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Roberto Sadovski

Oscar 1999: Shakespeare, Benigni, Paltrow e um ano que viverá na infâmia!

Gwyneth Paltrow em "Shakespeare Apaixonado" - Miramax
Gwyneth Paltrow em 'Shakespeare Apaixonado' Imagem: Miramax
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

29/11/2020 06h41

Glenn Close, em entrevista recente, minimizou o jogo do Oscar, estatueta que ela nunca ganhou mesmo após sete indicações. Como exemplo da aleatoriedade da premiação, ela me lembro da vitória de Gwyneth Paltrow, laureada como melhor atriz por seu trabalho em "Shakespeare Apaixonado".

"Eu lembro o ano em que Gwyneth ganhou daquela atriz incrível que fez 'Central do Brasil' ", apontou Close. "Não faz o menor sentido." A atriz incrível, claro, é Fernanda Montenegro, que comentou a lembrança ao jornalista Pedro Bial: "Eu, por exemplo, teria dado o prêmio a Cate Blanchett". Fernanda é uma lady.

A verdade é que esse Oscar bisonho arrematado por Gwyneth Paltrow foi o menor dos problemas da cerimônia do Oscar de 1999. Em um ano claramente dominado pelo lobby pesado engendrado pelo então über produtor (e atual presidiário) Harvey Weinstein, os filmes de sua Miramax tiveram êxito em uma festa que a história não foi generosa.

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Vinicius de Oliveira e Fernanda Montenegro em 'Central do Brasil'
Imagem: VideoFilmes/Europa

Antes de mais nada, já deixo claro que o Oscar ainda é a principal premiação do cinema mundial. Pode não ter o glamour da Riviera como o Festival de Cannes, pode não ser sempre sinônimo de qualidade cinematográfica. E pode, muitas vezes, sucumbir à histeria momentânea em torno de alguns títulos que o tempo trata de julgar com mais objetividade.

Ainda assim, a cerimônia da Academia é uma festa democrática, com milhares de votantes espalhados pelo planeta, inferindo um panorama do ano que passou e também servindo como janela mundial para filmes que, em outras circunstâncias, ficariam restritos a circuitos exibidor independentes.

O que não impede que erros grotescos tenham sido cometidos ao longo de sua história. "E o Vento Levou", por exemplo, pode ser um dos filmes mais notórios da história. Mas é um descalabro colocar na mesma balança a direção (premiada) de Victor Fleming com o trabalho mais sólido de John Ford ("No Tempo das Diligências") e Frank Capra (A Mulher Faz o Homem").

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Alfred Hitchcock, acredite, nunca ganhou um Oscar como diretor
Imagem: Reprodução

Quer mais absurdos? Que tal o dramalhão "O Maior Espetáculo da Terra" triunfar sobre a obra-prima "Matar ou Morrer" em 1953? Ou "A Volta ao Mundo em 80 Dias" escolhido como melhor filme em 1957, em uma cerimônia que sequer indicou "Rastros de Ódio", "Vampiros de Almas", "O Homem Que Sabia Demais" e "O Grande Golpe"?

Sobre estes dois últimos, vale ressaltar que nem Alfred Hitchcock, muito menos Stanley Kubrick, foram premiados por seu trabalho na direção, apesar de múltiplas indicações. Já um diretor mediano como John G. Avildsen levou por "Rocky, Um Lutador". E eu adoro "Rocky" como qualquer mortal... Mas ele não é neste plano de existência um filme superior a "Todos os Homens do Presidente", "Rede de Intrigas" ou "Taxi Driver".

Já que estou destilando bile aqui, é um absurdo que uma das canções mais medíocres do gênio Stevie Wonder, "I Just Called to Say I Love You", tenha superado "Ghostbusters", "Agains All Odds" e "Footloose" em 1985.

A gente pode passar o dia inteiro aqui nos lembrando de outras vitórias absurdas como "Gente Como a Gente" (que bateu "Touro Indomável"), "Conduzindo Miss Daisy" (no ano em que "Faça a Coisa Certa" sequer concorreu), "O Discurso do Rei" (que jamais será melhor que "A Rede Social") e "Green Book" (no ano de "Infiltrado na Klan", "Roma" e "Pantera Negra"). "Cidadão Kane"? Ah, me aguarde ainda essa semana...

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Tom Hanks (à dir.) em 'O Resgate do Soldado Ryan'
Imagem: Paramount

Nada, porém, tira o gosto amargo deixado por 1999. Com a virada do milênio se aproximando, a Academia tinha a oportunidade para traçar caminhos que fossem mais artísticos e menos políticos. Gwyneth Paltrow já teve grandes papéis (como em "Jogada de Risco" e "Se7en"). "Shakespeare Apaixonado" não traz, nem de longe, a atriz em seu melhor.

Eu desafio, por sinal, a turma a lembrar com carinho do filme de John Madden, que posteriormente embarcou em uma montanha russa de qualidade, em trabalhos como "O Capitão Corelli", "O Exótico Hotel Marigold", "Killshot" e "Armas na Mesa". A dramatização do bloqueio criativo do Bardo é um drama romântico fofo e esquecível, mas que não se sustenta ante a concorrência.

Na cerimônia de 1999, ela veio sob o peso da Segunda Guerra Mundial, e estava a gosto do freguês. Podia ser a guerra como contemplação sufocante nas mãos de Terrence Malick em "Além da Linha Vermelha". Ou podia vir com o bombardeio sensorial e emocional promovido por Steven Spielberg em "O Resgate do Soldado Ryan". Spielberg levou o Oscar de direção. Foi feio não abocanhar também por seu filme.

O amor por "Shakespeare Apaixonado" foi tão grande que o filme ainda levou em outras categorias, batendo "Amor Além da Vida", A Vida em Preto e Branco", "Elizabeth" e o próprio "Ryan" em direção de arte; entregando uma estatueta de coadjuvante para a brevíssima aparição de Judi Dench (Lynn Redgrave era favorita por "Deuses e Monstros"); e um inacreditável prêmio para melhor roteiro original, quando "O Show de Truman" concorria na mesma categoria. Absurdo!

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Roberto Benigni em 'A Vida É Bela'
Imagem: Paris

Quer saber? Absurdo REAL no Oscar 1999 foi a chuva de prêmios para "A Vida É Bela". Eu sei que o filme italiano tem uma legião de fãs, e garanto se nenhuma hesitação: estão todos errados! O drama de Robert Benigni é uma espécie de "O Trapalhão no Campo de Concentração", um folhetim de quinta que ganhou como filme estrangeiro ("Central do Brasil" foi, até o momento nossa última indicação ao Oscar).

O pior, mesmo, foi o Oscar para Benigni como melhor ator. Foi como Didi ganhar o prêmio da Academia! Para refrescar a memória, concorriam Tom Hanks ("O Resgate do Soldado Ryan"), Ian McKellen ("Deuses e Monstros"), Nick Nolte ("Temporada de Caça") e Edward Norton ("A Outra História Americana"). É o fim da picada.

Quando Benigni subiu ao palco, em uma demonstração de histeria de plástico, comentei com um amigo que via a cerimônia comigo que seria a última vez que ouviríamos falar do sujeito. A exceção seria quando ele voltasse à festa no ano seguinte para entregar o Oscar para a melhor atriz em 2000. Ok, ele escreveu, dirigiu e protagonizou uma versão de "Pinóquio" em 2002. É um dos filmes mais constrangedores da história da humanidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL