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Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Suposta erotização de Anne Frank mostra limites da nossa educação sexual

Anne Frank em 1940, em Amsterdã, Holanda, em imagem de autoria desconhecida - Collectie Anne Frank Stichting Amsterdam
Anne Frank em 1940, em Amsterdã, Holanda, em imagem de autoria desconhecida Imagem: Collectie Anne Frank Stichting Amsterdam
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

11/06/2021 04h00

Recentemente uma escola de classe alta em São Paulo foi agitada por um movimento dos pais que repudiavam o uso do material gráfico, usado para adaptar a história de Anne Frank, à linguagem dos quadrinhos no contexto do estudo da língua inglesa.

Assim como na versão escrita do famoso diário da menina, que passa parte da guerra escondida no sótão de uma cidade na Holanda, há passagens nas quais, no interior de seus devaneios sobre o corpo próprio e da descoberta da sexualidade ela afirma sentir um "êxtase quando vê a imagem de uma mulher nua" ou então que se pergunta como um homem poderá entrar dentro de sua vagina, que lhe parece tão pequena que mal acomoda seu próprio dedo.

É intrigante como material em forma de livro, usado há anos, jamais tenha despertado indignação organizada dos pais, ao passo que a exposição visual, tenha elevado o tom da reação. Por outro lado, poderíamos nos perguntar se não há uma regressão na abordagem da sexualidade, em termos de moralismo ascendente e propriedade familiar.

Há duas ou três décadas, depois de muita discussão, implantaram-se nas escolas aulas de educação sexual. Três contextos convergiram fortemente para isso:

  • O fim da ditadura militar, que adiou a penetração das ideias e práticas de liberdade, referidas a maio de 1968 na Europa, ou aos movimentos americanos libertários da década de 1970, para o Brasil pós 1984.
  • O surgimento da epidemia de HIV-Aids, que requeria uma população informada sobre práticas de proteção contra doenças sexualmente transmissíveis, uso de preservativos e instrução mínima sobre o funcionamento do desejo sexual.
  • Em terceiro lugar havia o movimento de recomposição curricular e de revisão dos projetos político pedagógicos das escolas.

Para quem estranhou o termo é preciso reafirmar: toda escola é obrigada por lei a ter um projeto político-pedagógico.

Quantos o leem e quando se o discute antes de colocar um filho na escola?

Hoje, os programas de educação sexual se dissolveram nos currículos escolares, oscilando geralmente entre conteúdos sobre a função reprodutiva, os cuidados com doenças e as chamadas habilidades sócio-emocionais, por vezes distribuídas ao longo de várias disciplinas.

Os pais também se tornaram agentes mais ativos nas comunidades escolares, participando, às vezes com voz e voto, em inúmeras decisões pedagógicas e opinando cada vez mais sobre conteúdos e fazeres, antes prerrogativas dos professores.

Mas espanta ver como a pergunta feita por Sérgio Buarque de Holanda, cuja formulação eu adapto aqui, a partir de "Raízes do Brasil", continua atual:

Entregarão as famílias brasileiras a educação e suas crianças ao Estado, ou, ao contrário, tentarão elas mesmas se apossar mais uma vez do espaço e do interesse público, fazendo das escolas uma extensão de seus interesses particulares?"

No centro desta pergunta estão os dois pontos: insiste a questão de saber se devo ou se posso tratar meu filho como minha propriedade e extensão, a ponto de, por exemplo, educá-lo sobre minha própria agenda pessoal ou se devo, enquanto pai, também me submeter ao fato de que a escola é um espaço público?

Por exemplo, eu posso decidir privar meu filho do contato com as mais avançadas tecnologias de ensino, escolhendo uma escola mais naturalista ou mais conservadora, no entanto, terei o direito de opinar sobre conteúdos escolares?

Minha reposta é sim.

O direito e o dever de fazê-lo, pois a escola enquanto espaço público não quer dizer que nossos filhos deixam de pertencer a família e passam a ser propriedade da escola, mas que neste assunto vigora o que Kant, num texto clássico chamado "O Que é o Esclarecimento?" chamou de "uso livre da razão em estado de maioridade".

Em outras palavras, isso significa que em nenhum caso se aceitará o argumento particular de gosto ou predileção, de opinião positiva ou negativa do consumidor ou da família, para formar a lei geral ou a máxima de nossa ação.

No debate que se seguiu várias questões foram mobilizadas, ressalte-se uma carta de esclarecimento da diretora, a ponderação oscilante dos pais, inclusive com a atitude tolerante da escola de facultar que futuros alunos de sétima série possam escolher se querem o material em forma gráfica ou de livro.

Aqui passou ao largo a discussão sobre a educação para a imagem e o preconceito de que palavras são menos ofensivas e perigosas do que imagens.

Se queremos reverter o atual nível de analfabetismo digital precisamos empregar mais linguagens híbridas (imagem, palavra, som, movimento) na educação, isso passa por valorizar, por exemplo o formato em HQ (história em quadrinhos).

Ou seja, a revolta contra o conteúdo deixa de lado o aspecto decisivo, quando se trata de sexualidade, da forma, do enquadre e da mediação.

É estranho que em quase todas as áreas de transmissão de tecnologia estejamos dispostos a escutar os especialistas, mas quando se trata de sexualidade todo mundo acha que já entende o bastante.

O saber doméstico, para uso pessoal torna-se fonte e origem de toda autoridade na matéria. E assim se escuta que pais e mães têm medo de que certos "conteúdos" criem mal-estar, quando não "traumatizem" seus filhos".

Ora, não lhes ocorrem que a atitude de medo de alvoroço e crítica temática possa ser extremamente prejudicial, deixando a marca de que falar sobre isso passa por acusar, denunciar e agir movido pelo medo?

Não lhes ocorre que quando silenciamos variações de emprego e apresentação da cultura isso reduz a graça de saber?

Serão os mesmos que depois reclamarão que os filhos só ficam no celular?

Não é óbvio considerar que as frases de Anne Frank serão lidas "com mediação", ou seja, com auxílio especializado para interpretar, ler e elaborar coletiva, pública e transparente o texto? (Ou você não leu o projeto político-pedagógico da escola e agora está se achando traído?)

Não fica ainda suficientemente claro, 150 anos depois de Freud, que a moral sexual civilizada não pode advir somente da família e que devemos acolher as perguntas e descobertas da criança em seu próprio tempo, para que afinal elas encontrem uma expressão mais prazerosa, e por que não dizer, livre da sexualidade?

De repente estabelecemos uma regra tácita, para qualquer discussão, de que os incômodos funcionam com direito de veto. Se algo causa gatilho, fere valores ou contraria modos preferenciais de expressão, isso automaticamente adquire "valor de argumento e veto". Aquilo que deveria ser o começo da conversa, o ponto em que uma voz se apresenta à comunidade com suas razões e motivos e deve ser acolhida, torna-se o acontecimento em si.

Isso levanta consideração sobre os ganhos de imagens e reconhecimento daquele que denuncia sem se implicar ou reconhecer-se no seguimento do debate que causou. Ou seja, comunidade de debate, atravessada por institucionalidades, voltada para educação, deve pensar o debate como extensão e não como pirotecnia.

No espírito do iluminismo, que afinal é aquele que promete e garante a todos a inclusão no debate público, as mesmas razões que movem a crítica devem se dobrar aos argumentos de uma razão mais inclusiva, mais pública e mais universal, neste caso fortemente representada por um texto e uma experiência reconhecida como paradigmática para todos nós.

Como se vê a tecnologia nunca é a tecnologia ela mesma e só ela boiando no espaço neutro. A mudança da forma texto para a forma HQ, a introdução da imagem é capaz de ser percebida como ofensiva justamente porque o olhar que a captura e enquadra a retira do contexto, e no limite do debate público da cultura.

Captando apenas uma imagem focal, sem contexto, repudia a imagem que resume tudo, exatamente como o olhar pornográfico que se quer criticar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL