PUBLICIDADE
Topo

Blog do Dunker

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Antes você do que eu": como dilema ajuda a ciência a descobrir um egoísta

Niels Sienaert/ Flickr
Imagem: Niels Sienaert/ Flickr
Christian Dunker

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor do Departamento de Psicologia Clínica e coordenador o Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP (Universidade de São Paulo)... além de youtuber.

28/05/2021 04h00

O dilema dos prisioneiros é um modelo lógico usado para pensar regras de decisão e é amplamente empregado na economia e na teoria social para simular o funcionamento do sujeito.

Na teoria dos jogos ele é um exemplo paradigmático do teorema minimax segundo o qual cada jogador tende a atingir uma estratégia de decisão estável de modo a aumentar seus ganhos e minimizar outros jogadores.

A formulação original do dilema, proposta por Flood e Drescher, na década de 1950 é a seguinte:

"Dois suspeitos, A e B, são presos pela polícia. A polícia tem provas insuficientes para os condenar, mas, separando os prisioneiros, oferece a ambos o mesmo acordo: se um dos prisioneiros, confessando, testemunhar contra o outro e esse outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de sentença. Se ambos ficarem em silêncio, a polícia só pode condená-los a 6 meses de cadeia cada um. Se ambos traírem o comparsa, cada um leva 5 anos de cadeia. Cada prisioneiro faz a sua decisão sem saber que decisão o outro vai tomar, e nenhum tem certeza da decisão do outro. A questão que o dilema propõe é: o que vai acontecer? Como o prisioneiro vai reagir?"

Ou seja, se ambos mantêm a sua lealdade criminosa, ambos pagam uma pena relativamente leve, ainda que seis meses na prisão possam ser encarados com um grande martírio, dependendo da prisão.

Se um deles trai o outro e o outro confia no um, temos o pior cenário possível de desigualdade: o solidário tem uma pena de dez anos e o espertalhão sai livre na hora.

Este é o cenário da maior tentação possível: imediato e ainda beneficiado pela proteção contra a vingança do outro por, ao menos dez anos.

O perigo representado por este cenário leva a terceira alternativa, que é os dois delatam, supondo que o outro não será solidário, o que leva ambos a uma pena expressiva de cinco anos.

O ótimo de Paretto ocorre se ambos silenciam mantendo o pacto entre si, ainda que este pacto não tenha sido enunciado ou combinado antes.

O equilíbrio de Nash tende para que ambos denunciem e ambos paguem penas, proporcionalmente medianas. Aqui se infiltra um elemento intersubjetivo nas experiências de felicidade ou sofrimento.

Por exemplo, a felicidade de 1% é afetada duplamente:

  • Primeiro pelo fato de que os outros 99% são infelizes, o que torna esta felicidade mais "exclusiva";
  • Segundo, porque ela pode ser sentida como culposa, gerando sentimentos de generosidade inclusiva, pena ou compaixão.

Inversamente, o sofrimento é muito pior quando vivido de forma individualizada, como se fôssemos o 1% escolhido desta experiência. Mas quando interpretamos que "todos nós", ou "muitos de nós", ou 99% de nós estamos sofrendo juntos, o sofrimento diminui.

Ou seja, nossa suposição sobre como "os outros são", ou sobre como "as pessoas agem", justifica nosso egoísmo, mas não nosso altruísmo.

Isso se aplica ao contexto da vacinação e da adoção de proteções sanitárias contra a covid. Decisões apresentadas como exercício da liberdade individual — como "não uso máscara" ou "vou com frequência em aglomerações"— muitas vezes se apoiam em interpretações de que "todo mundo" ou muita gente está agindo assim.

Isso reverbera com a hipótese, de alta inflexão política, de que "somos ingênuos que acreditam na boa-fé humana enquanto eles, os corruptos," estão nos traindo.

Estudos experimentais variam muito quando acentuamos certos detalhes na estrutura da situação, por exemplo, se a situação é realizada apenas uma vez, ambos tendem a lealdade em 60% dos casos. Mas quando repetimos a prova, a tentação de traição tende a aumentar até se estabilizar em torno de 17 para 6, no caso de traição simples, 8 para 8, no caso de traição dupla e 12 para 12 no caso de solidariedade [1].

Schelling ganhou o Nobel de economia em 2005 mostrando que a relação com o pagamento de impostos segue uma lógica decisional como a dos prisioneiros.

Quando dizemos, como se tornou corrente no Brasil, que "ninguém paga impostos", ou que "impostos não se revertem em benefícios públicos", estamos justificando a atitude (4) todos somos enganadores e a moral do Estado traidor que se expressaria nas atitudes (2,3) mesmo que você pague, o outro não lhe será recíproco.

O dilema dos prisioneiros foi aplicado desde a teoria da evolução até a psicologia, da sociologia a bolsa de valores e as estratégias no esporte, servindo para opor estratégias egoístas a altruístas na vida, no amor e nos negócios.

Com o tempo os participantes passaram a se agrupar em estilos, que interferem na lógica da escolha, por exemplo, pessoas mais "confiantes" ou "desconfiadas" alteram os resultados de longo prazo.

Aquele que denuncia, trai ou age deslealmente não consegue perspectivar um futuro de longo alcance, muitas vezes age de forma preventiva: na certeza de que o outro me enganará, eu o engano primeiro.

Percebeu-se também que cada tipo de jogador se define por um algoritmo e que se pode confrontar algoritmos em verdadeiros torneios onde universidades e centros de computação competem entre si pela melhor estratégia das estratégias [2].

Decorre desta longa trajetória de estudos uma espécie de sequência vencedora, ou seja, quatro atitudes presentes entre os melhores resultados, considerando a extensão de casos, tipos e variantes do dilema dos prisioneiros [3] :

  1. Amabilidade: sempre que possível ser leal e confiar no outro.
  2. Potência de retaliação: o altruísmo otimista não deve ser cego, uma traição deve ser respondida na justa e exata medida, como diz meu amigo e palhaço profissional Claudio Thebas: "ser bom, não é ser bonzinho".
  3. Perdão: capacidade de voltar a confiar, não exceder a justiça em vingança e voltar a apostar na cooperação assim que o outro der provas reais de confiabilidade.
  4. Não-inveja: não deixar sua estratégia ser alterada por ganhos ou perdas, pelo excesso de comparação.

Mas a verdadeira síntese do dilema dos prisioneiros foi dada pela replicação do experimento em porcos [4] que, como se sabe, são animais altamente hierárquicos.

Se colocarmos um suíno líder e outro subordinado em uma mesma baia comprida, onde de um lado há uma barra que libera alimento e no outro lado, bem distante, fica o cocho onde o alimento é liberado.

O porco dominador precisa de um tempo para perceber qual a barra que comanda a liberação da comida. Sua "fixação pelo poder e controle" o faz pressionar a barra enquanto, do outro lado, o porco subalterno come quase toda comida. O chefe precisa correr toda a extensão da baia para se contentar em comer o resto deixado pelo subalterno.

Moral da história: porcos egoístas são invejosos, não largam a barra, tendem a trair os outros que confiaram neles e não conseguem planejar o futuro.

REFERÊNCIAS

[1] Faveret, M. (2013) Um Recorte do Sujeito no Discurso da Ciência. Tese de Doutorado. Rio de Janeiro: UFRJ.

[2] Hofstadter, Douglas R. (1985) The Prisoner's Dilemma Computer Tournaments and the Evolution of Cooperation Ch.29 en Metamagical Themas: questing for the essence of mind and pattern.

[3] Axelrod, Robert e Hamilton, William D. (1981). The Evolution of Cooperation. Science, 211:1390-1396.

[4] Faveret, M. (2017) O Dilema do Prisioneiro desde Hegel até a Lacan. USA: CPSIA.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL