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Roberto Sadovski

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Paul Anderson: 'Monster Hunter', streaming e o sofrimento de Milla Jovovich

Paul W.S. Anderson dirige Tony Jaa e Milla Jovovich em "Monster Hunter" - Sony
Paul W.S. Anderson dirige Tony Jaa e Milla Jovovich em 'Monster Hunter' Imagem: Sony
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

04/05/2021 04h08

"Resident Evil" é minha série de filmes ruins preferida. Tenho total consciência que a coisa toda é bem magra de qualidades cinematográficas, mas existe um certo charme trash que deixa essa adaptação de videogames irresistível.

O grande culpado é, claro, o diretor Paul W.S. Anderson. Responsável pela condução de toda a "saga" - e diretor de quatro dos seis filmes -, ele se tornou uma espécie de sumidade quando o assunto é levar jogos para o cinema.

Foi Anderson quem dirigiu "Mortal Kombat" em 1995 e mostrou que uma propriedade intelectual do mundo dos games podia faturar uns trocados no cinema. Em meio a avalanche de "Resident Evil" ele ainda fez "Alien vs. Predador" (igualmente cafona) e, agora, "Monster Hunter".

Se o mundo não dá muita bola para o cinema pop de Anderson, ele não tem o que reclamar. Foi em "Resident Evil" que ele conheceu a atriz Milla Jovovich, protagonista da série com quem ele se casou. Milla também trabalhou com o marido em "Os Três Mosqueteiros" (esse é imperdoável em sua picaretagem) e, agora, em "Monster Hunter".

Eu falei sobre o filme, que adapta uma série de jogos de sucesso, quando ele chegou aos cinemas alguns meses atrás, e agora está disponível em streaming nas plataformas de video on demand. "Monster Hunter" foi uma das poucas grandes produções a arriscar um lançamento em meio ao isolamento social global causado pela pandemia, fechando sua carreira com US$ 40 milhões em caixa.

Quando a poeira sossegou, conversei com Paul W.S. Anderson sobre o cinema em meio ao caos, como ele escolhe seus projetos (coincidentemente, muitos baseados em videogames) e o esforço físico brutal experimentado por Milla durante as filmagens. Isso é amor!

Oi, Paul. Como estão as coisas por aí em meio à pandemia?
Oi, Roberto. Pois é, foi um ano bem maluco, com certeza. Eu tenho um bebê novo, e isso coincidiu com o fato de a gente não estar indo a lugar nenhum por um ano. E eu nunca estive em casa por um ano, e confesso que tem sido uma bênção. Vi os primeiros passos de meu bebê, troquei muitas fraldas, tem sido ótimo.

É estranho porque vivemos em um mundo de redes sociais, e seguindo Milla no Instagram é como estar em sua casa...
Então você sabe mais sobre o que eu ando fazendo do que eu mesmo! (risos)

Uma coisa que chama atenção em "Monster Hunter" é o quanto as filmagens parecem absolutamente brutais com Milla! Ela é agredida sem parar de várias formas. Como foi a discussão para decidir o quanto seu personagem sofreria?
Sabe, eu sempre tento colocar Milla numa pior em nossos filmes. (risos) Não é surpresa nem para ela e nem para o público. Mas dessa vez eu me senti premiado porque Milla me disse depois das filmagens que "Monster Hunter" tinha sido a pior coisa que eu já fiz pra ela. (risos) As filmagens foram mesmo dificílimas, em parte porque eu queria que os monstros digitais fossem sempre que possível os únicos elementos em CGI. Não queria rodar tudo em estúdio com fundo verde e paisagens digitais. Então as criaturas precisavam estar em ambientes reais para que elas parecessem reais. Paisagens com calor, vento e poeira de verdade, mais ou menos como o jogo.

Então pesquisamos os melhores lugares para filmar, e o que acontece é que eles geralmente ficam no meio do nada (a produção instalou-se no deserto próximo à Cidade do Cabo, na África do Sul). Literalmente, estávamos a cerca de 200 quilômetros da cidade mais próxima. Existe um motivo para ninguém construir nada lá: é inóspito. Durante o dia fazia 50 graus. Em uma cena, Milla tem de deitar no chão e ela queimou os braços por ter encostado nas pedras. É como deitar num fogão. Já à noite a temperatura despencava, e tempestades sopravam nossas tendas para longe. Para os atores foi um trabalho fisicamente bem difícil, mas eles também adoraram por ser totalmente imersivo. Milla não teve de imaginar como seria o mundo de "Monster Hunter" porque ela estava vivendo nele.

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Milla Jovovich e Tony Jaa em 'Monster Hunter'
Imagem: Sony

Um aspecto interessante de "Monster Hunter" é que a ação é incessante. Você escreve personagens e situações sem abrir mão dos elementos reconhecíveis do jogo. Qual a fórmula para agradar aos fãs sem perder o apelo universal?
Uma coisa é óbvia: se o filme é "Monster Hunter", o mais importante é que os monstros fossem perfeitos. Eu fui direto à fonte. Faz onze anos que me apaixonei pelo jogo, desde que joguei pela primeira vez em Tóquio. Os monstros me chamaram muita atenção pelo design, pelo cuidado com sua criação. Então eu não queria mudar nada, queria as criaturas pelas quais me interessei. Voltei a Tóquio várias vezes para conversar com Ryozo Tsujimoto e Kaname Fujioka, produtor e diretor do jogo, para acertar todos os detalhes das criaturas. Eles foram consultores em tudo, desde o tamanho das escamas e dos dentes, até o som das criaturas e como seriam as unhas do Diablo. Seguimos à risca suas observações. Eles eram os guardiões dos portões, então se Tsujimoto-san e Fujioka-san estivessem contentes, então os fãs ficariam contentes. Eles foram muito generosos com seu tempo e com suas contribuições.

Essa é sua terceira adaptação de um videogame - ou a quarta se incluirmos "Alien vs. Predador". O que você acha tão fascinante neste mundo que o atrai de volta para construir histórias em torno deles?
Provavelmente eu faço parte da primeira geração de cineastas que cresceu jogando videogames. Sempre foi jogador, desde "Space Invaders". E quando algo faz parte de sua vida obviamente você encara como material de trabalho. Eu joguei uma quantidade absurda de games em minha vida, e se você comparar esse número com os filmes que fiz, é um percentual até pequeno. Então escolhi não só os jogos que eu gosto, mas também aqueles que poderiam inspirar um grande filme.

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O diretor Paul W.S. Anderson encara o deserto nas filmagens de 'Monster Hunter'
Imagem: Sony

Você rodou "Monster Hunter" no final de 2018, trabalhou na pós no ano seguinte e tinha uma data de lançamento cravada. Então veio a pandemia, a quarentena e todos ficamos em casa. Como foi esse processo de decidir por um lançamento nos cinemas em dezembro?
Não foi fácil. E não existe uma resposta fácil em relação ao lançamento de filmes agora. Alguns foram adiados por mais de um ano. Minha filha está em "Viúva Negra", interpretando Scarlett Johansson quando criança, e esse filme foi adiado diversas vezes (o lançamento será em cinema e no Disney+ em 9 de julho). As coisas ainda não estão claras. Enquanto alguns filmes foram adiados, outros seguiram a rota que nós seguimos, que foi um lançamento híbrido. Nos lugares do mundo em que os cinemas estivessem abertos, como na Tailândia, "Monster Hunter" seria lançado assim - e as bilheterias foram incríveis! Já em países em que os cinemas seguiram fechados, como nos Estados Unidos, abrimos a opção para video on demand, para que todos pudessem ver em casa. Muitos estúdios abraçaram esse modelo.

Foi um curativo...
Isso. Não é o que eu havia pensado quando fiz o filme, já que rodei pensando que visualmente seria incrível no Imax. Mas quando eu comecei a fazer filmes, alguém me disse algo muito esperto. Um filme é como um bolo: não importa onde a gente corte, o sabor precisa ser incrível. Eu vi "Monster Hunter" em Imax, em telas normais, na TV e também em meu iPhone. E é divertido pra cacete, não importa onde você assista!

O streaming se tornou a principal fonte de entretenimento para milhões em todo o mundo neste último ano. A gente ultrapassou o ponto sem volta, em que o público está mais confortável em casa e provavelmente será mais exigente com o tipo de filme que o tiraria de casa? Ou será que é possível voltar ao jeito que as coisas eram?
Eu acho que essa já era a direção que estávamos seguindo. Como o equipamento para ver filme em casa está cada vez melhor, as pessoas já estavam mais exigentes para sair. Ironicamente foi justamente o motivo que me levou a fazer "Monster Hunter" como uma experiência para ver no cinema, para que as pessoas se empolgassem com a experiência. Isso só vai se intensificar quando os cinemas reabrirem. A paixão para assistir a filmes no cinema não vai sumir. Mas acho que serão filmes mais adequados a essa experiência compartilhada, com tela grande e som incrível. Porque, sejamos honestos, muitos filmes não precisam desse tipo de ambiente para existir. O home entertainment só vai crescer, mas o cinema não vai acabar. Só que ele precisa ser uma experiência completa para valer a pena.