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Roberto Sadovski

Gerard Butler: O herói genérico que funciona encara o fim do mundo. De novo

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

20/11/2020 02h10

O filme número um na Netflix hoje era 'Tempestade: Planeta em Fúria", uma bobagem em que Gerard Butler como um engenheiro que precisa salvar o mundo de uma catástrofe apocalíptica. Ninguém me convence que é coincidência.

Afinal, o lançamento mais parrudo da semana, "Destruição Final: O Último Refúgio", traz Gerard Butler como um arquiteto que precisa salvar o mundo de uma catástrofe apocalíptica. Ou, ao menos, sobreviver a ela. Você entendeu.

Desde que foi alçado à condição de astro quinze anos atrás com a aventura "300", o ator escocês nunca alcançou o status de um Brad Pitt da vida. Nem precisa. Ele mantém o sucesso repetindo o mesmo tipo filme após filme: o tiozão genérico, o sujeito que transborda charme com a mulherada, que se vira no churrasco, abre uma cerveja e bota as crianças pra dormir.

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Gerard Butler encara o fim do mundo em 'Destruição Final'
Imagem: Diamond

Ao fugir da personalidade inalcançável de muitos de seus colegas, Butler parece contente em seu quadrado. Ele nunca fez um filme pavoroso, mas também está longe de ancorar algum megasucesso Ele mantém-se no meio do caminho, acumulando filmes decentes com personagens que poderiam ser um vizinho camarada.

Não que ele seja um ator ruim. Pelo contrário, Butler é consciente de sua presença cênica e dá a seus personagens a naturalidade que cria conexão imediata com quem está do lado de cá. Mesmo quando o filme joga o realismo pela janela, o ator nos lembra que aquilo poderia acontecer com qualquer um de nós.

Foi assim que ele manteve os pés no chão como coadjuvante em "Reino de Fogo" (com Matthew McConaughey e Christian Bale), "Linha do Tempo" (com Paul Walker) e "Tomb Raider - A Origem da Vida" (com Angelina Jolie). Foi canastrão no picareta "Drácula 2000", em que fez um Príncipe das Trevas de mullet, e mais ainda em "O Fantasma da Ópera".

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O Rei Leonidas de '300' fez de Butler um astro
Imagem: Warner

O sucesso de "300" poderia ter aberto as portas do nirvana cinematográfico. Mas Butler não estava interessado em buscar projetos mais ambiciosos, agarrando-se a dramalhões ("P.S. Eu Te Amo"), comédias românticas ("A Verdade Nua e Crua", "Caçador de Recompensas") e filmes de ação de segunda ("Gamer", "Código de Conduta", "Redenção").

Errado ele não estava. Ao longo da última década e meia, Gerard Butler fincou os pés solidamente em um gênero que o mundo teima em não esquecer, o "herói da videolocadora". O ator que protagoniza filmes só ok que faziam volume no pacote "pegue na sexta, devolva na segunda" e surgiam como alternativa à tragédia programada para o Supercine.

"Destruição Final: O Último Refúgio" é, honestamente, acima de sua média. É um drama apocalíptico dirigido com segurança por Ric Roman Waugh que coloca Butler casado com Morena Baccarin, lutando contra o relógio para ganhar abrigo quando a Terra se encontra ameaçada por uma chuva de meteoros que pode decretar o fim da humanidade.

Sim, é um "Impacto Profundo" com menos núcleos dramáticos e ambição menor ainda. O orçamento enxuto fez com que Waugh se concentrasse mais no drama familiar do que na destruição em massa. É exatamente o que esperava ao encarar um filme com Gerard Butler. E é perfeito para um sábado desavisado.

Não que Gerard Butler dê a mínima. Ele já conseguiu, em sua carreira mediana, o que muito astro ainda luta para alcançar: uma série para chamar de sua e garantir a aposentadoria. Em "Night Has Fallen", o astro (ok, vai) assume pela quarta vez o papel do agente federal Mike Banning, protagonista do deliciosamente cafona "Invasão à Casa Branca" e suas duas continuações. Há destinos piores!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL