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Roberto Sadovski

'Águia de Aço': 35 depois, como um genérico de 'Top Gun' virou filme cult

Jason Gedrick como o piloto adolescente Doug Masters em "Águia de Aço" - TriStar
Jason Gedrick como o piloto adolescente Doug Masters em 'Águia de Aço' Imagem: TriStar
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

18/01/2021 04h12

"Cobra Kai" conseguiu, com sucesso, continuar a trama do filme "Karatê Kid", misturando personagens clássicos e novos em uma ambientação contemporânea. O mais bacana da celebração dos anos 1980, porém, é ver como alguns de seus protagonistas continuam com a cabeça presa em décadas atrás.

É o caso de Johnny Lawrence (o ótimo William Zabka). O mundo girou e ele segue alheio à existência de internet ou redes sociais. Suas cantadas congelaram no machismo tacanho de outrora. Sua banda favorita é o Guns n Roses. Mas o que consolidou mesmo o vácuo temporal em que Johnny estacionou foi sua escolha como filme favorito: "Águia de Aço".

Confesso que não ouvia falar desse genérico de "Top Gun" há anos. Mas a idade me fez testemunha do barulho causado por "Águia de Aço" quando chegou às locadoras brasileiras décadas atrás. A fila para reservar a fita (é, "a fita") era grande. As conversas na hora do recreio giravam em torno de qual jato de combate seria mais poderoso, o F-14 de Tom Cruise ou o F-16 de Jason Gedrick.

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Jason Gedrick treina para a batalha vindoura em 'Águia de Aço'
Imagem: TriStar

Aqui vale um esclarecimento. "Águia de Aço" foi produzido concomitantemente com "Top Gun". Seus produtores, porém, tinham noção do tamanho do projeto da Paramount - que, diferente deles, contava com apoio militar americano. Para não perder espaço nas comparações, adiantaram seu lançamento da temporada do verão ianque de 1986 para um lançamento mais folgado em janeiro - no Brasil ele chegou aos cinemas em março.

"Top Gun" não foi, vale lembrar, o único filme que gerou uma legião de cópias mal-ajambradas. "Tubarão" e "O Exterminador do Futuro", por exemplo, geraram dúzias de clones. No começo do século 21 a produtora The Asylum elevou a arte de copiar ideias dos grandes estúdios a outro patamar, com pérolas como "Transmorphers", "Snakes on a Train", "The Da Vinci Treasure", "Almighty Thor" e a série original (e deliciosamente trash) "Sharknado".

São empresas que, seguindo a cartilha de "Águia de Aço", estudam o line up dos concorrentes mais parrudos e se apressam a confeccionar um carbono, que muitas vezes estreia antes do produto mais nobre..

"Águia de Aço", mesmo com o esforço do estúdio, foi um fracasso absurdo. Apesar da estreia no topo das bilheterias, o filme despencou e desapareceu em seguida. Mas o mercado cinematográfico dos anos 1980 era um animal diferente, e a aventura ganhou fôlego (e mais algumas dezenas de milhões de dólares) em VHS, o que justificou uma continuação, lançada em 1988. E outra em 1992. E mais uma em 1995. Suas sequências, entretanto, devem muito mais ao sucesso de "Top Gun" do que a seus próprios números.

Filmes como "Águia de Aço" mantém a engrenagem dos estúdios funcionando - ao menos era a regra décadas atrás. Como nem todo filme era um sucesso nos cinemas, produções mais baratas e feitas sem muito esmero faziam volume nas locadoras. Se pensarmos bem, uma Netflix da vida não adota uma estratégia muito diferente.

Assistir à aventura pilotada por Sidney J. Furie é como entrar numa cápsula do tempo tão bagunçada e divertida quanto as lembranças de Johnny Lawrence. "Águia de Aço" tem de tudo um pouco. Patriotismo enviesado. Zero valor moral. Personagens rasos, piorados por atores obrigados a recitar um roteiro canhestro. É um filme tão ruim que só podemos admirar o esforço sincero de quem o executou.

Embora Jason Gedrick seja o astro, quem segurou o tranco dramático foi o veterano Louis Gossett Jr., que então já ostentava um Oscar de melhor ator coadjuvante por seu trabalho em "A Força do Destino" e uma carreira sólida. "Águia de Aço" foi sua chance de ter uma série para chamar de sua - Gossett é a única constante nos quatro filmes da série.

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Gedrick e Louis Gossett Jr. antes de entrar em ação em 'Águia de Aço'
Imagem: TriStar

A trama é um absurdo saboroso. Um piloto da Força Aérea é abatido em uma operação na costa da Bilya, um país árabe fictício. Como o governo americano dá de ombros, cabe a seu filho adolescente, Doug Masters (Gedrick) traçar um plano de resgate ao lado do veterano do Vietnã e piloto da reserva Chappy Sinclair (Gossett).

A dupla "pega emprestado" um par de caças F-16 e invade a Bilya. É a deixa para combates aéreos pueris, explosões exageradas e camaradagem militar tosca. Nada faz sentido - nem a lógica, nem a física. Muito menos os diálogos. "Acho que eles vão importar petróleo esse ano", diz Doug depois de explodir, sabe-se lá como, as reservas nacionais da Bilya. Como boa parte dos filmes com temática militar da época, a única intenção aqui era tentar dar alguma moral às forças armadas americanas, sem prestígio depois do fracasso político e social da Guerra do Vietnã.

"Águia de Aço" até arriscou um verniz de produção decente. Sidney J. Furie tinha filmes bacanas no currículo, como "Ipcress - O Arquivo Confidencial", "Os Rapazes da Companhia C" e "O Enigma do Mal". A trilha sonora foi assinada por Basil Poledouris (de "Big Wednesday" e "Conan, o Bárbaro"). As músicas que acompanhavam a ação eram um apanhado do rock farofa da época (inclusive a canção tema defendida pelo já defunto King Kobra), além de trazer uma música cedida pelo Queen, a bombástica "One Vision".

Mas foi pouco para injetar qualquer qualidade redentora a "Águia de Aço". Os anos foram generosos com o filme no sentido de lhe dar status de relíquia de uma era cafona que não volta mais. Entusiastas discutem, com o poder das redes sociais, a capacidade bélica aparentemente infinita do caça pilotado por Doug Masters. Outros fãs defendem que Masters é um piloto melhor que Maverick, personagem de Tom Cruise em "Top Gun".

É como a cultura pop funciona, em ciclos. É exatamente por isso que "Águia de Aço" encaixa-se perfeitamente nas entrelinhas de "Cobra Kai" e no gosto "apurado" de Johnny Lawrence: o que antes era um drama familiar disfarçado de produção militarizada hoje é encarado como comédia involuntária. "Águia de Aço" pode ser tosco até a medula, mas é divertido em sua sinceridade.

Em 1986, estacionou bem abaixo das trinta maiores bilheterias do ano - que foram lideradas, com zero ironia, justamente por "Top Gun". Seria até covardia comparar a não-carreira de Jason Gedrick com o status de astro global de Tom Cruise. Quis o destino, porém, que eles dividissem o mesmo filme. Em 1989, Cruise encabeçou o drama "Nascido em 4 de Julho", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Gedrick, por sua vez, tem uma ponta no drama de Oliver Stone. Isso é Hollywood!