Roberto Sadovski

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Opinião

'Napoleão' é drama histórico que combina cinema épico e pressa narrativa

"Napoleão", biografia grandiosa do imperador francês dirigida por Ridley Scott, começa com Maria Antonieta conduzida para a guilhotina. É o começo da Revolução Francesa e o país vive um misto de ódio e euforia, de incerteza e esperança. Na multidão, um militar ambicioso, Napoleão Bonaparte, observa o cortejo macabro.

A história nos conta que Napoleão jamais esteve na Praça da Concórdia testemunhando a rainha deposta ser separada de sua cabeça. O futuro regente da França também não disparou tiros de canhão contra as pirâmides no Egito. E certamente, ao contrário da frase que enfeita o pôster do filme, ele não "veio do nada e conquistou tudo".

Não que Ridley Scott tenha a menor preocupação com exatidão histórica — por sinal, nem deveria! "Napoleão", apesar do verniz empolado subentendido com filmes "baseados em eventos reais", não é um documentário. É uma ficção, uma dramatização que procura, dentro dos limites do cinema de entretenimento, retratar a ascensão e a queda de uma das figuras mais emblemáticas da história.

Acima de tudo, é uma produção de US$ 200 milhões com a clara assinatura de seu diretor — para o bem e para o mal. Virando a esquina para completar 86 anos, Scott é uma máquina. Foram sete filmes lançados na última década, produções complexas que, em mãos menos experientes, levariam alguns anos para sair da gaveta. O diretor inglês, por sua vez, rodou "Napoleão" em absurdos 62 dias. Martin Scorsese, em uma comparação tosca, filmou "Assassinos da Lua das Flores" em 100 dias.

A velocidade aparentemente tem um custo, e muitos dos trabalhos de Ridley Scott não trazem a paixão que ele injeta em outros. Para cada banquete conceitual, narrativo e visual como "Gladiador" e "Falcão Negro em Perigo", sobra o fast food de um "Robin Hood" ou "Casa Gucci". Scott faz do cinema um espetáculo, mas por vezes está só marcando uma lista de coisas para colocar em cena.

"Napoleão" estaciona entre seus dois "modos de batalha". É um épico em grande escala, ancorado por uma produção nunca menos que arrebatadora. As batalhas, que ilustram os trailers com eficiência, são impressionantes e absurdamente bem filmadas — a chegada de um combalido exército francês em Moscou é assombrosa e inquietante. Mas o diretor nunca parece estar emocionalmente investido, e isso reflete em uma linha narrativa derivada de risco.

O roteiro de David Scarpa, que colaborou com Scott em "Todo o Dinheiro do Mundo" e é responsável pelo texto de "Gladiador 2", busca amarrar os feitos militares de Napoleão (Joaquin Phoenix, perfeito como sempre), vitórias que o levaram ao trono da França, com seu relacionamento turbulento com Josefina (Vanessa Kirby, cada vez melhor). É uma opção que humaniza os protagonistas com um certo senso de humor, mostrando que até homens poderosos se comportam como bobos da corte ao não saber lidar com seus sentimentos.

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Vanessa Kirby e Joaquin Phoenix em 'Napoleão'
Vanessa Kirby e Joaquin Phoenix em 'Napoleão' Imagem: Sony

O que falta, contudo, é um diálogo entre Napoleão, o homem apaixonado, com Napoleão, o estrategista militar brilhante. Existe um conflito quando o tom mais leve do primeiro entra em choque com a postura solene do segundo. Nessa entrelinha, o filme sofre quando a transição entre as cenas surge apressada e, por vezes, pouco coerente.

Não é ao acaso. O primeiro corte de "Napoleão" tinha pouco mais de 4 horas de duração — essa versão deve ser lançada quando o filme for para a plataforma de streaming Apple TV+. Ao editar seu épico para 2 horas e 38 minutos na versão para o cinema, o diretor deixou de fora um recorte da vida de Josefina antes de ela conhecer Napoleão, além de um contexto mais sólido na vida do Imperador entre suas conquistas. Vale lembrar que a versão do diretor de "Cruzada", de 2005, é uma obra-prima que empalidece o corte confuso e atropelado lançado nos cinemas.

Ridley Scott e Joaquin Phoenix no campo de batala de 'Napoleão'
Ridley Scott e Joaquin Phoenix no campo de batala de 'Napoleão' Imagem: Sony

Mesmo com tantos poréns, "Napoleão" ainda é um evento cinematográfico perfeito para ser consumido no cinema com a maior tela possível. É o tipo de filme cada vez mais raro, que sobrevive no talento de poucos artistas capazes de comandar uma produção tão suntuosa. Ridley Scott reconhece obviamente a força histórica de um personagem como Napoleão e faz uma escolha consciente em criar entretenimento, e não uma palestra.

A ausência da complexidade política da vida de Napoleão e do peso dos sacrifícios que ele fez para se perpetuar no poder, podem frear o entusiasmo pelo filme. Contudo, são pecados compensados em fagulhas de humanidade que brilham em figuras dos livros de história — o que não é difícil quando Joaquin Phoenix e Vanessa Kirby trazem o seu melhor — e pelo deleite em testemunhar que o cinema, nas mãos certas, ainda é o maior espetáculo da Terra.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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