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Roberto Sadovski

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'WandaVision' e spoilers: Por que o fã de cultura pop é seu maior inimigo

Elizabeth Olsen em "WandaVision" - Marvel Studios/Courtesy of Marvel Studios
Elizabeth Olsen em 'WandaVision' Imagem: Marvel Studios/Courtesy of Marvel Studios

Colunista do UOL

10/02/2021 20h14

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Engana-se quem pensa que o texto a seguir vai demonizar spoilers e a cultura que sobrevive escarafunchando filmes e séries para "descobrir" pistas do que vem a seguir. É, afinal, uma batalha perdida. No mundo supersônico do novo século, "enxergar" segredos em cada frame de um produto audiovisual é menos a celebração de uma paixão e mais uma competição. Ganha quem sai na frente.

Spoilers, então, fazem parte do jogo. Dedicar tempo e tutano dissecando um objeto da paixão pop é o que move essa mesma paixão para muita gente. E tudo bem. O problema está em uma certa, digamos, roteirização imaginativa, que parece ser o novo esporte favorito de uma fatia de fãs de cultura pop.

O que acontece na real é a desinformação ancorada no achismo. A extrapolação de ideias que, no mundo tecido por uma turma mais radical e obcecada, precisa corresponder ao que os roteiristas de certos filmes e séries bolaram. Claro que isso não acontece na imensa maioria dos casos. O resultado é frustração, direcionada a algo que tem por objetivo o entretenimento. Não faz o menor sentido!

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O simbionte Venom NÃO ESTAVA em 'Homem-Aranha 2'
Imagem: Sony

Esse "movimento" sequer é novo, mas explodiu com a popularização das redes sociais e das ferramentas de mídia para compartilhar ideias. Em 2004, quando eu dirigia a SET, principal revista sobre cinema no Brasil, um grupo de fãs cismou que uma das últimas cenas de "Homem-Aranha 2", com o ator Daniel Gillies, de alguma forma anunciava a chegada do vilão Venom - Gillies interpretava o astronauta John Jameson e tinha zero relação com o simbionte.

De nada adiantou usar o bom senso e argumentar que isso de forma alguma fazia parte do filme, já que esses "fãs" estavam convencidos e nada os faria pensar o contrário. Essa falta de bom senso contamina um fandom tóxico em pleno 2021, que constrói narrativas absurdas como se fossem reais em busca de um clique.

No fim é um pessoal inofensivo que só prejudica a si próprios e a quem compra suas ideias. Mas é curioso observar a tonelada de teorias "certíssimas" que naufragam no momento em que o filme ou a série são lançados. Para estúdios e produtores é tudo publicidade grátis: falem bem, mal, torto e direito, mas mantenham o produto no topo das buscas.

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Paul Bettany com o traje do Visão das HQs em 'WandaVision'
Imagem: Marvel/Disney

"WandaVision" é a bola da vez no mundo pop/nerd/geek. Até por ser a obra que reiniciou o universo cinematográfico Marvel, depois de um ano de pausa por conta da pandemia que freou o mundo, a atenção é compreensível. Não deixa de ser divertido observar dúzias de "especialistas" dissecando cada fotograma da série em busca de "pistas". O problema é quando essa paixão se torna agressiva, numa corrida para determinar quem "tinha razão". O que é diversão vira guerra.

O streaming é a nova fronteira a ser desbravada, e os arquitetos do MCU foram espertos ao enxergar seu potencial narrativo. "WandaVision" começou como um mistério envolto em uma farsa - dois dos seres mais poderosos desse universo, agora "confinados" em um mundo compacto que espelha sitcoms americanas dos anos 1950 em diante. É intrigante. E agora, depois do quinto episódio (serão nove no total), a trama engata uma segunda e caminha para seu desfecho. A melhor forma de acompanhar a série? Acompanhando a série!

POP FORA DO GUETO

Essa é a parte do texto em que eu assumo minha idade com um "na minha época, as coisas não eram bem assim". E a gente também se divertia mais. Explico. Os fãs de cultura pop como conhecemos hoje passaram a sair da casca com a chegada de "Jornada nas Estrelas" na TV ianque ainda nos anos 1960.

Alguns anos depois, explodiram com "Guerra nas Estrelas". Com a máquina do entretenimento nas mãos de uma geração mais nova, a década de 1980 viu filmes de aventura e fantasia, de ficção científica e terror, saindo do gueto dos cinemas obscuros para invadir o mainstream.

Foi uma geração forjada não só com Luke Skywalker, mas também com Indiana Jones, Snake Plissken, Mad Max, Conan, E.T., o Exterminador do Futuro, Marty McFly, Rambo, Maverick, Superman e Batman. Com muita ficção científica vagabunda e com cópias de grandes sucessos que brotavam nas videolocadoras. Com revistas especializadas em cinema e TV e convenções de fãs apaixonados. Com literatura pop e uma tonelada de gibis.

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Luke Skywalker em 'O Império Contra-Ataca', base da cultura pop moderna
Imagem: LucasFilm

Acima de tudo, o que alimentava a paixão era a sensação de descobrir e de compartilhar. Milênios antes de a internet conectar todo mundo, o grande barato era assistir a um filme no fim de semana, ou a algum episódio novo de uma série semanal, e depois discutir com a turma. As percepções de um grupo de fãs completavam a visão em conjunto. Os fragmentos absorvidos por cada um formavam uma grande tapeçaria ao ser compartilhado. Stop. Rewind. Repeat.

Não existe, vale ressaltar, uma nostalgia besta de achar que "antigamente era melhor". Não era: era só diferente. A verdade é que não existe melhor época para devorar cada fatia da cultura pop do que hoje. Filmes, séries, gibis, traquitanas. Tudo está ao alcance, a paixão está embalada nas prateleiras, consumida com um toque em seu smartphone. O fâ nunca esteve tão bem servido.

O cinema e o streaming estão, para o bem e para o mal, dominados por propriedades intelectuais para todos os gostos e todos os públicos. É correto lamentar uma certa infantilização da arte. Mas é correto também dizer que o estilo de filme (ou série) mais reflexivo e adulto vive em simbiose com os lançamentos mais explosivos. Um não vive sem o outro, todos saem ganhando.

Eu trabalho com cultura pop há mais de duas décadas. Mas também sou fã, e compartilho a empolgação quando vejo um trailer bacana, um gibi incrível, uma equipe criativa, não importa a mídia, conduzindo os personagens que aprendi a admirar em caminhos criativos inexplorados e sensacionais.

Ninguém precisa entrar no jogo da adivinhação, ninguém é mais ou menos fã do que o outro. E ninguém, definitivamente, precisa transformar a celebração de uma paixão em ambiente tóxico. Afinal, não existe melhor momento para curtir cultura pop do que hoje.