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Christopher Nolan quer salvar o cinema com 'Tenet'

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

27/05/2020 23h00

No começo do ano, havia dois filmes que eu fazia absoluta questão de assistir em 2020: "Tenet", de Christopher Nolan; e "Duna", de Denis Villeneuve. Então veio a pandemia do coronavírus, e os planos meio que foram por água abaixo. Com os cinemas fechados e a quarentena global decretada (ao menos com a parte pensante da população), os grandes estúdios pisaram no freio e alteraram o lançamento de seus grandes filmes, mexendo no calendário que, até agora, continua fluido.

Aparentemente Christopher Nolan não recebeu o memorando. Com a chegada do segundo trailer de "Tenet" alguns dias atrás, a expectativa era ver se o cineasta, um dos maiores defensores da experiência cinematográfica, ia mudar a data da estreia do filme. Nada feito. Se o trailer avisava em letras garrafais um "somente nos cinemas!", o poster trazia a data original para a chegada de "Tenet" nos multiplexes: 17 de julho.

Eu li muitos fãs falando sobre "irresponsabilidade", mas acredito que seja exatamente o contrário. Nolan, responsável por grandes momentos do cinema contemporâneo como "Batman - O Cavaleiro das Trevas", "A Origem", "Interestelar" e "Dunkirk", não quer afrontar uma pandemia: ele quer salvar a experiência cinematográfica.

O streaming tornou-se por motivos óbvios a plataforma ideal para manter o interesse por filmes e séries, já que conta com a segurança do lar. Mas algumas produções são pensadas para a grandiosidade da tela grande e o prazer da experiência coletiva. Essa experiência obviamente vai sofrer mudanças, e "Tenet" pode ser o primeiro filme a sugerir qual seria o formato para o futuro próximo. Porque, obviamente, é uma produção que precisa de escopo para ser absorvida - a trama envolve John David Washington, Robert Pattinson, Terceira Guerra Mundial e a capacidade de inverter o fluxo do tempo.

Para isso, em vez de olhar para o futuro, é prudente compreender o passado. O cinemão atual vive de grandes números por conta dos altíssimos custos de produção de filmes como "Tenet" - que encosta em 200 milhões de dólares. Mas a realidade pós-pandemia não deve abrigar multidões lotando cinemas simultaneamente para uma estreia polpuda. Talvez o que o filme de Nolan possa sugerir seja um começo mais moderno, mas com tempo, semanas ou até meses, para que o filme torne-se o sucesso que merece. O cinema já foi assim. Pode voltar a ser.

É justamente a coragem de Christopher Nolan (e da Warner, estúdio por trás de "Tenet" e que permanece alinhado com o cineasta) em navegar à frente de seus pares este oceano misterioso que será o entretenimento coletivo do amanhã que eu tento decifrar na coluna em vídeo da semana. Quer saber? Se existe alguém capaz de reconfigurar o futuro, este alguém é Christopher Nolan.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL