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The Boys: Sociopatas e ególatras, assim seriam os super-heróis na vida real

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

16/10/2020 00h43

Se super-heróis existissem no mundo real, seria muito provável que o mundo não tivesse um Superman, e sim um Capitão Pátria. Ao menos é essa a certeza ao final da segunda temporada de "The Boys", que adapta para o streaming da Amazon a série em quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson. Líder da equipe Os Sete, o Capitão Pátria mantém uma fachada heroica e altruísta que esconde um sociopata ególatra. Se o poder corrompe, pode ter absoluta certeza que não há limites para a corrução do poder sem freios.

Essa segunda temporada de "The Boys", que foi servido a conta-gotas em um capítulo por semana, pegou muita gente de surpresa. Não só pela qualidade, já evidenciada em sua estreia. Mas também pela inusitada relevância ao espelhar em uma trama de fantasia questões políticas e sociais muito próximas às que o mundo experimenta hoje. Da indecência do relacionamento do poder público com uma empresa privada à obsessão de seus protagonistas pelos holofotes, passando por racismo, fanatismo pseudo religioso autoritarismo da extrema direita, o programa comandado pelo produtor e roteirista Eric Kripke não viu um balde que não pudesse ser chutado.

the boys equipe - Amazon Prime - Amazon Prime
Karl Urban (à esq.) e seu time casca-grossa em 'The Boys'
Imagem: Amazon Prime

Seu maior triunfo, nesse recorte, é extrapolar a desconstrução da figura do super-herói, criando aqui um grupo de pessoas poderosas que, longe da nobreza projetada pelas fantasias coloridas, reflete a ameaça de quem torna-se inebriado pelo poder. Essa desconstrução funciona, claro, porque o público tem sido doutrinado há pelo menos duas décadas com uma cultura pop sustentada pela figura dos super-heróis: sabemos como funciona, agora já podemos tirar o verniz.

Tudo isso é traduzido em uma série esperta e subversiva, além de desbocada e ultraviolenta. A treta principal é entre o Capitão Pátria (Anthony Starr) e Billy Bruto (Karl Urban), que encabeça um grupo determinado a revelar os pobres dos "supers". A trama acelera quando a verdade sobre seus poderes - fruto de uma droga patenteada por um conglomerado poderoso - ameaça minar a confiança do público em seus heróis, o que traria como consequência uma queda no valor das ações da tal empresa. Dinheiro e poder, a tempestade perfeita.

O mais bacana é que "The Boys" nunca se arrasta. As reviravoltas são constantes. A ação traz violência que beira o absurdo, mas sempre alinhada com a proposta narrativa. Mesmo em meio aos fogos de artifício, o foco nunca deixa de ser a interação entre os personagens. O que é uma raridade neste sub gênero que, hoje, determina os rumos do entretenimento. A Netflix deve contra-atacar com "O Legado de Júpiter", que mostra a desconstrução da ideia de super-heróis sob um outro prisma.

Até lá, "The Boys" permanece como a série mais indispensável que 2020 produziu até agora. É sobre seu sucesso, sua temática e seu elenco fantástico que eu falo em minha coluna em vídeo esta semana no canal do UOL no YouTube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL