PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Fefito

Lima Duarte: 'Eu dei o primeiro beijo gay na TV! E exijo que reconheçam!'

Fefito

Fernando Oliveira, conhecido como Fefito, é formado em jornalismo e pós-graduado em direção editorial. Teve passagens pela IstoÉ Gente, Diário de S. Paulo, iG, R7. Atuou como apresentador do Estação Plural, da TV Brasil, Mulheres, da TV Gazeta, e Morning Show, da Jovem Pan.

Colunista do UOL

30/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Na TV desde sua inauguração, ator começou na carreira como operador de áudio
  • Lima relembra primeiro beijo entre homens dado em Claudio Marzo, no "Grande Teatro Tupi", na TV Tupi, em 1963
  • Para ator, é importante refletir sobre a aposentadoria: "A gente deve estar preparado"

Pouca gente sabe, mas Ariclenes Venâncio Martins é um dos funcionário mais antigos da televisão brasileira. Ele atuou em mais 60 novelas, foi diretor de sucessos como "Beto Rockfeller" (1968) e emplacou personagens que entraram para a memória do país. Talvez pelo nome da certidão o leitor não saiba a quem esse texto se refere, mas, com toda certeza, ao ler que trata-se de Lima Duarte, não restará dúvida nenhuma. E Lima teve momentos ousados: em um teleteatro da TV Tupi, deu o primeiro beijo em outro homem no ar, ao vivo, de que se tem notícia.

Aos 90 anos, o ator está na TV desde sua inauguração em 1950. É testemunha ocular dos 70 anos de história do veículo. De sonoplasta foi alçado a artista e encarnou o primeiro vilão das telenovelas brasileiras. Deu também o primeiro beijo entre homens, em Cláudio Marzo, em 1963. Na ficção, conquistou mocinhas interpretadas por atrizes como Betty Faria, Maitê Proença e Regina Duarte. Foi Salviano Lisboa, Sassá Mutema e Sinhozinho Malta. Em 2015, por ocasião dos 65 anos da TV, Lima recebeu este colunista que vos escreve em sua casa. Como uma nova entrevista presencial não é possível em tempos de pandemia e boa parte desta conversa - originalmente gravada para o programa "Mulheres" - está inédita, eis a oportunidade de conhecer melhor sobre sua história. O UOL e a coluna agradecem à TV Gazeta e sua diretora artística, Marinês Rodrigues, por liberarem essas imagens que compõem um documento histórico sobre a televisão.

Como é que Ariclenes virou Lima? Hoje não é muito comum trocar de nome na TV.
Só se trabalhava com um sinônimo né? Mas a minha história é um pouco a história da minha vida. Fiz um filme com Guilherme Weber agora, aí ele me mandou um bilhetinho dizendo que eu falo muito das minhas histórias, adora as minhas histórias e adora principalmente a história da minha mãe, uma mulher que me batizou duas vezes. Foi mesmo ela. A minha mãe era espírita, e eu sou de Minas Gerais. Minha mãe era, como eles dizem lá, catimbozeira. E ela era médium de incorporação - os espíritas sabem disso - e era atriz também. Acho que esse foi o legado maior da minha mãe, que é o maior que pode receber um ator. Foi ter uma mãe atriz, conversar e comungar com ela como mãe, como mulher e como atriz, de ator para ator. No primeiro grande sucesso, eu tinha uns 13 anos mais ou menos, lá no interior ainda, com uma peça clássica da literatura circense chamada "Ladra". É a história de um rapaz que rouba e põe a culpa na mãe, e a mãe assume a culpa por amor, e é a ladra. E eu fazia essa peça com a minha mãe. Fiz muito sucesso.

Você ainda era Ariclenes nessa época?
Era! E ela me olhava. Ela, muito mais que interpretar, me olhava interpretar. E foi bonito, não esqueço do olhar dela. Mas quando eu comecei, era retirante, né? Cheguei em um caminhão de manga em São Paulo em 1946, logo depois de terminada a guerra. Dormia embaixo do caminhão nas primeiras noites, no Mercadão. Depois chegou um menino de rua, como eu mais ou menos, e falou assim: 'Ô vamos para a zona? E eu: 'Onde é a zona? O que é zona?'. Ele falou: 'Mulher!'. Eu falei: 'Mulher? A coisa própria mesmo? Vamos!' . Era perto do Mercadão, na rua Aimorés e Itabocas, ali no Bom Retiro. E fui. Era uma polaca a dona da casa. As polacas famosas.

Uma francesa chamada Madame Poletti se encantou comigo. Eu me aproveitei e me ajeitei na casa dela. Saí debaixo do caminhão e fui para a zona. E fui morar com ela.

Fiquei morando com ela. Ela gostava muito de rádio e tinha uma visão mais ampla do ser humano. Ela era francesa, judia. E ela um dia falou para mim: 'Você é muito louco! Você tem que fazer alguma coisa, se não você morre'. Percebeu que eu tinha uma necessidade de expressão, né? Grande! Aí me levou e falou: 'O que você quer fazer?'. Falei: 'Eu quero falar no rádio!'. Queria ser locutor, porque era o tempo das grandes vozes, não existia televisão, em 1946 ou 47. Ela me levou para fazer um teste na Tupi, porque era amiga de um locutor, que ia arranjar um teste para mim. Acabei que fui para Tupi e que veio a televisão.

Eu comecei embaixo de um caminhão de manga. Então eu tinha certeza, acho, naquele tempo, que eu não ia fugir ao meu destino, e que eu venceria tudo.

E você foi aprovado no teste?
Não Fui. Cheguei lá, fiz o teste. Rádio Tupi de São Paulo, a mais poderosa. Eu falava... Se falo assim ainda hoje, imagina naquele tempo que falava... Tinha acabado de chegar de Minas. O sujeito falou assim: 'De onde é que saiu a sua voz, do sovaco é? Puxa! Você tem uma voz de sovaco!' Falei: 'Não, não...''. Eu acreditei, sabe? 'Ah vai embora rapaz! Isso aqui é grandes vozes: Wálter Foster, Manoel Barcelos, César Ladeira, e você tem essa voz de sovaco, você quer ser locutor?' Eu tinha esperança que meu pai me ouvisse lá, porque ele me mandou embora lá em Desemboque (em Minas). Aí fui embora. Quando fui saindo, devo ter ficado meio patético, meio melancólico, eu e a minha quase mãe, a Madame Poletti, saindo. O operador de som me viu e falou assim: 'Vem cá, você não quer trabalhar aqui?'. Tinha acabado a guerra, tinha muito emprego, muita carência. Eu falei: 'Eu quero! Quero sair da zona, eu moro na zona. Quero sair da zona'. Ele falou: 'Vem cá que eu te ensino!'. E me ensinou a ser operador. Como era começo, eu ia às 4h30 da manhã. Eu morava longe, lá na Penha. Era uma viagem. Aí eu vinha às 4h30 da manhã. Dormia por ali mesmo, e vinha abrir a rádio. O porteiro não queria me deixar entrar. Não existia um transístor, umas válvulas grandes assim. Eu ligava e esperava esquentar o filamento, aí punha o transmissor e a Rádio Tupí ia para o ar. O começo antes do começo. E quando chegavam os caipiras para aqueles programas: 'Vai trabalhar vagabundo, está na hora de trabalhar! Até logo, estou indo trabalhar.' Eu ia para o estúdio, os caipiras pediam Tonico e Tinoco.

E assim você virou operador de som.
Isso, sonoplasta né? Um dia o Oduvaldo Vianna (diretor), o velho pai do Vianinha, chegou e me perguntou: 'O que é esse negócio que tem de manhã? É um menino que vem aí, imita porco, galinha, cachorro, cavalo, tudo'. Fui falar com ele, ele disse: 'O que você faz aí?' Eu: 'Ah, eles pedem para eu imitar os caboclos aí e eu imito. Sei imitar cachorro, porco, galinha, tudo lá da roça'. Ele falou: 'Vem imitar para mim!' Aí passei a ser sonoplasta do Oduvaldo Vianna.

Que ótimo!
Um dia, ele me deu um papelzinho na Rádio Teatro. Falei: 'O Sr. sabe que eu tenho voz de sovaco hein!' . Ele falou: 'Não, preciso de uma porcaria dessa mesmo!' Fui lá, falei. Fiz sucesso. Ele disse: 'Que nome eu falo no fim? Tem que falar no fim, no rádio. Que nome vou falar?'. Falei Ariclenes Venâncio Martins. Ele disse: 'O quê? Você é Baiano?'. Falei: 'Não. Sou mineiro.' E ele: 'Ariclenes Venâncio Martins, não pode trabalhar com esse nome, não, rapaz. Isso está muito comprido, arranja outro nome!' Falei: 'O senhor põe Luiz Alberto!' Ele disse: 'Isso é um nome de veado! Você é veado rapaz? Esse negócio de João Paulo, para com isso! Arranja um nome de homem, um nome forte!' Falei: 'Puxa, aí não sei, vou telefonar para a minha mãe'. Lá no interior com magneto, aqueles telefones, contei para a minha mãe que iria trabalhar no rádio, mas precisava arranjar um outro nome, que esse meu nome não servia. Ela disse: 'Como? Seu nome é lindo!'. Mãe é mãe.

Minha mãe disse: 'Olha, ponha o nome do meu guia de luz, que você vai ser muito feliz. Ele chama Lima Duarte.' E eu sou obrigado a acreditar em milagres!

E deu tudo certo! Estava certa a sua mãe!
Ela me batizou a segunda vez como Lima Duarte. Aí nasceu o Lima Duarte.

Boa parte das pessoas do rádio migrou para TV, assim que ela começou em 1950, certo?
A TV chegou no rádio. Eu trabalhava na Rádio Tupi desde 1946. Isso (a data exata) precisa dizer para a Vida Alves e para todos os pioneiros que duvidam. Eu só trabalhava na rádio já, quando veio o Assis Chateaubriand e fez a televisão, construiu o prédio, importou equipamento. E nós não sabíamos o que era! Perguntávamos: "O é isso que vai ter aí?". É televisão! 'É mesmo? O que é televisão?'. Eu pensava que era o negócio do Monteiro Lobato, do Jeca Tatu. Quando o Jeca Tatu fica rico, ele monta uma televisão só para vigiar o cafezal. Daí eu pensava: 'O Chateaubriand vai vigiar nós aqui agora!'.

Já que você tocou nesse assunto, Vida Alves me contou uma história de que, durante um teste dela, você disse que ela era "bonitinha".
Eu era o operador de som que ligou o microfone do teste dela. Espero que ela tenha superado. Mas o diretor era o walter Forster, e liguei o microfone. Ele falou: 'Liga aí o microfone, porque quero ouvir a voz dessa moça!'. Aí era um vidro assim e ficava lá no estúdio falando, né? Eu liguei e ficava olhando ela falar. Ela usava uma franjinha muito bonitinha. Ela é uma senhora bonita até hoje (Vida morreu em 2017). Mas os caras perguntaram: 'O que você achou da voz dela?'. Eu falei: 'É bonitinha! É gostosa!' E ela ficou brava!.

Você estava na inauguração da TV. É uma das poucas pessoas que estava lá.
É, acho que só tem eu vivo.

Acho que você e a Lolita, que cantou o hino no lugar da Hebe, porque a Hebe foi namorar.
Foi. A inauguração foi o seguinte: foi um programa de inauguração, né? Escrito por Túlio de Lemos e Aurélio Campos. Teve os discursos de praxe, se cortou a fita, teve poesia, e depois música e literatura. A ideia era essa, né? Cantavam o hino, cantavam os números.

Você participou como ator?
Fizeram um trecho do 'Deus Lhe Pague', do Joracy Camargo, que era um hit fantástico do teatro na época. Eu fiz o velho, que era o cavalo de batalha do Procópio Ferreira. 'Deus lhe pague... Uma esmolinha pelo amor de Deus'. Tinha que ser meio com sotaque português, porque os atores daquela época falavam todos com sotaque. Ele era muito rico, muito inteligente, um gênio, mas se fazia de mendigo por amor.

O Chateaubriand era um louco, né? Paraibano, ele chegou e os engenheiros americanos disseram a ele: "Está pronta a televisão!". Ele: 'Bote no ar, bote no ar!' .Aí disseram: 'Espera aí doutor. Se não tem receptor, não vou botar no ar.

Como se resolveu a falta de aparelhos de TV?
Ele pegou um Constellation, da Panair, e voltou ao Estados Unidos. Comprou 23 aparelhos e trouxe. A TV foi para o ar assim, com 23 aparelhos espalhados por São Paulo.

Hoje em dia todo mundo briga por audiência, mal sabem as pessoas que no começo só tinham 23 televisões.
Foi um aparelho no Viaduto do Chá, um no Cine Metro - ali na Júlio Mesquita -, um na Sete de Abril, um no Pacaembu... Estavam lá e a televisão foi para o ar com esses 23 aparelhos. Depois, teve uma festa. O Cassiano Gabus Mendes era o diretor, o primeiro diretor, e meu querido amigo. Ele sentado comigo, ao meu lado, jantando, virou e disse: 'E amanhã hein?'. Não tinha nada para por no ar! Eu falei: 'Você vai correndo para ir nos consulados procurar filmes.'

Era uma televisão louquíssima. Tinha filmes sobre doença venérea. Antes da Sífilis, depois da Sífilis. Eram assim os primeiros dias, até que começaram a aparecer os musicais.

Tinha muita paquera nesse começo de TV?
Não tinha. A gente trabalhava muito. O Cassiano era mais galã do que eu. Essas divas da época parece que ele 'traçou' todas. Eu não, eu trabalhava muito. Eu era sonoplasta. Fui sonoplasta, rádio-ator e tele-ator. Durante anos fui esses três. Eu era um bom sonoplasta, acho que ia ser, se dependesse do Roquette-Pinto. Tem uma uma relação de prêmios que ganhei. Ganhei oito Roquette-Pintos, Veneza, Cannes, Moscou. Eu era sonoplasta e tinha a sala da sonoplastia, muito disco, disco de som, ruído, música e tal. Ficava na sala a minha roupa de cangaceiro, porque eu fazia uma novela em que eu era cangaceiro. Então, eu terminava a sonoplastia do rádio, guardava os discos, vestia a roupa de cangaceiro e ia para o estúdio.

Você estava na primeira novela brasileira: "Sua vida me pertence".
E fui o primeiro bandido!

Você era o vilão?
Era!

Então você é oficialmente o primeiro vilão da teledramaturgia nacional!
Sou o primeiro bandido! Teve o primeiro beijo, não teve?

Você tentava atrapalhar o beijo da Vida Alves, era isso?

Eu era um advogado, não me lembro bem. Era um advogado meio 'ráfia', um safado, sem vergonha. Não tentava atrapalhar o beijo. Tentava atrapalhar a união, né? Porque eu queria os bens da outra família, essa coisa assim.

Demorou para você beijar na TV?
Que beijar, rapaz? Está louco, beijar era uma coisa... A televisão era outra, esses lábios se unindo em lascívia e penetrando recôndito do lar, no âmago da família, não era possível! Não beijava! Mas aí os artistas queriam beijar. O juiz falou: 'Não beija!'. O General falou: 'Não beija!'. O Governador: 'Não beija!'. Mas os artistas: 'Beija! É o happy end. Beija!'. Aí saiu o veredito.

A novela ia para o ar às sete horas, saiu o veredito às seis: 'Beija, de boca fechada!'. E evidentemente fechada.

Foi um escândalo na época?
Foi, foi. Na época chamou atenção. Foi um escândalo! Hoje, fazem tudo.

Hoje o problema é fechar a boca durante o beijo!
O Walter Avancini (diretor) teve esse problema uma vez. Ele falou: 'Gente! Está babando! Um pouco menos aí! Olha a maquiagem, limpa a boca!'.

Você lembra seu primeiro beijo na TV?
Rapaz, não lembro.

É que já foram tantos, né, Lima?
Muitos, demais! Uma coisa que eu vou te contar em primeira mão: hoje tem muito dessa conversa de homem beijando homem, de quando é que vai sair o beijo gay, o beijo homo. Sabe quem deu o primeiro beijo em um homem na televisão? Eu!

Me conta essa história.
Fui eu quem deu o primeiro beijo! E te digo como, em que circunstância. Foi na peça 'Panorama Com Vista Para a Ponte', do Arthur Miller. Se passava tudo no cais do porto de Nova Iorque. Quem dirigiu foi a Wanda Kosmo. No cinema fez o Raf Vallone e a Valentina Cortese, se não me engano, não tenho certeza. Mas era eu que fazia o ítalo-americano portuário, estivador que tinha uma filha de criação, que era Rita Cléos, uma atriz loirinha, bonitinha. A minha mulher era a Wanda Kosmo, que dirigia. Nós criamos aquela menina grande, e um dia ela aparece: 'Ah, ela tem um noivo, namorado'. Eu quis saber quem é o sujeito! Aí ela traz eu e Cláudio Marzo... 'É isso aí? Você está namorando isso aí? Isso aí é um veado! Você não vê que ele é veado? Quer ver como ele é veado?' Pegava ele e dava um beijo violento. É uma grande cena! Um beijo na boca. Fica evidente que ele era apaixonado pela filha adotiva.

Imagino o escândalo na época! Dois homens se beijando!
Dei-lhe um beijo na boca! Não, nem foi um escândalo, porque a cena era muito bem colocada! Era psicologicamente correto. Então, peguei e dei aquele beijo na boca. O Claudio era muito meu amiguinho. A Rita Cléos é que ficou bem na cena também, porque ela era loirinha. Todos estupefatos, apavorados com a atitude daquele homem, que era pura paixão.

Então quem deu o primeiro beijo de um homem em outro homem na televisão? Eu! E exijo que reconheçam isso!

Você ficou feliz com o resultado do "Salvador da Pátria" (1989)? Lembro que a novela tinha um objetivo claro e a "Globo" intercedeu, por "questões políticas", e pediu para que a trama fosse mudada.
Bom, eu tinha um personagem (Sassá Mutema). Me foi proposto um personagem e eu procurei fazê-lo com toda a grandeza que imagino que ele tem. Um personagem que é um nada e que vem do nada e que continua sendo um nada, uma metáfora desse país, que é cheios de possibilidades e não consegue realizar nenhuma delas. Ele vivia sozinho, com a mãe dele, e a única paixão dele era a Santa Mãezinha. Não sabia ler, não sabia escrever, mas tinha um dom, tinha uma propriedade. Ele pegava nas flores e elas vicejavam. Cientificamente, parece que é provado que você agrega uma enzima que é benéfica e elas vicejavam. Então, ele era um grande jardineiro e, com o tempo, vai aprendendo mais e mais. Aprende a ler, aprende a escrever, aprende a amar, aprende jogar politicamente. À medida em que ele vai crescendo e termina até um senador, as flores não vicejam mais. E essa era a grande tristeza dele, que punha a mão nas flores ali e elas morriam. Era uma metáfora desse país.

Havia uma metáfora com a campanha presidencial do Lula.
Isso E aí para muda, muda, muda e brigaram e discutiram. Mas, no final das contas, o Lauro César Muniz sofreu muito. Eu falei: 'Olha, vou conduzir o personagem até onde for e quando for o personagem. Se fosse outra coisa, aí eu nem saberia fazer, eu pediria para parar. Mas o personagem não mudou muito, não. Teve que se apaixonar, tomou aulas de dicção, aprendeu a falar. Eu pensei que aprender a falar, botar roupa, botar uma gravata e assumir um porte de senador até que pode ser bem interessante.

E, de quebra, você ficou com a Maitê Proença.
A Maitê se apaixonou por ele. Ela era uma antropóloga, e então foi para a fazenda onde ele trabalhava, para fazer um trabalho sobre as mentes primitivas e se apaixonou. Ele bota ela no lugar da mãe. Aqueles olhos, aquela coisa. Ele era um primitivo, ele fica olhando e ela falando e ele fica olhando as ideias, as coisas que ela dizia com aqueles olhos. Ele se apaixona e diz para ela: 'Um dia eu sou seu! A senhora faz o que quiser comigo, eu sou seu, sem você eu não existo'. A Maitê percebe que está com a alma daquele homem na mão e fala: 'Meu Deus, o que eu faço com ele, eu tentei estudá-lo'. Era bonita a metáfora, porque ela era inteligente também, e culta. 'Meu Deus, o que eu faço com esse homem que deu alma dele para mim?'. E era bonito isso. Ela casa com ele. Mas a única coisa meio forçada é que nós... Porque tudo o que houve forçado eu escamotei, mantive o Sassá Mutema até o fim. Apesar de tudo, e contra tudo, mas casar com ela foi complicado. Casar com ela foi difícil. Sassá Mutema enquanto casava com a lindíssima Maitê Proença.

lima -                                 Foto: Reprodução/Instagram                             -                                 Foto: Reprodução/Instagram
Lima e Regina atuaram juntos em na clássica novela 'Roque Santeiro'
Imagem: Foto: Reprodução/Instagram

E muita gente te reconhece pelo Sinhozinho Malta e deve fazer o gesto famosos com as pulseiras.
Sim, tem! "Eu estou certo ou estou errado?". Esses chavões pegam se estiverem psicologicamente corretos, né? Se saírem inventado, não pega, por que o público não é idiota. Mas acontece que eu falo muito para os bons, e o Senhorzinho Malta era um bicheiro sertanejo, então ele tinha muitas pulseiras, joias, camisas de seda, enriqueceu com aqueles golpes. O Senhorzinho Malta era um beneficiário desse dinheiro da mandioca, isso que eu pensava, e tinha muito ouro. Muita coisa e eu que falo muito com a mão. O rapaz do som falou assim: 'Lima, você está falando e está isso fazendo barulho'. Eu falei: 'Vamos incorporar, mostra para o público que são os ouros que estão fazendo barulho'.

Sendo alguém com experiência para operação do som, você já sabia que podia fazer né.
É, pois é. E quando você pergunta, "estou certo ou estou errado?" e sacode os ouros, você não fala que está errado. Estou certo ou estou errado e mostra os ouros, o poder. Aí você mostra que está certo. Então funcionou muito. A primeira novela de "Roque Santeiro" foi proibida, né?

Sim, Betty Faria seria a Viúva Porcina.
E Chico Cuoco era o Roque. A história era maravilhosa, fundamental para a telenovela brasileira. Ela foi proibida no dia de ir ao ar. Antes do "Jornal Nacional". Fizeram uns vinte capítulos. Os vinte mais difíceis, tendo que construir a cidade, guarda-roupa, definir a linha dos personagens, fazer o elenco. Eles gastam fortunas imensas nos primeiros capítulos. Me sentei para assistir, veio o "Jornal Nacional" e no próprio jornal eles avisaram que a novela estava proibida e que não iria para o ar. O Ministro Armando Falcão, aquele nada a declarar, proibiu!

E tiveram de fazer outra novela a toque de caixa.
Aí puseram um filme e, no dia seguinte, teve uma grande reunião na sala do Boni, com todo o elenco. Isso é definitivo para a história da telenovela e da cultura brasileira. O Boni diz: 'Olha, vocês devem ler o contrato de vocês, porque mediante o motivo de força maior, a organização despede a todos por justa causa, estão todos na rua'. O elenco inteiro, coisa difícil né? 'A não ser que vocês me aprontem uma novela em quinze dias. Está aí a Janete Clair que vai dizer se tem ou não tem novela. O Dias Gomes, não quer mais saber, saiu fora'. Porque os primeiros capítulos eram do Dias Gomes. Aí a Janete diz: 'Olha, eu tenho uma novela de rádio, tem que ser com esse elenco. Tem papel para dois homens, pode ser o Lima Duarte e o Chico Cuoco, que eram os dois homens da novela proibida. Tem papel para Betty Faria, que é Porcina, e para todos os outros Otávio Luiz, Ary Fontoura, Aramando Bogus'. Tinha um papel para cada um. Cabe-nos fazer em quinze dias uma novela, aí nós nos comprometemos, porque estava todo mundo na rua. Fizeram um apanhado de "O Bem Amado" em 15 capítulos enquanto preparávamos "Pecado Capital". E aí fizemos o 'Pecado Capital' com o elenco original de "Roque Santeiro", Chico Cuoco, era o motorista.

E foi um sucesso tão grande que ganhou até remake.
Grande. Estão vendendo hoje, está muito bem vendido o " Pecado Capital". A turma inventa que meu personagem é o Sean Connery, porque eu estou sempre cara de galã. Era um fascista. Então a turma dizia: 'É o Dias Gomes que está escrevendo, porque ele foi proibido na outra. Ele está escrevendo essa e tem o fascismo. É a denúncia do fascismo do governo'. Tinha esses lances aí. O fato é que, dez anos depois, o sucesso de "Pecado Capital", todo mundo adorava. Sabe quem era um dos maiores telespectadores de " Pecado Capital"? O Caetano Veloso que falava: 'Que novela maravilhosa, aquelas músicas'. Era sucesso. E eu casei com a Betty Faria também. Eu ganhei no Sassá Mutema e eu ganhei também no Salviano Lisboa. Eu tive o meu tempo rapaz, agora não dá para ganhar de mais ninguém, só do Cláudio Marzo.

E quando liberaram "Roque Santeiro", como foi?
Aí o Aguinaldo Silva assumiu e fez a novela até o fim. Mas foi um sucesso tão grande. Tinha 100% de audiência, 90%, essas loucuras. O Dias não concordou com o final do Aguinaldo, porque ele tinha coisas recorrentes do Aguinaldo. Isso de a mulher vencer, de aquele Senhorzinho Malta ser um canalha, um macho brasileiro.

Você deve ser o funcionário mais antigo da Globo.
Mais velhos que eu só tem o Tarcísio Meira, a Gloria Menezes, Regina Duarte, Susana Vieira e Renata Sorrah.

A Renata Sorrah está há mais tempo na Globo que você?
Grande Renata. A gente gravou "Pedra Sobre Pedra" juntos. Mas que fúria a gente pôs naqueles personagens. Olha, eu me comovo, vou às lágrimas. As nossas cenas de amor eram uma fúria.

Como é que você vê esse movimento de agora, de alguns nomes estarem se aposentando? A Globo está aposentando alguns diretores e alguns executivos. Atores têm trabalho a vida inteira, porque vai ter sempre personagem para todo o tipo. Mas você fica triste quando você vê os amigos sendo aposentados?
Ah, não. Eu acho natural, passou. Eu acho que o comércio e as jogadas, sempre magoam e sempre ferem. Tenho me preparado para esse momento.

Momento da aposentadoria?
É, para que me digam ou que olhem para mim como uma pessoa que passou. Um artista que passou.

Duvido que isso aconteça.
Não me preocupa tanto. O Boni me convidou para ir no Carnaval sair na Beija-flor de Nilópolis em um carro dedicado a ele. Fui lá, mas foi a última escola. Saiu às sete da manhã. Estávamos sentados em um banco Moacyr Franco, eu, Tarcísio Meira e o Renato Aragão. Aquele desfiles de ego por ali, nos camarotes. E a gente assistindo meio cansado. E o Renato, muito magoado. Uma hora, eu fiquei bem impaciente e falei para ele:

Acabou. Vem gente atrás, e a gente tem que dar o lugar. Eles mandaram a Xuxa embora, não vai mandar você e eu?

Aí ele ficou muito chateado, ficou doente uma semana. A gente deve estar preparado para esse momento. É difícil, é muito difícil, a vida é difícil, o fim da vida é muito difícil, mas ocorre e você tem que enfrentar. É o que eu estou fazendo. Vivo lá no sítio, gosto muito, tenho um modo de viver muito bom. Gosto muito de certas coisas que selecionam para mim, para minha vida e vou fazendo aí, mais ou menos o que a Globo me pede.

Eu já recusei aí três novelas e vou recusar mais. Se vier chatice, vou recusar mais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL