PUBLICIDADE
Topo

Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Internautas amam série ou filme sobre psicanálise, mas o que tem de real?

Selton Mello interpreta Caio Barone em "Sessão de Terapia" - Helena Barreto
Selton Mello interpreta Caio Barone em "Sessão de Terapia" Imagem: Helena Barreto
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

18/06/2021 04h00

O interesse recente por questões em torno da saúde mental e da psicoterapia em geral se fez acompanhar por formas inovadoras de enfrentar um antigo problema: como transmitir o funcionamento dos atendimentos para as pessoas que jamais fizeram algum tipo de tratamento pela palavra. Poucos sabem que este problema é quase tão antigo quanto a própria psicanálise.

Na década de 1920 o diretor austríaco Georg Wilhelm Pabst procurou Freud para que este supervisionasse um roteiro que tratasse das neuroses. Freud indica Hans Sachs, um discípulo muito próximo, que trabalhava em Berlim e o resultado é o longa metragem "Segredos de uma Alma" (Pabst, 1926).

Apesar do bom retrato das obsessões, com cenas agudas sobre os pensamentos intrusivos, que impeliam o protagonista a ter pensamentos de morte e violência com quem ele efetivamente amava, as fantasias e sonhos aparecem um tanto deslocadas e as intervenções do psicanalista parecem pedagógicas demais, como que a explicar a psicanálise para leigos, sem reproduzir exatamente como as coisas acontecem na cena real do tratamento.

Uma solução mediana foi encontrada por Alfred Hitchcock em "Quando Fala o Coração" ("Spellbound", 1945), com Gregory Peck e Ingrid Bergman, baseada na recorrência a sonhos e situações de hipnose.

Mas as deformações oníricas criadas por Salvador Dali são relativamente incomuns na clínica cotidiana, exceção feita aos sonhos registrados nos primeiros tempos da pandemia. Ou seja, o recurso ao exagero e à simplificação, do trauma e de suas conexões com experiências infantis e sexuais, acabam fazendo que ganhemos em cognição o que perdemos em realismo, tornado a coisa toda um tanto inverossímil.

A solução encontrada por Sartre mostrou-se também pouco factível, ou seja, a pedido de John Houston ele escreveu um roteiro de mais de mil páginas sobre a vida e a obra de Freud. "Freud, Além da Alma" ("Freud", 1945), até hoje usado em cursos de Psicologia, combina pacientes e funde histórias tentando uma apreensão de conjunto, mas que ao final fala mais das ideias e descobertas do que mostra como a coisa acontece.

"A Outra" ("Another Woman", 1988), de Woody Allen, permite entender melhor o problema técnico envolvido na filmagem e processos terapêuticos: o lugar onde colocar a câmera. Neste filme, Gena Rowlands (a inesquecível musa de John Cassavetes, outro mestre dos interiores psicológicos) escuta as sessões de psicanálise que lhe chegam pelo buraco comum da chaminé da vizinha. Sem ter que mostrar as faces e a disposição do consultório, as histórias podem ser cortadas sem prejuízo do fragmento narrativo que será aproveitado no conjunto do filme.

"Máfia no Divã" ("Analyze This", 1999), de Harold Ramis, com Robert de Niro, consegue façanha semelhante ao retratar a situação insólita de transferência sem a habitual movimentação do entra e sai do paciente. O filme cumpriu muito bem um propósito inesperado: alterou completamente o estereótipo do paciente de análise. Em vez de alguém vulnerável, instável ou em sofrimento crônico, alguém poderoso com uma demanda capaz de se tornar coercitiva para quase tudo.

Que realmente descobriu o caminho para resolver o enigma parece ter sido a série israelense "Betipul" (2005-2008), que inspirou a versão americana "In Treatment" (2008-2010), da HBO, com o sensacional Gabriel Byrne, mas também a versão portuguesa, argentina e a brasileira "Sessão de Terapia" (da plataforma de streaming GloboPlay), com Selton Melo na direção e Zé Carlos Machado como terapeuta, entre 2012 e 2014 e que retornou de 2019 a 2021, com o próprio Selton como analista.

Aqui a abordagem superou o problema de como a "ação" pode ser traduzida em diálogo sem que isso tenha que espetacularizar os acontecimentos do caso, do psicanalista ou de suas intervenções. A solução está em filmar em tempo real, valorizando silêncios e pausas.

Por outro lado, foi preciso desidealizar a figura estoica do psicanalista, mostrando como ele vive casamentos mal postos, abandonos e limitações de toda ordem, ao final e ao cabo, mostrando-se uma figura tão ou mais problemática que seus próprios pacientes. Isso foi excelente para reduzir o complexo de Olimpo que acomete muitos psicanalistas, especialmente quando enfrentam a cena pública.

Neste ângulo é importante lembrar da série "Psi", criada e dirigida pelo recém-falecido Contardo Calligaris, entre 2014 e 2019. Combinando abordagens diferentes de câmera e de uso do tempo real, Contardo conseguiu trazer o outro lado, o da vida do psicanalista, para um outro parâmetro.

Desde Freud os paralelos entre a ficção policial e o romance histórico com a experiência psicanalítica vinham sendo apontados, mas nunca de modo a mostrar a interveniência real do psicanalista na vida dos seus pacientes, ou melhor, quase sempre nas suas adjacências.

A fórmula mais próxima teria sido a série "House" (2004-2012), com Hugh Laurie, que com suas grosserias e com seu regime particular de relação com a verdade conseguia transmitir muito de como uma psicanalista (especialmente lacaniano) age com relação ao sofrimento humano.

Ao que tudo indica, tanto a versão de Selton Mello quanto a de Contardo precisam exagerar um tanto no heroísmo do psicanalista, negativo no primeiro caso e positivo no segundo, para justificar a atenção do público. Com isso, retornamos ao problema de que nem a densidade dos dramas dos pacientes nem a sua reverberação no psicanalista parecem suficientes para estar realmente no centro da história.

O problema se repete na nova versão americana "In Treatment", com a sensacional Uzo Aduba como protagonista. Isso me parece decorrer de uma próxima contingência a ser enfrentada, a saber, o fato de que uma análise age a longo prazo, ela pode demorar anos para se concluir e outras tantas décadas para ser "elaborada", com impactos continuados na vida dos envolvidos.

Isso seria impossível de fazer com inúmeros casos, como tem feito de acordo com a fórmula recente de variar pacientes por dia e enfrentar a análise ou supervisão do psicanalista no último dia.

O problema da extensão foi admiravelmente tratado na série "House", pelos sucessivos enfrentamentos de sua dependência de oxicodona, com suas infinitas idas e recuos em seu amor por Cuddy e em suas reformulações relacionais com a equipe.

A cura de House, como agora acompanhamos a cura de Selton Mello, talvez seja o maior desafio em curso no momento, por isso recomendo vivamente a série, na sua atual temporada. Até aqui as intervenções do personagem Caio Barone eram um tanto irregulares, com bons acertos ao lado de manobras discutíveis até para principiantes.

A série passou a acertar o passo quando percebeu que um bom analista vem de uma boa análise, e era exatamente isso que faltava antes da chegada de Rodrigo Santoro.

A maneira como alguém é transformado por seus analisantes, a ponto que eles representam um fator de cuidado colateral, de modo transversal ao modo como se transforma na relação com seu próprio psicanalista talvez seja o segredo ainda infilmado da psicanálise.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL