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70 anos de TV

A história da televisão no Brasil


TV setentona aposta tudo no futebol, mas tem dor de cabeça com times

Gabigol ganhou a Libertadores em 2019 pelo Flamengo; clube e competição se afastaram da Globo em 2020 - Manuel Velasquez/Getty Images
Gabigol ganhou a Libertadores em 2019 pelo Flamengo; clube e competição se afastaram da Globo em 2020
Imagem: Manuel Velasquez/Getty Images

Ana Carolina Silva

De Splash, em São Paulo

19/09/2020 04h00

"Futebol é quarta e domingo, mêo": é o que diria Muricy Ramalho sobre a história dos esportes nestes 70 anos da TV aberta brasileira.

De modo geral, tradicionalmente, a cobertura esportiva nos canais abertos se resume muito a futebol masculino. As exceções são raras e cada vez menos frequentes.

Os canais abertos vinham dependendo tanto do futebol masculino que as mudanças recentes têm obrigado a TV a reinventar a cobertura esportiva.

No Brasil, as negociações de direitos de transmissão vêm se arrastando mais do que as novelas das nove, e o cenário mostra que o esporte na TV aberta não deveria ser tão dependente assim do futebol masculino e de seus clubes. Para todos os outros esportes, o caminho pode ser:

Adeus, TV aberta... olá, streaming!

João Pedro Paes leme, ex-diretor executivo do esporte da Globo e fundador da Play9 —empresa que lida diretamente com o futuro do entretenimento—, falou a Splash com exclusividade:

Posso estar enganado, mas a tendência é que as demais modalidades migrem para outras plataformas, e esse fenômeno a gente já tem visto.

Ou seja, cada vez mais, quem quiser ver Patrick Mahomes, LeBron James e Serena Williams em ação deve ter de somar uma boa graninha para assinar cada streaming de cada modalidade.

É claro que torneios como Jogos Olímpicos e Pan-Americanos são grandiosos e, por isso, costumam aparecer nas nossas televisões, mas ocorrem só a cada quatro anos.

Nesses intervalos entre uma edição e outra, a cobertura televisiva do esporte olímpico pode ser representada por essa ilustração:

Jogos importantes de seleções de vôlei e basquete surgem de vez em quando na tela, mas é raro ver partidas menores tendo qualquer espaço.

A Globo vê vantagem em um Corinthians x São Bento que não vale nada pelo Campeonato Paulista masculino de futebol, mas dificilmente faria o mesmo com um jogo mediano do time de basquete corintiano ou são-paulino; nem mesmo se fosse um clássico entre as duas equipes.

Nos Estados Unidos, a audiência é muito mais dividida: você tem ligas bem fortes de futebol americano, basquete, beisebol... Mas aqui no Brasil é quase um monopólio do futebol. Não é um acaso que seja no Brasil, um país apaixonado por futebol, e não é um acaso que seja o futebol masculino. - João Pedro Paes Leme

Dor de cabeça nas negociações

O assunto futebol masculino não é mais restrito à TV Globo. O SBT decidiu relembrar os seus velhos tempos de futebol e vai transmitir a Copa Libertadores até o fim da temporada de 2022.

Além disso, a Conmebol tem um plano para conquistar a audiência dos torcedores em quatro canais pagos e mantidos pela própria confederação.

E a Liga dos Campeões da Europa está no Esporte Interativo e no Facebook, bem longe da TV aberta.

Afinal, a Conmebol achou pouco os US$ 45,5 milhões oferecidos pela Globo para a Libertadores. A emissora já perdeu o Flamengo e a competição continental que movimenta o país todos os anos; se há uma boa hora para mudar, é agora.

Propor esse debate não é menosprezar o futebol masculino, pelo contrário; é só um reconhecimento de que os tempos mudaram e que talvez os boleiros tenham ficado grandes demais para os modelos antigos.

Futebol feminino segue em busca de espaço

O futebol feminino tem visibilidade nas Olimpíadas e o Brasil vê Marta em ação há muitos anos, mas foi apenas em 2019 que a Copa do Mundo da categoria foi exibida pela Globo.

Eu sempre tentei muito ajustar ao máximo quando era diretor. Eu sei que o Renato Ribeiro, que ficou no meu lugar, é um cara fantástico, apaixonado por Olimpíadas e foi um dos principais artífices dessa decisão quase política de exibir a Copa feminina, com discurso muito veemente. - João Pedro

O narrador Luciano do Valle, que morreu em 2014, entendia que era preciso ensinar a população a consumir futebol feminino até isso se tornar hábito e passar a dar audiência. É o que a Globo cogita fazer agora.

Esse papel da TV aberta já deveria ter sido feito lá atrás... mas, possivelmente, ela exibia futebol masculino demais. - João Pedro Paes Leme

O trabalho de Luciano na Band, nos anos 1990, é lembrado com muito carinho pelas jogadoras, e as narrações dos jogos da seleção no Torneio Internacional são sempre exaltadas; além das transmissões de Brasileiro, Paulista e Copa do Mundo feminina de 1995.

luciano do valle - Reprodução/Twitter - Reprodução/Twitter
Luciano do Valle
Imagem: Reprodução/Twitter

O Luciano apoiava demais o futebol feminino. Com certeza ele ajudou muito a modalidade a chegar aqui! Ele faz falta, mas tenho certeza de que onde ele estiver está torcendo por nós - Marta, camisa 10 da seleção feminina de futebol, ao site da CBF

A voz de Luciano do Valle também incentivava outras modalidades como boxe, futebol americano e Fórmula Indy, que, depois dele, nunca mais brilharam na TV.

A exceção a essa regra, é claro, sempre foi a Fórmula 1

A elite do automobilismo é presença constante nas nossas manhãs de domingo há décadas, mas agora até isso pode mudar com a decisão da Globo de não renovar o contrato com a Liberty Media.

Isso parece ter relação com a nossa carência por ídolos brasileiros: sem Ayrton Senna, Rubens Barrichello ou Felipe Massa, nem mesmo um gênio como o inglês Lewis Hamilton conseguiu convencer a emissora carioca a investir em uma renovação por enquanto.

Até o UFC viveu uma gangorra nos últimos anos, desde que a carreira de Anderson Silva entrou em declínio e fez esfriar o interesse da maior parte do público brasileiro.

Mas a chegada de serviços de streaming e a perda de direitos de campeonatos e times específicos deveria forçar a Globo a reinventar sua relação com o esporte.

O único problema é fazer isso acontecer, contrariando os vícios do público.

Eu diria que é mais fácil a gente começar a ver futebol feminino na Netflix, Fórmula 1 no YouTube, e as Olimpíadas na Amazon Prime Video, do que imaginar que a televisão aberta vai fazer esse papel de transformar. - João Pedro Paes Leme

O ex-diretor da Globo lamentou:

A TV aberta não vai fazer esse papel porque, infelizmente, a sociedade não demanda isso. O tempo que teria para educá-la, ao ponto de ela demandar, já passou. Vale muito a pena lutar, mas é preciso enfrentar um retrato do que o público médio espera da TV aberta.