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40 anos de 'O Iluminado': Jack Nicholson faz uma falta danada ao cinema!

Jack Nicholson em "O Iluminado" - Warner
Jack Nicholson em 'O Iluminado' Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

25/05/2020 05h34

E já se vão quatro décadas desde que Jack Torrance sucumbiu aos fantasmas perambulando pelo Overlook Hotel e mergulhou pesado na insanidade. Stanley Kubrick perverteu o livro de Stephen King e fez de "O Iluminado" um animal de vida própria, assustador e inesquecível.

Não existe imagem do filme mais poderosa que Jack, em fúria assassina para retalhar sua mulher e filho com um machado, arrebentando uma porta e enquadrando suas feições perdidas para a loucura. "Here´s Johnny", disparou, cravando o momento na história do cinema.

Não haveria Jack Torrance, claro, sem Jack Nicholson. Quando encabeçou o filme de Kubrick, o ator já possuia louros no cinema, carregando um Oscar na sacola (por sua performance em "Um Estranho no Ninho") e uma coleção de personagens inesquecíveis.

Jack Nicholson estranho no ninho - Warner - Warner
Jack Nicholson em 'Um Estranho no Ninho'
Imagem: Warner

Antes de isolar-se no Overlook, Jack havia caido na estrada com Dennis Hopper e Peter Fonda em "Sem Destino", perdeu a paciência em uma lanchonete em "Cada Um Vive Como Quer", descobriu que a vida não é nada justa em "Chinatown" e perdeu-se no deserto em "Profissão: Repórter".

Lapidado na escola de Roger Corman como um talento bruto a emergir do mundo dos filmes B, Nicholson faz parte de uma geração que subverteu a definição de "astro" ao abraçar o trabalho como ator de forma visceral, criando não personagens, mas pessoas complexas e magnéticas em celuloide.

Dessa forma, ele (e Gene Hackman, e Dustin Hoffman, e Al Pacino, e Robert De Niro) reescreveu o que era ser um ator na esfuziante "nova" Hollywood dos anos 70, ditando um novo padrão para a profissão, um patamar pelo qual até hoje qualquer um que se assisque em frente às câmeras precisa seguir.

A mistura de Nicholson e Kubrick, no alvorecer da década de 80, parecia irresistível: o autor cerebral e brilhante, comandando um dos atores mais imprevisíveis de uma geração. "O Iluminado", como não poderia deixar de ser, redefiniu o que era o cinema de terror para uma nova geração, trilhando o caminho aberto por "O Exorcista" menos de uma década antes ao emprestar ao gênero prestígio e importância no cinema mainstream.

INTERESSANTE E IMPREVISÍVEL DOS DOIS LADOS DA CÂMERA

Como Jack Torrance, Nicholson não se conteve, construindo um retrato da loucura que, mesmo sem os elementos sobrenaturais da trama, seria capaz de subverter as expectativas não só no conforto das poltronas do cinema, como também no set.

Kubrick colaborou para o clima intenso: é sabido que a atriz Shelley Duvall sofreu um colapso nervoso durante as filmagens. Nicholson disse posteriormente que a performance de sua parceira foi o papel mais difícil que ele já viu uma atriz abraçar.

Quando "O Iluminado" finalmente foi lançado, depois de uma filmagem longa e complicada (Kubrick não ficava satisfeito com uma cena facilmente, e algumas precisavam de uma centena de takes para seu contento), o público abraçou a mistura do terror psicológico com imagens apavorantes - em especial o elevador que despeja um rio de sangue em direção à plateia.

Curiosamente, uma das vozes dissonantes ao ver o projeto pronto foi a do próprio Stephen King. Ele teve seu roteiro, adaptando sua própria obra, rejeitado por Kubrick, e retomou a mesma história anos depois em uma minissérie para a TV. Que não fez fumaça: afinal, não tinha Jack Nicholson.

Jack Nicholson batman - Warner - Warner
Jack Nicholson em 'Batman'
Imagem: Warner

"O Iluminado" foi um ponto de virada para o ator. O cinema aos poucos aliviava a ousadia da geração da década anterior, já inserida em uma nova maneira de os estúdios encararem o cinema. Sempre foi um negócio, mas Nicholson e seus pares fizeram questão de enfatizar que eles faziam arte, e não uma busca para imprimir dólares.

E foi Nicholson, nos anos seguintes, o mais bem-sucedido de sua geração. Trafegando com facilidade pelo cinema mainstream, mas sem abrir mão de projetos artisticamente mais desafiadores, o ator logo tornou-se um astro de projeção global, uma figura interessante em cena e imprevisível longe dos set de filmagem.

O que se seguiu foi uma série de projetos espetaculares - e mesmo os mais modestos experimentam outro escopo simplesmente por sua presença. "O Destino Bate à Sua Porta", "Reds", "Laços de Ternura" (que lhe rendeu seu segundo Oscar), "A Honra do Poderoso Prizzi", "A Difícil Arte de Amar" e "IronWeed" (ambos com Meryl Streep). Uma filmografia que o consolidou como um dos atores mais versáteis que o cinema já produziu.

O ASTRO DE 60 MILHÕES DE DÓLARES

Então veio "Batman". E Jack foi para outro patamar. A adaptação das aventuras do Homem-Morcego ganhou em Tim Burton ares de fantasia gótica, e Nicholson foi o primeiro ator a assinar na linha pontilhada. Como o Coringa, ele também viu sua fortuna ganhar a estratosfera, recebendo quando a poeira baixou cerca de 60 milhões de dólares.

Qualquer outro ator poderia relaxar, mas não Jack. Os anos 90 viram Nicholson entregando performances ainda mais ousadas e surpreendentes. Como em "Questao de Honra", em que ele empalidece Tom Cruise e todo o elenco em uma única cena ("Você não pode lidar com a verdade!", grita, no tribunal militar, fazendo história).

Ele foi o líder sindical mais poderoso dos Estados Unidos em "Hoffa". Interpretou um lobisomem que rompe as convenções do terror em "Lobo". Partiu em busca de vingança em "Acerto Final". Divertiu-se absurdamente em papel duplo no delicioso "Marte Ataca!", mais uma vez com Tim Burton. E garantiu um terceiro Oscar com a comédia dramática "Melhor É Impossível".

Jack Nicholson melhor impossível - Sony - Sony
Jack Nicholson em 'Melhor É Impossível'
Imagem: Sony

O novo milênio trouxe Jack Nicholson desacelerando, equilibrando projetos densos (como "A Promessa" e "As Confissões de Schmidt") com filmes mais leves, que não exigiam muito além de seu enorme carisma. Foi assim com Adam Sandler em "Tratamento de Choque". Foi assim com Diane Keaton em "Alguém Tem Que Ceder".

Talvez o cinema do novo milênio não trouxesse mais desafios a Jack Nicholson. Talvez tivesse chegado o momento de ele deixar que uma nova geração de atores pudesse emprestar sua própria complexidade a personagens que ele faria de olhos fechados. Talvez...

Seu último grande filme foi uma bem-vinda e demorada parceria com o diretor Martin Scorsese, com quem bizarramente ele nunca trabalhara. "Os Infiltrados" trouxe um embate entre Leonardo DiCaprio e Matt Damon. Mas o filme incendeia de verdade quando Jack está em cena. Memorável como sempre. Imprevisível como nunca. Com a certeza de ter deixado um legado irretocável.

TIRANDO O PÉ DO ACELERADOR

Para mim isso ficou claro em 2007, a única oportunidade que tive para entrevistar Jack Nicholson. O filme era a comédia dramática "Antes de Partir", em que ele divide a cena com Morgan Freeman. Um projeto bobo, leve, que o levou a trabalhar com amigos queridos.

Isso ficou claro em nosso papo, em que ele conversou comigo ao lado de Freeman. E ficou claro que nenhum dos dois estava muito interessado em "vender" o filme, e sim em aproveitar mais um momento dentro do circo que é Hollywood. Ainda assim, um bom papo com dois dos maiores atores que o planeta já viu.

Lá se vão dez anos desde que Jack Nicholson apresentou o epílogo de sua carreira. Ele fez "Como Você Sabe" praticamente como um favor para um amigo, o diretor James L. Brooks. Tranquilo, como coadjuvante para Paul Rudd e Owen Wilson, em um filme modesto, que levou quatro meses de sua estreia nos Estados Unidos antes de finalmente chegar aos cinemas do Brasil.

Jack Nicholson infiltrados - Warner - Warner
Jack Nicholson em 'Os Infiltrados'
Imagem: Warner

Nessa década, Nicholson, hoje com 83 anos (completados em 22 de abril), relaxou. Ele não assumiu uma aposentadoria, mas parece ter mais prazer em acompanhar uma partida dos LA Lakers do que o ritmo de um set de filmagem.

Nesse tempo ele recusou convites de Robert Downey Jr. (o papel em "O Juiz" ficou com Robert Duvall), Warren Beatty (ele o queria em "Rules Don´t Apply", mas não como o bilionário Howard Hughes) e Alexander Payne (o protagonista de "Nebraska" terminou com Bruce Dern, que foi indicado ao Oscar). A refilmagem de "Tony Erdmann" ganhou tração em 2016, mas terminou engavetada.

Celebrar as quatro décadas de "O Iluminado" é um sentimento agridoce. De um lado, somos brindados com um dos melhores trabalhos de um dos maiores atores que o cinema já criou. Por outro, é uma lembrança que, hoje, temos o seu legado, mas dificilmente reencontraremos Jack Nicholson na sala escura. Sua obra, por outro lado, é eterna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL