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START Explica: speedrun e a arte de zerar "Super Mario" em 42 segundos

Eryk Souza/UOL
Imagem: Eryk Souza/UOL

Giovanna Breve

Colaboração para o START, em São Paulo

30/06/2019 04h00

Eles correm contra o tempo e quebram recordes mundiais. Mas em vez de tênis e sapatilhas, estão mais preocupados com os joysticks. Em vez de correr 100m em 10 segundos, eles querem terminar "Super Mario World", do começo ao fim, em inacreditáveis 42 segundos -- ou menos.

Os speedrunners são uma categoria peculiar de atletas dos games. Eles passam horas e horas decorando fases, sequências de botões, treinando comandos e fuçando códigos para descobrir falhas na programação. É assim que conseguem levar os jogos ao limite e fazer coisas que parecem impossíveis.

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Frenéticos por uma boa causa

Um dos maiores eventos de Speedrun é o Games Done Quick (SGDQ), maratona que acontece duas vezes ao ano nos Estados Unidos. O primeiro acontece em janeiro, chamada Awesome Games Done Quick (AGDQ), e o segundo no verão americano, chamado Summer Games Done Quick (SGDQ).

Ambos são transmitidos ao vivo durante uma semana, em que os speedrunners batem recordes para alcançar o menor tempo de um game e também realizar peripécias, como jogar com os olhos vendados

Abaixo, o runner Zallard1 jogando "Super Punch-Out" de olhos fechados na Awesome Games Done Quick de 2014.

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O principal motivo das maratonas existir nem é a parte do entretenimento e sim arrecadar dinheiro para instituições de caridade. Neste ano, os organizadores decidiram angariar fundos para a Médicos Sem Fronteiras, organização internacional que oferece ajuda médica e humanitária a populações em situações de emergência.

A GDQ já realizou maratonas especiais para levantar dinheiro para o Japão no tsunami de 2011, e quando o furacão Harvey atingiu o estado do Texas em 2017.

Transmissão da Summer Games Done Quick (SGDQ) de 2019 - Reprodução
Transmissão da Summer Games Done Quick (SGDQ) de 2019
Imagem: Reprodução

As lives, que acontecem no Twitch, recebem uma média diária de 100 mil espectadores nos dias do evento. Ao longo de quase uma década, a GDQ conseguiu arrecadar cerca de US$ 19,3 milhões, valor que deve aumentar até o encerramento da Summer Game Done Quick de 2019.

Na programação deste ano, rolou jogos diversos, desde os clássicos como "Metroid" e "Mega Man", até lançamentos como "Spyro Reignited Trilogy" e "Kingdom Hearts III".

Brasileiro ligeiro

Não pense que os brasileiros comem poeira nessa corrida maluca. A comunidade de speedrunners no Brasil é tão unida que criou, em 2016, o BrAT (Brazilians Against Time), evento nos moldes da Games Done Quick e que também arrecada dinheiro para causas sociais.

Em 2019, a BrAT foi realizada nos seis primeiros dias de março e arrecadou cerca de R$ 20 mil para a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais).

Matheus Furtado, ou FURiOUS, termina "Super Mario World" em menos de 42 segundos - Reprodução
Matheus Furtado, ou FURiOUS, termina "Super Mario World" em menos de 42 segundos
Imagem: Reprodução

Além da BrAT, os speedrunners realizam encontros regionais e fazem transmissões para alcançar o tão desejado posto de recordista, como é o caso de Matheus Furtado, ou FURiOUS, como é conhecido pela comunidade de jogadores.

Em 2017, o desenvolvedor ficou famoso ao bater o recorde mundial ao terminar "Super Mario World" em apenas 1 minuto e 13 segundos, com direito a título reconhecido pelo Guinness

Matheus conta que a vontade de alcançar esse recorde veio ao descobrir formas inéditas de terminar o jogo da Nintendo. "Quando a comunidade descobriu que era humanamente possível executar uma série de ações precisas para, literalmente, executar código arbitrário no game, eu tinha que tentar conseguir esse recorde pra mim!" diz FURiOUS em entrevista ao START.

Mas a alegria durou pouco. No acirrado mundo competitivo de speedrun, o brasileiro perdeu o título no começo de 2018 para o americano Sethbling, que finalizou o jogo do encanador em 42 segundos. Não contente, Matheus fez mais de 3,5 mil tentativas até ultrapassar e conquistar de volta o título, chegando no final com uma mínima diferença de tempo: apenas 41 segundos e 87 milésimos.

Esse recorde tem um valor especial pra mim pois sou desenvolvedor e glitches/bugs fazem parte do meu dia-a-dia. Isso foi muito positivo na minha vida, tive ótimas oportunidades por conta disso
FURiOUS

Se você não entendeu nada do vídeo, vamos tentar explicar: o Matheus executou uma série de comandos específicos, em ordem e ritmo determinados, para abrir uma brecha no código de "Super Mario", forçando o jogo a exibir os créditos finais. Se você se interessa por programação, pode conferir algumas explicações detalhadas do próprio Matheus.

Além de exigir memória e precisão mecânica, muitas vezes os speedruns precisam de modificações mais caseiras, como, por exemplo: ligar um segundo controle no videogame e usar elásticos para manter algumas teclas pressionadas o tempo todo, enquanto o jogador faz a mágica com o controle 1.

Momentos lendários do speedrun

Nesses eventos de jogatinas intensas já rolou de tudo, e o START selecionou as jogadas memoráveis e os episódios mais inesperados que marcaram a modalidade.

It's me, Bot!

Durante a Game Done Quick de 2014 usaram um computador programável chamado TASBot para finalizar "Super Mario 64". Programado para terminar o quanto antes, o bot gerou risadas pelas jogadas inacreditáveis que realizava ao atravessar paredes e desviar de obstáculos.

"Sei até de olhos fechados"

Além de terem uma memória motora impecável, os competidores também curtem vendar os olhos e jogar às cegas! Como na GDQ de 2018, em que The Mexican Runner conseguiu completar uma fase de "Battletoads" com os olhos vendados.

Um mineiro na terra do Tio Sam

Na Summer Games Done Quick de 2018, o improvável game brasileiro "Ultra Mineirinho Adventures" chamou a atenção dos competidores e marcou presença na maratona. O jogo é conhecido pela sua baixa qualidade de gráficos e uma jogabilidade cheia de glitchs, um prato cheio para os speedrunners explorarem o curioso universo do personagem inspirado no mascote do restaurante em Itaguaí, no Rio de Janeiro.

Dicas do mestre

Quer se tornar um speedrunner? Qualquer pessoa pode fazer um speedrun, basta gostar muito (e muito eu digo no sentido de ficar horas sem enjoar) de algum game e manjar bastante. E não é só saber como derrotar aquele chefão final e sim como finalizar missões, saber a localização exata de cada item ou qual a sequência exata de movimentos para encontrar aquele glitch específico.

O FURiOUS dá conselhos para quem quer ser um profissional no speedrun: "Vai precisar de um pouco de paciência. Escolha um game que já terminou e adora muito, principalmente se tiver uma trilha sonora boa no início, afinal vai chegar um momento que você irá resetar muito!".

Outra dicas são: envolver-se com a comunidade, assistir runs dos outros jogadores e fazer anotações sobre rotas.

Principalmente, não desista, um dia você talvez não consiga diminuir seu tempo no jogo. Dê um tempo e tente novamente outro dia
FURiOUS

Que língua é essa?

Além dos métodos pouco convencionais de jogar, os speedrunners compartilham uma linguagem toda própria. Trouxemos um breve glossário abaixo, com base em informações do Speedrun Brasil, site da comunidade brasileira.

Cada jogo tem regras específicas, mas existem categorias de finalizar um game, que geralmente são divididas em:

  • any%: apenas zerar o jogo, sem nenhum outro requisito, a não ser que ele seja explicitado.
  • 100%: coletar ou completar tudo ou uma grande parte do que pode ser coletado ou completado. As regras individuais devem ser consultadas para detalhes.
  • low%: zerar o jogo com o mínimo de itens coletados possíveis, evitando, por exemplo, equipamentos, upgrades opcionais.
  • Damage boost: ação de receber dano propositalmente a fim de avançar por uma área mais rapidamente. Usado quando desviar dos perigos levaria mais tempo do que simplesmente encarar tudo.
  • Frame: tempo que o jogo leva para atualizar a tela do jogo e registrar input dos controles. A maioria dos jogos roda a 30 ou 60 frames por segundo.
  • Glitch: em algumas situações, é possível executar uma ação que não era pretendida pelos desenvolvedores para ser mais rápido. Explorando brechas, técnicas do jogo, pode-se atravessar paredes, matar chefes mais rápido ou pular seções inteiras.
  • Mash: apertar um ou mais botões o mais rápido possível muitas vezes é uma etapa importante para avançar rapidamente no jogo. Geralmente usado em diálogos/menus ou glitches.
  • Out-of-bounds: acessar uma área que os desenvolvedores não pretendiam tornar disponível, para atravessar uma área de forma mais rápida.
  • RTA (Real Time Attack): refere-se ao ato de contar o tempo real, ou seja, com um cronômetro fora do jogo.
  • TAS BOT (Tool-assisted speedrun): ferramentas que realizam jogadas que são humanamente impossíveis, possibilitando o uso de câmera lenta ou jogabilidade frame-by-frame. A ideia é facilitar e possibilitar a quebra de recordes de velocidades. Os TAS abusam de falhas do jogo, como, por exemplo, fazer o personagem ser imune a ataques ou atravessar paredes. Elas não podem ser utilizadas em competições, mas ajudam no treinamento de speedrunners a melhorar o desempenho e descobrir novas maneiras de agilizar a jogabilidade.

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