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Roberto Sadovski

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Terminator 2': a maior revolução de efeitos especiais completa 30 anos

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Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

02/07/2021 18h26

Arnold Schwarzenegger, na pele de seu personagem definitivo, o ciborgue T-800, explode o caminhão que perseguia o jovem John Connor. Do inferno em chamas, surge uma figura humana, cromada, que dá alguns passos antes de ganhar as feições de Robert Patrick, estoico como a máquina assassina feita de metal líquido, o T-1000.

Já se vão 30 anos desde que James Cameron materializou suas ideias mais radicais em 'O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final" - ou simplesmente "T2" -, um dos filmes mais impressionantes da história do cinema. A aventura não apenas fez de Schwarzenegger o maior astro do mundo, como também extrapolou todos os limites do que era possível criar em um espetáculo cinematográfico.

t2 abre - Reprodução - Reprodução
Arnold Schwarzenegger e Edward Furlong em 'O Exterminador do Futuro 2'
Imagem: Reprodução

Essa revolução começou, claro, em 1984, quando Cameron peitou a indústria e dirigiu "O Exterminador do Futuro". Schwarzenegger, empurrado pelo estúdio para ser o herói da trama, encontrou conforto no papel do vilão, a máquina assassina enviada do futuro para matar Sarah Connor, que seria futuramente a mãe do líder da resistência humana.

O filme não só disparou a carreira do diretor, mas também trouxe para o mainstream ideias que fãs de ficção científica haviam saboreado em textos de Harlan Ellison e Ray Bradbury. A salada funcionou, mas dentro de um orçamento pífio. Muitas coisas na mente de Cameron terminaram na gaveta pela completa impossibilidade de ser executadas.

Em 1991, já com "Aliens, o Resgate" e "O Segredo do Abismo" no currículo, Cameron retomou a saga pós apocalíptica com uma missão aparentemente impossível: transformar o vilão em herói. Com auxílio de William Wisher no roteiro, "T2" foi anabolizado com uma injeção de dólares nunca vista - primeiro filme a custar mais de US$ 100 milhões - e conseguiu materializar todas as visões do diretor.

Desta vez, o T-800 volta no tempo como protetor de John Connor (Edward Furlong), pré adolescente rebelde por ter passado anos ao lado de sua mãe, Sarah (a incrível Linda Hamilton), única a saber sobre o futuro sombrio que a humanidade experimentaria em 1997. De garçonete frágil no primeiro filme ela passou a guerreira casca grossa, disposta a proteger e ensinar seu filho sobre seu papel no futuro.

O filme encontra Sarah encarcerada e John exposto, um alvo fácil para outro ciborgue assassino enviada pela Skynet no futuro. Ao contrário do personagem de Schwarza, o T-1000 não ganhou intérprete fisicamente robusto. O trabalho de Robert Patrick, porém, construiu uma ameaça ainda mais assustadora, uma máquina ainda mais implacável. Feito de metal líquido, ele consegue mudar de forma e é imune a tiros e explosões. Um perseguidor implacável.

A criação do T-1000 exigiu trabalho incansável da Industrial Light & Magic. Seus técnicos extrapolaram os efeitos digitais ensaiados em "Willow" e em "O Segredo do Abismo" para fazer do vilão uma criação digital impressionante. Quando combinado com praticamente todas as técnicas de efeitos especiais então disponíveis, o resultado foi arrasador.

t2 t1000 - Reprodução - Reprodução
E assim, com um ciborgue de metal líquido emergindo das chamas, 'T2' fez história
Imagem: Reprodução

Tanto que determinou todo o futuro do cinema. Efeitos digitais, com a explosão de "T2", tornaram-se mais e mais populares, com cineastas em uma divertida corrida silenciosa para ver quem conseguia arrancar mais aplausos da plateia. Steven Spielberg elevou o jogo em 1993 com "Jurassic Park", com as irmãs Wachowski promovendo mais uma revolução em 1999 com "Matrix" e, em 2001, Peter Jackson reescreveu o conceito de "criação de mundo" em "O Senhor dos Anéis".

Se ainda hoje é impressionante assistir à perfeição técnica e narrativa de "T2", trinta anos atrás foi uma revelação. O filme, maior bilheteria global em 1991, tornou-se um fenômeno pop semelhante ao barulho que "Batman" fizera dois anos antes. Ninguém ficou de fora da expectativa em ir ao cinema e descobrir em primeira mão um novo mundo nascendo a olhos vistos.

Eu me lembro de minha sessão de "T2" em um cinema lotado em 1991. Cada nova cena era acompanhada de um novo assombro coletivo. Poucas vezes nessas três décadas essa sensação de descoberta compartilhada em uma sala escura se repetiu - e ela sempre é especial. É disso que o cinema é feito!

t2 sarah - Reprodução - Reprodução
Linda Hamilton como Sarah Connor, uma das maiores heroinas do cinema
Imagem: Reprodução

James Cameron, por sua vez, seguiu sua jornada de inovações na arte de fazer cinema. Ele retomou a parceria com Schwarzenegger em 1994 no igualmente impactante "True Lies", e novamente buscou novas tecnologias para recriar de maneira emocionante um dos maiores desastres da humanidade com o drama romântico "Titanic". "Avatar", de 2009, foi sua última incursão como diretor, mas ele retorna ano que vem ao mundo de Pandora para, mais uma vez, mudar o cinema.

Enquanto isso, o melhor é celebrar seus triunfos. A minha versão favorita de "T2" não e a exibida no cinema, e sim a edição especial que recupera algumas cenas que ficaram na sala de montagem. Não é nada que altere a trama de forma significativa, mas uma cena em particular não traz nenhuma trucagem digital e mostra o imenso talento de Cameron como realizador.

É o momento em que Sarah Connor e John desativam o T-800 para dar um reset em seu software, desativando travas de aprendizado impostas pela Skynet. Na cena, Schwarzenegger tem seu crânio metálico aberto e o chip de controle removido - tudo executado em uma sequencia sem cortes, com os protagonistas em frente a um espelho.

A trucagem funciona com a direção perfeita de Cameron, a coreografia dos atores e o auxílio providencial da irmã gêmea de Linda Hamilton, surgindo como sua imagem no espelho. Os melhores efeitos especiais ainda são aqueles que o olho não consegue captar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL