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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'King Richard': Will Smith entra na corrida do Oscar em drama motivacional

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/12/2021 04h00

Richard Williams era um homem com um plano. Ele determinou, em um tratado de 85 páginas, que duas de suas filhas, Venus e Serena, seriam campeãs mundiais de tênis. Isso antes mesmo de elas nascerem! "Você tem o próximo Michael Jordan em suas mãos", ele ouve, lá pelo meio do filme, respondendo na lata: "Não, mano. Eu tenho os dois próximos".

Arrogante, ainda que determinado. Dedicado à família, mas carregando ao mesmo tempo um caminhão de defeitos. Interpretar Richard Williams é jogar uma isca apetitosa no oceano que é a temporada de premiações do cinemão ianque, culminando em uma certa estatueta dourada. Ao encabeçar a cinebiografia "King Richard", Will Smith mostra que também é um homem com um plano.

Um dos últimos astros de Hollywood genuínos, Smith sempre mostrou habilidade em equilibrar os candidatos a arrasa quarteirão que recheiam sua conta bancária com filmes mais modestos, nos quais ele exercita seus músculos dramáticos. Por duas vezes ele foi indicado ao Oscar, duas vezes interpretando pessoas de verdade: primeiro em "Ali", que Michael Mann rodou em 2001, e depois em "À Procura da Felicidade", de 2006.

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Richard Williams (Will Smith" leva as irmãs Venus e Serena para o treino
Imagem: Warner

Talvez a terceira tentativa seja o seu momento com a estatueta dourada. "King Richard" certamente traz os predicados que os membros da Academia geralmente buscam. É um personagem complexo e controverso, materializado por uma performance feroz de Smith, que se despe de sua persona carismática habitual para habitar um personagem nem sempre simpático.

"King Richard" traz um olhar pontual e eficiente acerca do "sonho americano", embalado num pacote de raça, classe, esporte e culto à celebridade. Embora do lado de cá as estrelas dessa história sejam Venus e Serena, faz mais sentido dramático concentrar a narrativa em seu pai, um homem que caminhava na linha tênue entre arrogância e sabedoria e as colocou no caminho para a glória.

Se existe um obstáculo no caminho do astro, porém, ele é o próprio filme. Dirigido por Reinaldo Marcus Green, "King Richard" tenta, nem sempre com sucesso, evitar as convenções tanto do drama familiar quanto das biografias esportivas. Temos aqui conflitos matrimoniais, discursos edificantes, momentos em que tudo parece perdido e o triunfo consagrador que arranca aplausos e lágrimas.

Green é um diretor habilidoso, que trafega por entre os lugares comuns sem render-se ao sentimentalismo. Existe, porém, um esforço claro para não pesar a mão com seu biografado, deixando o filme mais palatável e com uma estrutura mais convencional, facilitando sua digestão mesmo com quase duas horas e meia de metragem. É mais um programa edificante para ver com a família e menos um recorte histórico com sangue nos olhos.

O truque foi eliminar boa parte da vida pregressa de Richard, que tinha ex-mulher e cinco filhos quando conheceu Brandy Price (Aunjanue Ellis). O filme concentra-se na rotina do casal e sua prole quando viviam no Compton, pedaço de Los Angeles longe do glamour de Hollywood. É lá que ele começa a treinar as filhas nas quadras de tênis comunitárias, ao mesmo tempo que assume a criação das outras três filhas que Brandy tinha de um casamento anterior.

A jornada de Richard para romper as barreiras financeiras e raciais, fazendo com que a habilidade das irmãs seja vista fora de sua esfera, forma o centro de "King Richard". Quando a trama ameaça subir num púlpito e abraçar sua vocação como vídeo insuportável de coaching, em especial nos momentos que antecedem a partida final - a primeira que Venus, aos 14 anos, disputou como profissional -, Will Smith a devolve com firmeza para o chão.

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Certeza que, nesse momento, Will Smith estava pensando em seu discurso no Oscar
Imagem: Warner

Foi exatamente esse o momento em que Richard entendeu, enquanto exercia sua educação rigorosa às filhas, mantendo-as longe da enorme pressão do circuito competitivo do tênis, que também precisava ceder. Político, ele enxergou que campeãs precisam, além de treino rigoroso e da proteção dos pais, enfrentar um fragmento do mundo real, com percalços e frustrações, para valorizar suas vitórias.

Will Smith também entende que o jogo do qual faz parte não depende só de seu esforço como ator, quando as câmeras estão rodando. A disputa pelo Oscar também adiciona fatores como uma campanha atraente e de conquistar a simpatia de seus pares.

Não foi ao acaso que Will tirou grana do próprio bolso para compensar colegas de elenco e da equipe, prejudicados pela pandemia do Covid e pelo lançamento do filme simultaneamente nos cinemas e na HBO Max nos Estados Unidos. Foi um gesto tão honesto quanto político. Quando as luzes acendem e sobem os créditos, são ações que não atrapalham suas chances de finalmente sagrar-se vencedor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL