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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'O Último Mercenário' traz Van Damme no caminho da redenção (que não rola)

Jean-Claude Van Damme em "O Último Mercenário" - Netflix
Jean-Claude Van Damme em 'O Último Mercenário' Imagem: Netflix
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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

12/08/2021 19h05

Jean-Claude Van Damme é uma figura fascinante. Astro embrionário nos anos 1990, ele nunca conseguiu o lugar almejado entre os ícones fortões do cinema. Começou na podreira da produtora Cannon, teve meia dúzia de anos de glória encabeçando filmes para os grandes estúdios e finalmente desapareceu no abismo das produções de baixíssimo orçamento que alimentam o mercado audiovisual longe dos cinemas.

Corta para 2021, quando a pandemia global consolidou justamente a indústria cinematográfica alojada no sofá da sala. O streaming se tornou opção número um de entretenimento, e seria até lógico esperar que um ícone dos filmes "direto para vídeo" buscaria consolidar o novo nicho. "O Último Mercenário", lançado em todo o planeta pela Netflix, seria seu novo cartão de visitas. Não funciona, por óbvio. Mas a resiliência do "músculo de Bruxelas" é admirável.

Antes de mais nada, o filme. Produzido para a Netflix francesa, "O Último Mercenário" foi alardeado por seu diretor e roteirista David Charhon como "um retorno à tradição dos filmes de ação dos anos 1980 e 1990", época que ele define como uma "era de ouro sem paralelos" do cinema. Errou feio, errou rude.

jean claude peruca - Netflix - Netflix
Jean-Claude Van Damme. De peruda. É esse o tweet
Imagem: Netflix

A ideia era criar uma mistura de ação e comédia, praia de Jackie Chan, mas algo que Van Damme nunca arriscara antes. Você ser um sujeito engraçado no almoço de domingão da tia Maricota, afinal, não garante que o senso de humor seja traduzido em filme. Algo que Sylvester Stallone ("Oscar - Minha Filha Quer Casar", "Pare! Senão Mamãe Atira") descobriu da pior maneira.

Van Damme é um super agente do serviço secreto, auto exilado há décadas, que agora é forçado a voltar ao jogo quando seu filho, que sequer desconfia de sua existência, é acusado de ser um traficante de armas. Na mistura entram burocratas apalermados, assassinos incompetentes e coadjuvantes que eu custei para lembrar o nome (olá, Valérie Kaprisky).

Não há muito que se animar em "O Último Mercenário". A trama não faz lá muito sentido, e o clima farsesco abrevia o impacto das cenas de ação. Essas, por sinal, mostram que a idade alcançou nosso astro. Aos 60 anos, Van Damme ainda arrisca um espacate, mas as lutas são frouxas. Não ajuda também o resto do (péssimo) elenco se portar como se estivesse em um filme dos Trapalhões - o que NÃO é elogio.

Existe muita boa vontade com Jean-Claude Van Damme por um tipo de órfão do cinema dos anos 1980. É a turma que vibrou quando ele surgiu como herói em "O Grande Dragão Branco" e aplaudiu pérolas trash como "Cyborg", "Kickboxer" e "Lionheart". Depois do sucesso de "Soldado Universal", seu primeiro filme para um grande estúdio, Van Damme assinou um contrato com a Columbia e buscou solidificar seu nome como herdeiro menos bombado e mais bonitão de Schwarzenegger e Stallone.

Foi seu auge em Hollywood. Depois do drama "Vencer ou Morrer" (inspirado em, acredite, "Os Brutos Também Amam"), ele enfileirou uma filmografia irregular, de trabalhos bacanas ("TimeCop", "Morte Súbita") a desastres épicos ("Street Fighter", "A Colônia"). Contribuiu também para importar diretores de Honk Kong, trazendo John Woo no comando de "O Alvo", até hoje seu melhor filme.

Quando "Soldado Universal - O Retorno" foi lançado em 1999, Van Damme já não era novidade e nem garantia de boas bilheterias. O cinema de ação do novo milênio não tinha mais espaço para o "exército de um homem só", o que somado a seus problemas nos bastidores, em especial com o vício em cocaína adquirido durante a produção de "O Alvo", fizeram com que Hollywood lhe virasse as costas.

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Jean-Claude mata a cobra em 'O Alvo'. Sò mata a cobra. Abusado
Imagem: Universal

Nessa "nova fase", Van Damme partiu para a Ásia e Europa em busca de financiamento para filmes que passavam reto pelo lançamento em cinema, encontrando espaço no vasto e menos exigente mercado de produções lançadas direto em vídeo. Não existe quase nada digno de nota nessa fase, e Van Damme aos poucos envelheceu longe do olhar do público, ressentido de seus tempos de glória.

De vez em quando pintavam trabalhos que mereciam alguma menção. "JCVD", de 2008, trouxe uma versão ficcionalizada do astro, refletindo sobre suas escolhas de vida e carreira enquanto participa involuntariamente de um. Talvez esteja aqui seu melhor trabalho como ator.

Já a série "Jean-Claude Van Johnson", que a Amazon exibiu em uma única temporada em 2018, elabora um cenário em que a imagem do astro de cinema não passaria de fachada para sua verdadeira ocupação, a de agente secreto. Parece que Van Damme se dá melhor ao tirar sarro de si mesmo.

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JCVD brinca de ser ele mesmo em 'JCVD'
Imagem: Imagem

Em 2001, eu entrevistei o ator uma única vez, e foi uma situação... inusitada. No Brasil para lançar a ficção científica "Replicante", Van Damme agendou o papo para um sábado, que foi empurrado para a manhã do domingo. Já no hotel, fui informado que ele estaria indisposto (caiu na farra na noite anterior) e tinha compromisso com o programa do Gugu no SBT (em que ele dançou com Gretchen e teve uma reação física, digamos, demasiado humana).

Na noite do domingo, eis que Jean-Claude Van Damme me recebeu na suíte presidencial. Apresentações feitas, ele fez uma piada em flamengo com meu nome, quebramos o gelo. Liguei o gravador, perguntei o que o conectava a diretores chineses como John Woo, Ringo Lam e Tsui Hark, e a resposta foi um lacônico "Todos nós gostamos de arroz". Silêncio.

Desliguei o gravador e disse que, às 10 da noite de um domingo, estávamos todos cansados e tudo bem se ele não estivesse mais a fim de papear. Mais silêncio. Van Damme olhou para o empresário, soltou um "Gostei desse cara" e o papo continuou madrugada adentro, com ele me mostrando trechos do então inédito "A Irmandade", em que ele trabalhou com o lendário Charlton Heston.

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Van Damme à frente do elenco ma-ra-vi-lho-so de 'O Último Mercenário'
Imagem: Netflix

Eu estava genuinamente empolgado com "O Último Mercenário". Jean-Claude Van Damme conheceu as montanhas e os vales da fama como astro de cinema, e é um sujeito fácil de gostar em cena. Esse momento, em que o mundo ainda segue cauteloso em casa, parecia ideal para uma reinvenção.

Mas não foi dessa vez. Talvez ele tenha mais ideias para discutir com a Netflix, ou outra plataforma de streaming, e desse caldeirão surja um filme mais redondo, mais talhado para seu charme e seu estilo. Todo mundo gosta de uma história de superação, contanto que ela termine com um final feliz. Ou, no caso de Jean-Claude Van Damme, com um filme que não seja uma tremenda bobagem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL