é a relação da loucura com a ciência e a tecnologia. Neste caso a partilha costuma ser desigual: gênios da matemática como Gödel e Cantor, parecem ter misturado suas investigações sobre a completude e o infinito com experiências pessoais reveladoras.

No entanto, quando se trata de incorporação de tecnologias a função é inversa, parece haver uma sensibilidade da loucura para captar novas tecnologias como forma de nomear seus estados informulados do espírito: ter o coração substituído por um relógio, sentir o corpo transforma-se em vidro, assim como um implante de rádio pode justificar vozes alucinatórias.

Vários sintomas psiquiátricos foram propostos tendo em vista aspectos da tecnologia: automatismo mental (ecos de pensamento, imagens impostas), máquina de influência (delírio de que uma máquina controla o pensamento), síndrome de Capgras (convicção delirante de substituição de uma pessoa querida por um sósia, replicante ou robô).

Muitos autistas manifestam apego a certos objetos como circuitos elétricos, efeitos eletrônicos ou instrumentos mecânicos: ligar e desligar a luz, repetir sons maquínicos, montar e desmontar um objeto.

Temple Grandin, cuja biografia foi retratada em filme homônimo [1], ficou conhecida pelo desenvolvimento de uma máquina de abraçar animais, especialmente equinos, para reduzir aflição e diminuir sofrimento, baseado na sua própria dificuldade autística de interpretar emoções e sentimentos.

É possível que a loucura encontre nas tecnologias emergentes elementos para uma espécie de renovação da linguagem.

A introdução de um novo objeto no mundo cria uma demanda imediata de metaforização, de modo a integrar o inédito ao já conhecido. Por exemplo, quando os computadores se tornaram populares, na década de 1980, imediatamente surgiu um conjunto de autores na filosofia da mente e na psicologia cognitiva afirmando que o clássico e aparentemente insolúvel problema mente-corpo haveria de ser resolvido porque afinal tornava-se evidente que o hardware está para o cérebro, assim como o software está para a mente.

A dissertação de mestrado de Ronaldo Bressane "Maura, Agrippino, Rodrigo: visões da loucura na literatura", recentemente apresentada, faz um estudo comparativo sobre a loucura na literatura brasileira contemporânea, mostrando como transformações nos modos de enlouquecer se articulam com novas técnicas de tratamento, novos diagnósticos, com recursos expressivos que a tecnologia sempre carrega consigo.

Isso permitiria condensar vários traços regulares da loucura, a saber: vivida como uma experiência sem precedentes, que remete a uma espécie de não-lugar, separado ou sagrado, em contraste com a vida ordinária e comum, também chamada de normal.

Maura Lopes Cançado (1929-1993) casou-se aos 15 anos, depois de ser abusada várias vezes na puberdade. Um ano depois tornou-se mãe. De família mineira abastada, antes dos 18 anos ganha um avião e tira seu brevê de pilotagem. Em 1965 publica "Hospício é Deus" uma espécie de autoficção na qual narra suas mais de dezenove internações psiquiátricas, a maior parte a pedido dela mesma, seis delas no Engenho de Dentro, onde trabalhava Nise da Silveira (mas com quem ela não teve contato).

Sua vida foi marcada por uma espécie de flutuação da consciência entre o mundo e o palco, entre sua personagem social "para os outros" e sua precária existência "para si" [2]. Sua saga em busca de um lugar dentro do sistema psiquiátrico que termina tragicamente na pobreza, cegueira e abandono nas ruas de São Paulo.

Quando confrontada com a pergunta "por que quer ser internada?", as respostas são erráticas: falta de condições financeiras, fuga para algum lugar fora do mundo, medo de ser enterrada vida, ou pelo simples fato de que "cada página de meu diário diz que eu sou uma psicopata", tudo isso em acordo com seu próprio princípio de que "só sou autêntica quando escrevo, o resto do tempo passo mentindo".

Lembremos que estamos no Brasil dos anos 1970 com o boom de procura pela psicanálise, pelas psicoterapias e pela disseminação das clínicas particulares para internação e repouso.

Maura sobe nos muros e dança para os médicos, como antes subira na mesa da redação do jornal, sem calcinha, diante do atônito Carlos Heitor Cony. A família e a rua, o público e o privado, o muro e a exibição eram questão para o Brasil que criava sua cultura de condomínios [3].

Seu próprio autodiagnóstico, além da psicopatia, é que ela sofre de olhar. Tal qual Santa Ágata, ela parece condenada a tentar separar-se do próprio olhar, ou como dizia Eça de Queiroz, para Maura: "o manto diáfono da fantasia cobria a nudez cruel da realidade" [4].

Se o complexo de olhar é congruente com a tecnologia dos hospícios, em "PanAmérica", de José Agrippino de Paula (1937-2007), o mundo da técnica aparece tanto nos seus ensaios cinematográficos, feitos em Benin e Mali, com uma câmera Super-8, quanto nos exageros da narrativa e na maneira mecânico-concreta-repetitiva da exposição. Exemplo: um enorme negro com seu lança-chamas gigante, 500 helicópteros, mares de gelatina verde, a paródia de Cecil B. DeMille com 900 mil figurantes, cinquenta mil carros no estacionamento.

O texto que deu origem ao movimento da Tropicália, "a Ilíada na voz de Max Cavalera [5]" como a ele se referiu Caetano Veloso, capta a repetitividade e a coisificação de uma cultura cada vez mais esquizoide e fragmentada.

Neste livro sem natureza, feito apenas de cenários, onde tudo parece falso, menos os exageros, os acontecimentos cruzam o "eu" do protagonista com heróis da cultura americana como Marilyn Monroe e Joe DiMaggio, mas com baixíssimos teores psicológicos. Nada de interioridade ou intimismo, tudo está posto e exposto, até mesmo os meandros de um encontro sexual regados a litros de esperma.

Estamos aqui em uma segunda versão da técnica pós-moderna, agora feita de desencantamento, perda da experiência e explosão da distância que regula as fronteiras entre sonho e realidade, entre loucura e normalidade.

Finalmente, em Rodrigo de Souza Leão (1965-2009) trata-se da máquina de selfies.

Na peça "Todos os Cachorros são Azuis", trata-se de um relato ambíguo, pessoal, autoficcional, no qual não sabemos quais vozes estão falando quando e onde. Sabe-se apenas que o autor-protagonista engoliu um grilo quando tinha quinze anos de idade ou havia sido atingido por um dardo disparado por um japonês que introduziu um chip em seu cérebro. Ou seja, o inseto real chamado "grilo" e a metáfora "estou com um grilo na cabeça" entram em série imaginária com a ideia tecnológica de chip ou CPU de computador.

Em "Me Roubarm uns Dias Contados", outro protagonista, Weimer, passa os dias trancado em seu apartamento no Leblon, ao lado de seus dez telefones, ou melhor, gozofones, através dos quais pratica incessante e exaustivo telessexo (uma novidade nos anos 1980).

Contemporâneo da cultura dos blogs, mas morto antes da emergência das redes sociais, Rodrigo cria uma linguagem que captura os traços vindouros da digitalidade: verbalização imediata, tempo repetitivo e não linear-cronológico.

Há alterações radicais da função do narrador, intermitente, sobreposto ao autor, cuja voz emerge de uma parte do corpo ou fora do corpo, não da consciência. Voz que pode ser sampleada ou emergir de um lugar paradoxal, como em "Caixa de Fósforos":

Eu não saio para ver a vida
Eu vivo ávido de vida
A vida está aqui dentro
Tão dentro que estou morto
Pronto para pegar fogo.

A concretude da metáfora pela qual o grilo é engolido ou inoculado por uma zarabatana, tornando-se o chip que controla seus pensamentos, é ainda corrente nos temores contemporâneos com a vacinação.

Assim como nossa tendência a refugiarmo-nos da loucura entre quatro paredes, ou dentro de uma caixa de fósforos como Rodrigo, nos asilos psiquiátricos como Maura, andando pelo mundo errante antes de se confinar a pequena casa no Embu, onde teria escrito milhares de páginas em mais de duzentos cadernos, como Agrippino.

O que caracteriza estas três obras, tão intimamente ligadas ao universo da tecnologia, é que elas se esgotam, não no sentido de que seus autores param de escrever, mas ao que tudo indica com a interrupção do sistema de circulação pública das suas obras, com a evidente impacto sobre a seus funcionamentos psíquicos e sociais.

É o caso de Maura que para de escrever depois de assassinar, sem a menor clareza sobre os motivos, uma interna da clínica Eiras (conhecida como local de tortura política).

Agrippino deixa de publicar depois de ser preso pela polícia durante os anos da ditadura.

Rodrigo encerra sua carreira por meio de uma carta de suicídio em meio a perseguição.

Assim como há algo de profundamente organizador na parasitagem da tecnologia pela loucura, parece haver algo de profundamente sensível na loucura em sua relação com o trauma político.

REFERÊNCIAS

[1] "Temple Grandin" (2010), direção Mick Jackson, disponível na HBO.

[2] Bressane, R. (2021) Maura, Agrippino, Rodrigo: visões da loucura na literatura. Dissertação de Mestrado. Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (Letras) UNIFESP.

[3] Idem: 30.

[4] Diáfono quer dizer a aparência que atravessa, ou seja, o "manto diáfono" é um manto que mostra em vez de velar, um manto que revela a crueldade da realidade nua que pretendia encobrir.

[5] Ex-vocalista da banda Sepultura caracterizada pela "voz que se dissipa na paisagem", como em Agrippino.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL