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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Um Lugar Silencioso 2' é sólido mas sofre de síndrome de filme do meio

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

22/07/2021 19h12

A cena de abertura de "Um Lugar Silencioso - Parte II" é arrasadora. A paz de uma cidadezinha tranquila no interior dos Estados Unidos é estilhaçada com violência com a chegada de invasores alienígenas com os quais é impossível usar de lógica ou razão. Caos e destruição são sua linguagem. É correr ou morrer, e é isso que faz a família encabeçada por Lee e Evelyn Abbott (John Krasinski e Emily Blunt).

São doze minutos absolutamente brilhantes, que imediatamente recuperam o clima de desespero do filme anterior, uma produção modesta que faturou surpreendentes US$ 340 milhões em 2018. E também mostram que o ator John Krasinski, aqui em seu terceiro trabalho atrás das câmeras, em cena somente no flashback de abertura, é um cineasta talentoso que sugere um voo alto e constante.

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Millicent Simmonds, excepcional agora como protagonista
Imagem: Paramount

A excelência do ato inicial é também o calcanhar de Aquiles deste novo filme. Ao longo de pouco mais de uma hora e meia, Krasinski corre atrás do próprio rabo, mas não consegue superar a si próprio. O fato de ele chegar perto, entretanto, já configura um grande acerto.

Afinal, o que o segundo "Um Lugar Silencioso" perde em originalidade, ele compensa com artesanato cinematográfico sólido em uma história que aponta novos caminhos, mesmo que ainda não estique o pé para desbravá-los, entrecortada com momentos de absoluto pânico.

A trama começa imediatamente após os eventos do filme anterior. Evelyn, com seu recém-nascido em mãos, deixa sua fazenda destruída pelos alienígenas, levando consigo seus outros dois filhos, Regan (Millicent Simmonds, mais uma vez um excepcional) e Noah (Marcus Abbott), e o conhecimento de como incapacitar e eliminar os alienígenas. Eles buscam abrigo nas ruínas onde mora Emmett (Cillian Murphy), amigo de antes do fim do mundo, amargurado pela perda da mulher e filhos.

Krasinski, que também assina o roteiro, amplia o escopo do mundo apresentado no filme anterior, mesmo que não traga a preocupação em desenvolver essas ramificações. A história desta vez concentra-se em Regan, que parte sozinha em busca da fonte de uma transmissão de rádio que pode apontar não apenas outros sobreviventes, mas também ferramentas para espalhar a fraqueza dos invasores.

A surpresa, no caso, deixa de ser um fator. Descobrimos na produção de 2018 que os aliens do mal guiam-se pelo som, e são suscetíveis a frequências mais agudas - a exposição a este zumbido, reproduzido pelo aparelho auditivo de Regan, os imobiliza e abre espaço para que eles possam ser destruídos.

Em vez de desenrolar um mistério, portanto, "Um Lugar Silencioso - Parte II" surge como um road movie, uma jornada por uma terra desolada ao melhor estilo "The Walking Dead", perpetrada por Regan e por um hesitante Emmett (Cillian Murphy entrega um personagem correto, mesmo que não tenha o carisma de Krasinski como protagonista).

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Cillian Murphy ajuda Millicent Simmonds em sua jornada
Imagem: Paramount

Ao mesmo tempo, o texto arquiteta novas ameaças para Evelyn e Noah. Deixados para trás, eles também precisam lidar com o avanço dos visitantes em seu novo abrigo. Mesmo que não exista função narrativa para esse recorte do filme, é um exercício de tensão e medo que Krasinski entrega com habilidade, ancorado pelo trabalho grandioso de Emily Blunt.

Os novos elementos apresentados em "Um Lugar Silencioso - Parte II" apontam os novos perigos deste mundo, mesmo com a decisão consciência de, por ora, não os desenvolver. A certa altura, por exemplo, Emmett diz que os invasores não são a única ameaça enfrentada pelos sobreviventes.

Para quem é escolado em fantasias pós-apocalípticas, fica claro que, enquanto alguns buscam se unir para buscar uma nova forma de civilização, outros apostam na barbárie e na força para cravar seu lugar no topo da cadeia alimentar.

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O diretor John Krasinski visualiza uma cena do segundo 'Um Lugar Silencioso'
Imagem: Paramount

Embora Krasinski apresente personagens reduzidos a instintos primais no novo filme - a sequência, em um ancoradouro, é perfeitamente assustadora -, sua opção foi ater-se à jornada de Regan. É uma decisão correta, mas não espanta a sensação de mais do mesmo. Quando o "mesmo", porém, é um conceito de terror original e eficiente, conduzido com total habilidade, não há do que reclamar.

"Um Lugar Silencioso - Parte II" termina, portanto, como um projeto sólido, mesmo que traga a sensação de filme do meio. Uma continuação já está agendada para março de 2023, com o comando passado para Jeff Nichols, diretor de "O Abrigo" e "Amor Bandido". Será dele a função de esticar as pontas sugeridas por John Krasinski, que transformou uma ideia modesta e original em uma nova série milionária. Às vezes o raio fechado na garrafa tem como som o mais absoluto silêncio.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL