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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pior que o original, novo 'Space Jam' é mera peça publicitária do estúdio

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

15/07/2021 20h21

Trago verdades: "Space Jam: O Jogo do Século", de 1996, é um filme bem ruim. Funciona para crianças muito pequenas, que se empolgam com o colorido dos personagens da série "Looney Tunes", mas é um martírio para quem já abandonou os dentes de leite.

O tempo se encarregou de passar um verniz cult a essa aventura com a dupla Michael Jordan e Pernalonga, mas é só entusiasmo de quem se agarra a memórias afetivas como Rose flutuando em uma porta de madeira. A má notícia? O novo "Space Jam: Um Novo Legado" consegue ser, de todas as formas, pior que seu predecessor. Um feito e tanto!

Esse quarto de século que separa os dois filmes, na atual paisagem movida a propriedades intelectuais de Hollywood, parece até uma eternidade. Para "Space Jam" funcionar, contudo, seus realizadores precisavam de um atleta que pudesse rivalizar Jordan em talento e carisma. É aí que LeBron James entra em cena.

jam toon - Warner - Warner
LeBron james, muito mais legal em sua versão animada
Imagem: Warner

Não existe exatamente uma trama aqui, e sim uma desculpa. Fazendo uma versão fictícia de si mesmo, LeBron (que como ator é um ótimo atleta) é o paizão que mostra-se negligente com seu filho Dom (Cedric Joe), menos afeito às quadras e mais interessado em desenvolver games. Em uma visita à Warner, pai e filho são sequestrados em um mundo virtual, no melhor estilo "Tron", por maquinações de um algoritmo maligno.

A coisa aqui é literal, já que Don Cheadle interpreta essa inteligência artificial, Al. G. Ritmo (não é zoeira...), que deseja reconhecimento por sua genialidade. Para devolver Dom ao mundo real, ele desafia LeBron em uma partida de basquete, e o único time que ele consegue montar é o da Turma do Pernalonga.

Existe uma entrelinha sobre personagens clássicos abandonados por não seguir a evolução do mundo digital, mas é um suspiro que logo dá lugar à histeria. Transformado em cartoon, LeBron navega com Pernalonga por diversos mundos dentro do "servidor" da Warner e resgata os colegas desgarrados, espalhados por diferentes propriedades intelectuais.

Nesse ponto eu me perguntei quem exatamente os realizadores desse "Space Jam" tinham em mente quando fizeram o filme. Porque atolar a narrativa com referências a "Casablanca", "Matrix" ou "Mad Max: Estrada da Fúria", produções que passam longe do radar da pivetada, é olhar com muito carinho para o próprio umbigo.

Basicamente é a lógica que guia "Um Novo Legado" de ponta a ponta. É irônico que o vilão aqui seja um algoritmo, porque o filme parece escrito justamente por um colegiado de executivos empolgados que alimentaram suas sugestões em um app que regurgitou um texto publicitário disfarçado de filme - spoiler: são SEIS os roteiristas creditados.

Exagero? Então vem comigo. Na jornada de LeBron (sua versão desenho é até legal) e Pernalonga, passamos pelo mundo de Harry Potter, encontramos a Liga da Justiça (a do desenho animado de traço bacana, não a de Zack Snyder), voamos em dragões de "Game of Thrones" e entramos numa disputa em Themyscira, a ilha da Mulher-Maravilha, que só nos lembra o quanto "WW84" foi horrível.

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Dom e Don: Cedric Joe é o filho de LeBron, manipulado pelo vilão Don Cheadle
Imagem: Warner

Quando a equipe finalmente é reunida e o jogo começa, com LeBron humano de novo e a turma em versões tridimensionais esquisitas, o festival de distrações é elevado ao máximo. A partida se dá em uma arena virtual, e o público é formado por praticamente todos os personagens do catálogo da Warner. Com uma trama escorregando para a pieguice do fortalecimento dos laços de pai e filho, fica impossível não prestar atenção em qualquer outra coisa, como o oceano de personagens acotovelados, bradando como hooligans.

É um verdadeiro "Onde Está Wally?" de propriedades intelectuais. De Alex e seus droogs de "Laranja Mecânica" (boa sorte em explicar quem são aqueles aos pequenos) a King Kong, passando pelos Herculoides e por White Walkers de "Game of Thrones", ninguém fica de fora. É como se o jogo fosse disputado em uma convenção de quadrinhos, com uma plateia de cosplayers histéricos depois de muito refrigerante. Desafio qualquer um a não ter pesadelos com o sujeito onipresente fantasiado de Arnold Schwarzenegger fantasiado de Mr. Freeze. Brrr...

"Space Jam: Um Novo Legado" existe unicamente para cumprir seu propósito como peça publicitária. Com o empurrão da "marca" LeBron James, deve atrair fãs fora da esfera de filmes e séries e, quem sabe, atrair novos consumidores.

E, como peça publicitária, é também enfadonho e frio, com personagens rasos e emoções artificiais. Material perfeito para apresentar a agências em alguma campanha para bombar o vasto e excepcional material do estúdio. Mas, como filme? É uma total perda de tempo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL